Para compreendermos (…) precisamos entender a questão da consciência. Que entendemos por consciência? (…) A consciência, de certo, é um processo de reação a um estímulo, a que chamais experiência. Isto é, há um desafio, que é sempre novo; mas a reação é sempre velha. (…) Essa experiência recebe uma designação (…) ela é boa ou má, agradável ou dolorosa. (…) Assim, a consciência, nos diferentes níveis, é o processo total do experimentar (…). Esse processo total, (…) chama-se consciência. (…) A memória é o armazém, o registro, e é a memória que intervém, que reage ao estímulo; e a esse processo chamamos consciência. (…) (Arte da Libertação, pág. 53-54)

(…) Por consciência entendemos (…) o pensamento, o sentimento e a ação, conscientes ou inconscientes. (…) Os sentidos, que criam o sentimento, e as fórmulas, os conceitos, as idéias, a opinião, a crença positiva ou negativa – tudo isso está compreendido no campo da consciência. (…) (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 111)

A consciência constitui toda a esfera de nosso pensamento, todo o campo da idéia e da ideação. O pensamento organizado se torna idéia, da qual resulta ação; e a consciência se constitui de muitas camadas de pensamento, ocultas e patentes, conscientes e inconscientes. É a esfera do conhecido, da tradição, da memória do que foi. É o que temos aprendido, o passado em relação ao presente. (Experimente um Novo Caminho, pág. 38)

O passado transmitido através de séculos, o passado da raça, da nação, da comunidade, da família; os símbolos, as palavras, as experiências, o choque dos desejos contraditórios; as inumeráveis lutas, prazeres e dores; as coisas que aprendemos de nossos antepassados e as modernas tecnologias que se lhes acrescentaram – tudo isso constitui a consciência, é o campo do pensamento, (…) do conhecido, e nós vivemos na superfície desse campo. (…) (Idem, pág. 38)

Se olhamos o conteúdo da consciência encontramos recordações, temores, ansiedades, o “eu creio” e o “eu não creio”, todos produtos do tempo. E o pensamento diz que isto é tudo que tenho, devo protegê-lo, defendê-lo (…). O movimento do pensar tem sua origem na memória; ainda que pense em liberdade, segue pertencendo ao passado. Portanto, não pode produzir mudança radical. (…) (Tradición y Revolución, pág. 95-96)

A consciência, tal como a conhecemos, pertence ao tempo, é um processo de registro a acumulação de experiência, nos seus diferentes níveis. Tudo o que ocorre no interior dessa consciência é sua própria projeção; tem qualidade própria e é mensurável. Durante o sono, ou essa consciência se fortalece ou sucede algo de todo diferente. Para a maioria de nós, o sono fortifica a experiência, é um processo de registrar e acumular, no qual há expansão, mas não renovação. (…) Esse processo de vir a ser tem de cessar completamente, (…). (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 37)

O outro ponto é: “Não é necessário despejarmos tudo o que está oculto nos labirintos do subconsciente para nos descondicionarmos?” Como disse, a consciência é constituída de diferentes camadas. Primeiro, temos a camada superficial, e abaixo desta a memória, porque sem memória não há ação.

Imediatamente abaixo está o desejo de ser, de “vir a ser”, o desejo de realizar. Se vos aprofundardes mais, encontrareis um estado de completa negação, de incerteza, de vazio. Esse total constitui a consciência. (…) (A Arte da Libertação, pág. 117)

Pois bem, enquanto houver o desejo de ser, de “vir-a-ser”, de realizar, de obter, há de haver o fortalecimento, nas muitas camadas da consciência, do “eu” e do “meu”; e o esvaziamento dessas muitas camadas só é possível quando compreendeis o processo de “vir a ser” (Idem, pág. 117)

Quando um problema não é solúvel conscientemente, pode o inconsciente ajudar a resolvê-lo? Que é o consciente e que é o inconsciente? Existe uma linha precisa onde um acaba e o outro começa? Tem o consciente um limite que não pode ultrapassar? (…) O inconsciente é uma coisa separada do consciente? São os dois dissimilares? Na falta de um, o outro começa a funcionar? (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 133-134)

Ora, sabemos que existe a mente consciente e a mente inconsciente, mas a maioria de nós funciona apenas no nível consciente, na camada superficial da mente, e toda a nossa vida (…) se limita a isso. Vivemos na chamada mente consciente e nunca damos atenção à mente inconsciente, mais profunda, da qual nos vem ocasionalmente uma mensagem, uma sugestão; mas essa sugestão não é atendida, ou é adulterada. (…) (Que Estamos Buscando, 1ª ed., pág. 174)

Nosso problema (…) é este; existe, de fato, um estado único, e não dois estados, como sejam o consciente e o inconsciente; só há um “estado de ser”, que é a consciência, embora gostemos de dividi-la em consciente e inconsciente. Mas a consciência é sempre do passado, nunca do presente; (…). Nunca estamos conscientes do agora. (…) Observai os vossos corações e as vossas mentes, e vereis que a consciência funciona sempre entre o passado e o futuro, sendo o presente mera passagem do passado para o futuro. (…) (Que Estamos Buscando, 1ª ed., pág. 175)

A mente consciente está claramente procurando uma saída do problema, e essa saída é uma conclusão satisfatória. Não é a mente consciente, ela própria, constituída de conclusões, positivas ou negativas, e será capaz de procurar algo diferente? (…) Não há dúvida de que a mente consciente é constituída do passado, está fundada no passado, (…). Ela é incapaz de examinar o problema sem a cortina protetora de suas conclusões; é incapaz de estudar, de estar silenciosamente cônscia do próprio problema. Conhece, apenas, conclusões agradáveis ou desagradáveis, e só é capaz de acrescentar, a si própria, mais conclusões, mais idéias, mais fixações. (…) (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 134)

Krishnamurti: Voltemos a isto. Penetrando na consciência, e vendo quão fragmentária ela é, pode naturalmente uma (parte dos fragmentos) transformar-se na outra (a total). Então viriam juntos, porque temos dividido a vida em consciente e inconsciente, oculto e revelado. Este é o ponto de vista psicanalítico, psicológico. Para mim, pessoalmente, isto não ocorre. Não separo o consciente do inconsciente. Mas aparentemente, para a maioria de nós, há essa divisão. (The Awakening of Intelligence, pág. 386)

(…) Dá-se a verdadeira integração quando, por todas as camadas da consciência, existe percepção e compreensão (…). As numerosas partes adversas e contraditórias da nossa consciência só podem integrar-se quando já não existe a causa dessas divisões; dentro do padrão do “eu” só pode haver conflito; nunca integração, plenitude. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 134)

Krishnamurti: (…) Se não há conteúdo, não há consciência. Dentro da consciência há muitos fragmentos; não é um único conteúdo sólido. Existem diferentes níveis, atitudes, características, atividades, (…). Tudo isso é a consciência total. Uma parte dessa consciência total, um fragmento, assume importância; então diz: “eu sou a consciência”, ou “eu não sou a consciência”, “eu sou isto”, “eu não sou isto”. (Tradición y Revolución, pág. 148)

Nossa consciência (…) está ocupada com os próprios conceitos e conclusões, assim como com as idéias de outra gente; está cheia de temores, ansiedades e prazeres, e, junto a ocasionais expressões de alegria, está a dor. Essa é nossa consciência. Esse é o padrão da existência que levamos. (La Totalidad de la Vida, pág. 192)

É de algum modo possível produzir uma mudança radical na própria consciência? Porque, se isso não é possível, estamos vivendo perpetuamente em uma prisão com nossas idéias, (…) conceitos – vivendo em um campo (…) de confusão, incerteza, instabilidade. E ao indivíduo parece que, se se move de um lugar a outro desse campo, terá mudado grandemente; porém continua no mesmo campo. Enquanto vivemos dentro do campo a que chamamos nossa consciência, (…) ainda assim não há nesse campo uma transformação humana fundamental. (Idem, pág. 192)

O “eu” é uma entidade total. Conquanto falemos de “consciente” e “inconsciente”, só existe de fato um estado: a consciência. Conhecemos a arte que chamamos “o consciente”; a outra parte, porém, é muito difícil de conhecer-se; entretanto, a mente é um processo total que inclui tanto a consciência interior como a consciência periférica, o oculto bem como o manifesto. Ora, pode uma pessoa tomar conhecimento dessa consciência total que é o “eu”, com seus desejos, suas ânsias, seus temores, seus impulsos, sua luta constante para aperfeiçoar- se, sua ânsia de preenchimento – (…) sem fortalecer a atividade do “eu”? E pode todo esse processo do “eu” terminar? (…) (Percepção Criadora, pág. 5-7)

Ora, pode uma pessoa tomar conhecimento dessa consciência total que é o “eu”, com seus desejos, suas ânsias, seus temores, seus impulsos, sua luta constante para aperfeiçoar-se, sua ânsia de preenchimento – (…) sem fortalecer a atividade do “eu”? E pode todo esse processo do “eu” terminar? Por certo, ele não pode extinguir-se por um ato de volição, (…) de nenhum artifício, nem pela repetição de frases, (…). (Idem, pág. 57-58)

(…) Se vos tornardes indiscriminadamente cônscios do “eu” em todas as suas atividades; cônscios de todo o processo do nosso pensar, tanto o cognitivo como o oculto; se perceberdes sem julgamento nem condenação, produzireis infalivelmente aquela revolução no centro. A mente se tornará então sutil num grau extraordinário, espantosamente ativa e vigilante (Idem, pág. 59)

Tende (…) e vereis que a ação criadora é uma coisa que nasce quando a mente está tranqüila, quando o “eu” está totalmente ausente. A atividade criadora que conhecemos ocasionalmente, resultante de agitação, não é a mesma coisa que a ação criadora livre do centro. A ação criadora livre do centro não é temporal, porque não é invenção da mente; (…). Mas a criação a que me refiro não é para dar-nos satisfação, é algo totalmente desconhecido, (…) e virá apenas quando a mente, perfeitamente cônscia do processo do “eu”, compreende a significação deste e, por conseguinte, não mais o nutre de experiência. (Percepção Criadora, pág. 60)

(…) Como indivíduos, tendes que compreender o processo da consciência por meio do discernimento direto, sem escolha. A autoridade do ideal e do desejo impede e perverte o verdadeiro discernimento. Quando há carência, quando a mente está cativa dos opostos, não pode haver discernimento. As reações psicológicas impedem o verdadeiro discernimento. Se dependermos da escolha, do conflito dos opostos, criaremos sempre a dualidade em nossas ações, (…). (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 13-14)

(…) Descobrimos, assim, uma coisa muito interessante, ou seja, que todo conhecimento é o passado, todo conhecimento tecnológico vem dele, e esse passado se “projeta”, modificado pelo presente, no futuro. Assim, vós como entidade sois o passado, (…) vossas “memórias”, (…) tradições, (…) experiência. Acabamos de ver, pois, que o “vós”, o “eu”, o “ego”, o “superego”, tudo é passado. (…) (O Novo Ente Humano, pág. 141)

(…) Queremos que esse “eu” subsista e se torne perfeito, e, por conseguinte, dizemos que além do “eu” está um “super-eu”, um “eu” mais alto, uma entidade espiritual atemporal. Mas, visto que a pensamos (…) está ainda dentro da esfera do tempo, (…). (Claridade na Ação, pág. 142)

A mente, ao perceber a sua própria impermanência, a sua transitoriedade, anseia por um estado permanente, e esta própria ânsia cria o símbolo, a sensação, a idéia, a crença, a que nos apegamos. Temos, pois, o “eu” transitório, e o “super-eu”, o “eu superior”, que consideramos permanente; e a mente, buscando o permanente, cria a dualidade, o conflito dos opostos. (…) (Idem, pág.143)

Mas, em primeiro lugar, não estais cônscios da existência de uma entidade diferente, o “eu” superior, que controla o inferior? Há em cada um de nós uma coisa que existe separadamente, e que guia, molda, observa cada pensamento. (…) Como nasceu esta entidade separada? Não é ela um resultado da mente, (…) do pensamento? É, evidentemente; (…). Se eu não a tivesse pensado, ela não poderia existir; (…)

E o que é produto do pensamento pode ser uma entidade espiritual, separada do pensamento? Pode ser uma entidade atemporal, uma coisa eterna, que transcende o processo do pensamento? Se é uma entidade atemporal, então não me é possível pensá-la, porquanto só sou capaz de pensar dentro dos limites do tempo. (…) (Claridade na Ação, pág. 64-65)

Posso, pois, estar cônscio (…). O “ego” é sempre o “ego” em qualquer nível que o coloquemos. Seja “superior”, seja “inferior”, o “eu” está sempre compreendido na esfera do pensamento. (…) (Percepção Criadora, pág. 109)

(…) Podeis situar o “eu” num nível qualquer, podeis chamá-lo “eu superior” ou “eu inferior”, mas isso representa ainda o processo do pensar; e, se não se compreende o pensamento, o seu pensar (…) continua sendo um processo de fuga. (Por que não te Satisfaz a Vida, pág. 74)

Que é essa ânsia extraordinária de subsistir, que tem cada um de nós? E o que é que subsiste, (…)? Certo, o que continua é o nome, a forma, a experiência, o conhecimento, e várias lembranças. (…) O dividirdes a vós mesmos em “eu superior” e “eu inferior” não tem aqui cabimento, porque sois e continuais a ser (…) a soma de todas aquelas coisas. (…) (Idem, pág. 82)

Assim, o todo da consciência, embora o chameis “superior” ou “inferior”, é memória. (…) E nesse campo, que é a consciência, não existe nada novo. (…) E o pensamento é memória, não importa se vossa própria memória ou memória acumulada de um milênio de propaganda. (…) O pensamento jamais poderá promover aquela revolução. (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 185)

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