Há certas coisas que devem desde já ficar assentadas. Primeiro, temos de compreender o que é “comunicação”. (…) Para que dois de nós, vós e eu, possamos comunicar-nos, deve haver não só compreensão verbal do que se diz, no nível intelectual, mas também, e conseqüentemente, o ato de escutar e de aprender. (…)

Em segundo lugar, cada um de nós tem, de certo, o seu fundo de conhecimento, de preconceito e experiência, e também seus sofrimentos e os inúmeros e complexos problemas inerentes à vida de relação. Tal é o fundo (background) da maioria de nós, e com ele pretendemos escutar. (…) (Como Viver neste Mundo, pág. 7)

Não sei se alguma vez examinastes a maneira como escutais, não importa o quê – uma ave, o vento entre as folhas, a correnteza das águas, (…) as conversações (…) em vossas relações. Quando tentamos escutar, achamo-lo muito difícil, porque estamos sempre a projetar nossas opiniões e idéias, nossos preconceitos, nosso fundo, nossas inclinações, nossos impulsos. (…) Só se pode escutar e, por conseguinte, aprender, quando nos achamos num estado de atenção, (…) de silêncio, em que todo aquele fundo está em suspenso, quieto; então (…) há possibilidade de comunicação. (Idem, pág. 8)

O problema da comunicação entre pessoas apresenta sempre grandes dificuldades. O comungar uns com os outros a respeito de assuntos sérios, requer (…) atenção de especial natureza. Porque, em geral, acontece que, quando tentamos comunicar alguma coisa a outrem, nós mesmos não estamos vendo a coisa com clareza, e o outro não está realmente prestando atenção ou escutando; está todo ocupado com seus próprios problemas, ânsias, (…) temores. (O Despertar da Sensibilidade, pág. 106)

(…) Logo, a comunicação implica também escutar, não só o significado das palavras, senão a intenção do que fala, usando as palavras. (…) Quando usamos a palavra, esta deve ter uma qualidade de retidão sem duplo sentido, e também um verdadeiro impulso por comunicar algo. Nesse impulso, tem de haver afeto, solicitude, consideração – o sentimento de que você deve compreender, não de que eu sou superior e você inferior. (…) (Tradición y Revolución, pág. 350)

Para me pôr em contato com um problema, quer se trate de problema intelectual, emocional, psicológico, quer de problema “espiritual”, (…) tenho por certo de compreender, em primeiro lugar, o significado e a função das palavras; porque as palavras nos impedem de entrar em contato com o problema. (…) Não sei se já notastes como as palavras, em si, provocam determinado sentimento. (…) (O Descobrimento do Amor, pág. 13)

É sempre um tanto difícil entrar em comunicação. Tem-se de fazer uso de palavras, e cada palavra tem determinado sentido. Mas devemos ter sempre presente que a palavra não é a coisa, não transmite o significado total da coisa. Para podermos entrar, real e profundamente, em comunicação, requer-se não só atenção, mas também certa afeição. Mas isso não significa que devamos aceitar, indiscriminadamente, tudo o que se diz.

Não só devemos manter-nos intelectualmente vigilantes, mas também devemos evitar a armadilha das palavras. Para se estabelecer a verdadeira comunicação entre pessoas (…), requer-se também (…) plena capacidade de investigação e exame. Só então há comunicação, comunhão. (…) (A Importância da Transformação, pág. 7)

Há várias coisas a considerar. Se escutais com o fundo ou a imagem que formastes a respeito do orador, (…) então é bem evidente que não estais escutando. Estais escutando a “projeção” que à vossa frente colocastes, e esta vos impede de escutar. (…) (Evidentemente, a verdadeira comunicação ou comunhão só pode verificar-se quando há silêncio.

Quando duas pessoas desejam seriamente compreender certa coisa, aplicando por inteiro a mente, o coração, os nervos, os olhos, os ouvidos, a compreendê-la, então, nessa atenção, existe certo silêncio; verifica-se então a verdadeira comunicação (…) comunhão. Aí, não há apenas aprender, mas também completa compreensão. (…) (Como Viver neste Mundo, pág.8)

Krishnamurti: É isto que você está tentando comunicar, Pupul?

P.: Uma das dificuldades em entender e ir adiante é que se recebe sua palavra, falada ou escrita, e ela se torna uma abstração, da qual apenas nos aproximamos. Há, no entanto, por outro lado, o processo do autoconhecimento, no qual a verdade de sua linguagem pode ser revelada; mas normalmente não acontece desse modo. Parece-me sempre que ouvi-lo sem obstáculo, pode realizar mudança na natureza da mente como tal, mas a descoberta do real sentido das palavras que o senhor usa pode tão só ser revelada no processo de autoconhecimento. (Exploration into Insight, pág. 14)

Há (…) grande diferença entre “estar em comunicação” e “estar em comunhão”. Estar em comunicação é partilhar idéias, por meio de palavras, agradáveis ou desagradáveis, (…) de símbolos, de gestos; e as idéias podem ser traduzidas ideologicamente, ou interpretadas conforme as peculiaridades, as idiossincrasias, o fundo de cada um. (…) (A Mente sem Medo, 1ª ed., pág. 32)

Na comunhão não há partilhar idéias, ou interpretação de idéias. Pode-se estar ou não estar em comunicação com os outros por meio de palavras, mas estar em relação direta com o que se está observando; e estar em comunhão com a própria mente, com o próprio coração. Pode-se comungar com uma árvore, por exemplo, ou com uma montanha, um rio. (…) (Idem, pág. 32)

Com a palavra “comunhão”, refiro-me a um estado mental de sensibilidade, vigilância, observação, em que a mente nem aceita nem rejeita, porém se acha em extraordinária atividade e é, portanto, capaz de afastar o falso e seguir o verdadeiro. Afinal, é também isso que entendemos por “participar”. Participar de um problema significa que vós e eu o investigamos juntamente.

E “juntamente” não significa que vós ficais de lado, a escutar explicações (…), porém, sim, que me ides acompanhando e, através das palavras, (…) compreendeis e sentis tudo o que a palavra sugere. E, mediante essa comunicação verbal, estabelece-se a comunhão; então, estamos participando, compartilhando. (A Suprema Realização, pág.19)

A comunhão, como deveis saber, só é possível quando nos aplicamos com vigor, com verdadeiro empenho à compreensão de uma questão. Sem essa intensidade, (…) exame vigoroso, deslisaremos facilmente para a argumentação intelectual, diremos que compreendemos intelectualmente, porém não seremos capazes de apreender realmente o que se está dizendo. Cessa, então, de todo, a comunhão. (Encontro com o Eterno, pág. 35)

Para haver comunhão em relação a um assunto tão difícil e complexo como este, ambas as partes devem escutar. Escutar é uma arte, e a maioria de nós não escuta realmente. Escutamos nossas próprias opiniões, juízos, avaliações, e mal temos tempo para escutar uns aos outros. No ato de escutar (…) aplicamos a mente, o coração, os ouvidos, tudo, à compreensão de algo. (…) (Idem, pág. 35)

Bem, até agora vós e eu temos estado em comunicação, e talvez também estabelecido entre nós uma certa comunhão. Mas (…) considero importante compreender o que entendemos por comunhão. Se alguma vez andastes entre as árvores de uma floresta, ou pela margem de um rio, e sentistes a quietude, tivestes o sentimento de estardes vivendo completamente com todas as coisas, com as pedras, (…) as flores, (…) o rio, (…) as árvores, (…) o céu – sabereis então o que é comunhão. (A Mente sem Medo, 1ª ed., pág. 49)

(…) O “vós” – com seus pensamentos, (…) ânsias, (…) prazeres, lembranças, desesperos – cessou completamente. Não existe “vós” como observador, separado da coisa observada; há só aquele estado de completa comunhão. (…) Ela não é um estado hipnótico. (…) Quando comungais com uma árvore (…), vossa mente não está ocupada com a espécie dessa árvore, ou com a sua utilidade. Estais em comunhão direta com a árvore. Analogamente, deve-se estabelecer esse estado de comunhão entre vós e o orador. (…) (Idem, pág. 49)

Estar em comunhão consigo mesmo requer silêncio completo, para que a mente esteja silenciosamente em comunhão consigo mesma, a respeito de todas as coisas. Daí vem a ação total. Só do vazio pode provir a ação total, criadora. (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 114)

Como pode ser livre o homem embotado, (…) respeitável, (…) não virtuoso? (…) Estar isolado na riqueza ou na pobreza, no saber ou no sucesso, na idéia ou na virtude, é estar embotado, é ser insensível. Os homens embotados, (…) respeitáveis, não podem comungar, e, quando o fazem, comungam com as “projeções” deles próprios. Para comungar, é preciso sensibilidade, vulnerabilidade, libertação do “vir-a-ser”, (…) do medo. (…) Quem está empenhado em “vir a ser”, não pode comungar, pois está sempre a isolar-se. O amor é o vulnerável, (…) o aberto, o imponderável, o desconhecido. (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 180)

Esta manhã vamos “discutir”, e deve ficar bem claro o que significa “discussão”. Considero ( … ), em nossa permuta de palavras, ver claramente o padrão de nosso próprio pensar, isto é, se pudermos abrir-nos, não para os outros, mas para nós mesmos, e vermos o que realmente somos, e o que está sucedendo interiormente. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 35)

(…) Uma discussão, para ser valiosa, deve servir-nos de espelho, no qual nos vejamos claramente, minuciosamente, sem desfiguração, observando o quadro inteiro e não apenas determinado fragmento dele, pois em geral desfiguramos o que vemos, (…) buscamos prazer. (…)(Idem, pág. 35)

(…) Porque (…) temos propensão a pensar fragmentariamente; raramente fazemos alguma coisa totalmente, com todo o nosso ser. (…) Vejamos, pois, se seremos capazes de ultrapassar o nível verbal, o mero intercâmbio intelectual, para penetrarmos profundamente no inconsciente. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 35)

(…) Nessas condições, pois, se pudermos (…) discutir serenamente, sem nos bombardearmos mutuamente com idéias, (…) com sensatez, inteligência, vereis que, sem necessidade de esforço, ocorrerá a revolução. Essa revolução se tornará realidade, porque a Verdade foi percebida e essa Verdade é que liberta, e não a mente à procura de uma solução. (O Problema da Revolução Total, pág. 12)

(…) Como já apontei, a investigação que visa apenas a achar a solução de um problema, é uma fuga ao problema. (…) Compreender um problema é muito mais importante do que resolvê-lo. Compreensão não representa a capacidade ou habilidade da mente que adquiriu várias formas de conhecimento analítico (…); compreender é estar em comunhão com o problema. (…) (A Mente sem Medo, 1ª ed., pág. 34-35)

(…) O estar em comunhão com alguém ou alguma coisa exige espaço, silêncio; vosso corpo, vossos nervos, vossa mente, vosso coração, todo o vosso ser deve estar quieto, completamente sereno. Vede, simplesmente, que não há comunhão se está em função o mecanismo do pensamento – o que não significa pôr-se a dormir. (A Mente sem Medo, 1ª ed., pág. 41)

Assim, precisamos não só compreender a palavra, de que maneira ela cria ou domina, ou dá colorido no sentimento, mas também devemos estar cônscios de que a palavra não é a coisa. (…) E, também, devemos compreender nossas várias vias de fuga, porquanto um problema só se torna intenso, agudo, quando é uma coisa que exige imediata e plena atenção. (O Descobrimento do Amor, pág. 13-14)

Bem, (…) Alguém me elogia ou me insulta: isso é agradável ou é penoso. Mas se estiver atento, estarei perfeitamente consciente (…): verei tudo isso com muita lucidez. E então fica terminado. (…) Na próxima vez que alguém me elogiar ou me insultar, isso não me afetará. (…) (O Mundo Somos Nós, pág. 108)

Por que guardamos a lisonja e o insulto, a ofensa e a afeição? Sem essa acumulação de experiências e das respectivas reações, não existimos; nada somos, se não temos nome. (…) É o medo de ser nada que nos compele a acumular; e é justamente esse medo, consciente ou inconsciente, que (…) provoca a nossa desintegração e destruição. Se pudermos ficar cônscios da verdade relativa a esse medo, essa verdade nos libertará dele. (…) (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 89)

Violência não é meramente assassinar. Há violência no uso de uma palavra áspera, num gesto de desprezo, na obediência motivada pelo medo. A violência, portanto, não é apenas a carnificina (…), em nome de Deus, da sociedade, da pátria. A violência é muito mais sutil e profunda. (…) (Liberte-se do Passado, pág. 47)

(…) Tomemos um problema: alguém me insulta, chama-me “idiota”. Imediatamente, o velho cérebro reage, dizendo: “idiota é você”. Se, antes de o cérebro reagir, me torno perfeitamente cônscio do que foi dito (…) abro um intervalo, de modo que o cérebro não pode logo precipitar-se para a arena. (…) (A Questão do Impossível, pág. 76)

Pergunta: Quando se percebe que a mera verbalização é estática, que caminho seguir daí por diante?

Krishnamurti: (…) É possível percebermos a limitação da palavra, e dela nos livrarmos? Toda verbalização é processo de pensar. Pode-se pensar sem palavra, sem símbolo, sem imagem? E como pode findar a palavra? (…) Em geral, somos tão escravos das palavras que somos incapazes de olhar o fato. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 73-74)

Senhor, o “dar nome”, o verbalizar, é um processo muito complexo. Quando compreendeis que a palavra não é a coisa, estais então em contacto com a coisa, não por meio da palavra, mas direta e vitalmente. E que acontece então? (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 74)

Enquanto passardes pelo processo de reconhecimento, que é olhar para a coisa nova traduzindo-a nos termos do que antes existiu, é inevitável o conflito; por conseguinte, não há renovação, não há nada novo. (…) Se penetrardes fundo em vós mesmos, vereis tudo isso num clarão. (…) (Idem, pág. 75)

Ao lançardes fora a carga das palavras, ao vos libertardes de toda essa estrutura de símbolos, idéias, para olhardes diretamente a coisa em si, encontrareis rejuvenescimento, frescor, algo totalmente novo acontece. (…) Deveis libertar-vos da palavra a fim de descobrirdes o que realmente é. (Idem, pág. 75)

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