Tantas coisas estão envolvidas na ambição! (…) A estrutura psicológica da sociedade exige que sejais competidor, ambicioso, ávido, sequioso de poder, etc. Se percebeis a falsidade de tudo isso, não deveis rejeitar (…) a estrutura psicológica da sociedade? É a estrutura psicológica da sociedade que nos faz ajustar-nos, que nos torna embotados, (…) estúpidos; por conseguinte, uma mente religiosa precisa estar livre da estrutura psicológica da sociedade. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 198)

(…) A estrutura social, exterior, é resultado da estrutura psicológica, interior, das relações humanas, pois o indivíduo é resultado da experiência, dos conhecimentos e da conduta do homem, englobadamente. Cada um de nós é o depósito de todo o passado. O indivíduo é o ente humano que representa toda a humanidade. Toda a história humana está escrita em nós. (Liberte-se do Passado, pág. 12)

Qual a relação do indivíduo com a sociedade? Obviamente, a sociedade existe para o indivíduo, e não o inverso disso. A sociedade existe para que o homem possa frutificar, existe para dar liberdade ao indivíduo e oferecer-lhe assim a oportunidade de despertar a mais alta inteligência. Essa inteligência não é mero cultivo de uma técnica ou ciência; ela consiste no contato com aquela realidade criadora que não provém da mente superficial. (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 48)

A vontade coletiva e a sua ação, que é a sociedade, não oferece liberdade ao indivíduo; pois a sociedade, não sendo orgânica, é estática. A sociedade é formada, organizada, para a conveniência do homem; não tem um mecanismo independente próprio. Certos homens podem apoderar-se da sociedade, guiá-la, moldá-la, tiranizá-la, conforme os seus estados psicológicos; mas a sociedade não é o senhor do homem.

Pode influir sobre ele, mas o homem a quebra sempre. Há conflito entre o homem e a sociedade, porque o homem se acha em conflito dentro de si mesmo; e o conflito é entre o estático e o vivo. A sociedade é a expressão exterior do homem. O conflito entre o homem e a sociedade é o conflito existente nele próprio. Esse conflito interior e exterior existirá sempre, enquanto não for despertada a mais alta inteligência. (Idem, pág. 48)

Somos entidades sociais, bem como indivíduos; somos cidadãos e ao mesmo tempo homens, separados, interessados em vir a ser, sofrendo e gozando. Se queremos paz, temos de compreender a correta relação entre o homem e o cidadão. O Estado, naturalmente, prefere sejamos só cidadãos. Ser um bom cidadão é funcionar eficientemente no padrão de dada sociedade. Eficiência e ajustamento são exigidos do cidadão, para torná-lo rijo e cruel. (…) (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 48-49)

O homem inteligente criará uma sociedade boa; mas um bom cidadão não fará nascer uma sociedade em que o homem possa ser da mais alta inteligência. O conflito entre o cidadão e o homem é inevitável, quando o cidadão predomina; e qualquer sociedade que deliberadamente despreze o homem, está condenada. Só haverá a reconciliação do homem e do cidadão quando o processo psicológico do homem for compreendido. Ao Estado, à sociedade presente, não interessa o homem interior, apenas o homem exterior, o cidadão. O Estado poderá negar o homem interior, mas este sempre suplantará o exterior. (…) (Comentários sobre o Viver, pág. 49)

O indivíduo é essencialmente coletivo, e a sociedade foi criada pelo indivíduo. O indivíduo e a sociedade estão interrelacionados. (…) O indivíduo ergue a estrutura social, e a sociedade, ou ambiente, molda o indivíduo. Embora o ambiente condicione o indivíduo, este sempre pode libertar-se, romper as cadeias que o prendem a seu fundo. O indivíduo é o criador do próprio ambiente de que se tornou escravo; mas ele tem também o poder de libertar-se e criar um ambiente que não lhe embote a mente, o espírito. (…) (Reflexões sobre a Vida, pág. 94)

Se o indivíduo não compreende a sua relação com pessoas, com a propriedade e com as idéias ou crenças, a mera imposição de um padrão, coletivo ou de outra ordem, é contraproducente. Para se tornar efetiva a imposição de um novo padrão, requer-se a chamada ação das massas. Mas o novo padrão é invenção de uns poucos indivíduos, sendo a “massa” hipnotizada pelos mais novos chavões, pelas promessas de uma nova Utopia. A “massa” é a mesma de antes, só que agora tem novos dirigentes, novas frases, novos sacerdotes, novas doutrinas. (…) Os muitos são impelidos à ação, à guerra, etc., pelos poucos. (…) Os padrões condicionam sempre (…) (Idem, pág. 94-95)

(…) Em virtude da vossa confusão, criais o guia ou chefe, a religião organizada, os cultos separados, que estão gerando tanta luta no mundo de hoje. Na Índia, isso está assumindo a feição de conflitos comunais entre muçulmanos e hinduístas – na Europa, são os comunistas contra os direitistas, e assim por toda parte. Se examinardes com muito cuidado, se analisardes, vereis que tudo isso está baseado na autoridade (…); e a autoridade é criada por vós e por mim, porque estamos confusos. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 89)

Que estamos, pois, tentando fazer? (…) E que é civilização? Ela, por certo, é produto da ação da vontade coletiva. (…) A civilização nasce da ação da vontade coletiva, e essa civilização ou se ergue e transcende a mundanidade, para descobrir a verdade final, ou declina e soçobra. Só ocorrerá uma revolução fundamental quando houver radical transformação na ação da vontade coletiva; mas a ação da vontade coletiva não pode transformar-se, se a vontade individual não sofrer, ela própria, uma transformação. (Visão da Realidade, pág. 21)

Que é civilização, (…) cultura, tal como conhecemos atualmente? É resultado da ação coletiva, não? A cultura que conhecemos é a expressão de muitos desejos unificados pela religião, por um código moral tradicional, por sanções de toda ordem. (Visão da Realidade, pág. 145-146)

Ora, dentro dessa sociedade aquisitiva, que é resultado da vontade coletiva, podem operar-se muitas reformas (…), mas tudo isso ocorre sempre dentro do padrão (…) (Idem, pág. 146)

Tudo isso suscita uma questão imensa. (…) Toda civilização hinduísta, cristã ou comunista, é evidentemente resultado da vontade coletiva, e a mente toda absorvida no coletivo, não pode descobrir o que é a verdade.

Para ser individual, a mente precisa compreender o coletivo, e ficar livre dele, porque só então será ela capaz de descobrir a realidade suprema. Isso implica (…) uma revolução total, porque o coletivo é tradição, crença, conhecimento, experiência e autoridade do Livro. (Visão da Realidade, pág. 32-33)

Afinal, o comunalismo é mera ratificação do nacionalismo. O pertencer a um país, uma raça ou grupo de indivíduos, ou a uma ideologia, cria uma tendência cada vez maior para separar os indivíduos, para gerar antagonismo e ódio entre os homens. Nessas condições, o que cada um de nós pode fazer é abandonar o comunalismo: podemos deixar de ser brâmanes, (…) de pertencer a qualquer casta ou a qualquer nação. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 6)

Assim sendo, parece-me que, para pôr fim ao conflito comunal, precisamos começar por nós mesmos, sem esperar pela ação de outra pessoa, da legislação ou do governo. Porque, afinal, nem a compulsão nem a legislação resolvem o problema. O espírito de comunalismo, de separatismo, de pertencer a determinada classe ou ideologia, a uma religião, acaba criando conflito e antagonismo entre os seres humanos. (…) (Idem pág. 7)

A benevolência não se instaura pela compulsão e, por certo, o recurso à compulsão não constitui solução alguma. Nessas condições, a solução consiste em que cada um, (…) cada indivíduo, (…) vós e eu, nos desvencilhemos do espírito comunal, do nacionalismo. (…) (Idem, pág. 7)

Pergunta: Como é possível ação coletiva, quando existem tantos interesses divergentes?

Krishnamurti: Que entendemos por ação coletiva? Todos nós trabalhando juntos: criando, construindo uma ponte, pintando, escrevendo (…), ou arando juntos o campo? A ação coletiva, por certo, só é possível quando há pensamento coletivo. O que entendemos, pois, não é “ação coletiva”, mas “pensamento coletivo”, o qual produzirá naturalmente uma ação harmônica de todos nós. (Poder e Realização, pág. 88)

Pois bem, o pensamento coletivo é possível? É isso o que todos nós desejamos. Todos os governos, todas as religiões e filosofias organizadas, todas as crenças requerem pensamento coletivo. Temos de ser todos cristãos ou comunistas ou hinduístas; e então o mundo será perfeito. (Idem, pág. 89)

Mas é possível o pensamento coletivo? Sei que o tornaram possível, atualmente, por meio da educação, da ordem social, da compulsão econômica, de várias formas de disciplina, do nacionalismo, etc; tornou-se possível o pensamento coletivo, fazendo que todos sejamos ingleses, ou alemães, ou russos. (…) (Poder e Realização, pág. 89)

Desse modo, somos mantidos coesos, dentro do molde de uma ideologia. E quanto mais sólido e mais firme se torna o molde, tanto mais nos sentimos felizes, aliviados, porque ficamos livres de responsabilidade. Assim, todo governo, toda sociedade quer fazer que todos pensemos de igual maneira. E, também, desejamos pensar de igual maneira, porque nos sentimos mais seguros (…) Sempre temos medo (…) do que digam de nós, pois todos desejamos ser pessoas respeitáveis. (Poder e Realização, pág. 89)

E, desse modo, tornou-se possível o pensamento coletivo. E, por esse motivo, quando surge uma crise, todos nos unimos, como acontece em caso de guerra ou quando nos vemos ameaçados religiosamente, politicamente (…) (Idem, pág. 89-90)

Ora, tal condicionamento do indivíduo é criador? Embora nos submetamos a esse condicionamento, nunca somos felizes interiormente; há sempre uma resistência. Porque, nessa submissão ao coletivo, não há liberdade; a liberdade individual se torna então meramente verbal. E o indivíduo, vendo-se aprisionado pelas convenções e pela tradição, está sempre procurando expressar-se e preencher-se por meio da ambição. Trata então a sociedade de refreá-lo, do que resulta conflito entre o indivíduo e a sociedade, uma guerra perene. (Idem, pág. 90)

A maioria de nós está realmente ciente de tudo isso. Mas, interiormente, não mudamos em nada; continuamos a ser o que há séculos somos: medrosos, ansiosos, “culpados”, a buscar o poder (…) satisfação sexual. Estamos perpetuando nossas tendências animais (…) dentro da estrutura psicológica da sociedade. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 20)

A questão é como quebrar de todo essa estrutura, como destruí-la completamente e ficar fora dela, sem se tornar insano e sem virar monge, freira ou eremita. Essa estrutura só pode ser quebrada imediatamente (…) Ou o fazeis imediatamente, ou nunca. (…) (Idem, pág. 20)

Senhor, esse problema não existe só na Índia (…) Pois bem, um dos fatores de desintegração nasce quando as pessoas se dividem em grupos comunais, lingüísticos ou seccionais. Parecem pensar (…); mas o nacionalismo (…) é uma exclusão, é ainda separatismo, e onde há separatismo há desintegração. (…) (Que Estamos Buscando, pág. 244)

(…) Como pode haver unidade onde há exclusão? A unidade implica que não deve haver separação de hinduísta e muçulmano. A unidade é destruída quando se torna exclusiva, quando limitada a determinado grupo. (…) (Idem, pág. 244)

Ora, a idéia de um movimento em massa torna-se simplesmente um estribilho, se vós, como indivíduos, que sois parte da massa, não compreenderdes a vossa verdadeira função. A verdadeira ação coletiva só pode existir quando vós, como indivíduos, que sois também a massa, estiverdes despertos e tomardes a plena responsabilidade da vossa ação, sem compulsão. (Palestras no Chile e México, 1935, pág. 66)

Só pode haver mudança fundamental e perdurável no mundo, só pode haver amor e inteligente preenchimento, quando despertardes e começardes a vos libertar da rede de ilusões (…) que haveis criado em vosso redor, por causa do medo. Quando a mente se liberta desses obstáculos, quando ocorre essa mudança voluntária, interna e profunda, somente então é que pode haver ação coletiva verdadeira, perdurável, na qual não haverá compulsão. (…) (Idem, pág. 67)

O homem que deseja realmente descobrir se há, ou não, um estado além da estrutura do tempo, deverá estar livre da civilização (…) da “vontade coletiva”; deverá estar só (…) para não ficar dominado pela vontade de muitos ou pela vontade de um só e, por conseguinte, ser capaz de descobrir por si mesmo o que é verdadeiro. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 45)

Não dependais de ninguém. (…) O importante é descobrirdes por vós mesmos. Podeis ver que tudo ao redor de vós está a decompor-se, a ser destruído. Esta chamada civilização não está sendo mantida coesa pela vontade coletiva; está a desintegrar-se. A vida vos está desafiando a cada momento e, se apenas “respondeis” (…) segundo vossa rotina habitual, vossa resposta não tem então validade alguma. Só podeis descobrir se há, ou não, um estado atemporal (…), quando dizeis: “Não vou aceitar nada; vou investigar, explorar”, o que significa que não tendes medo de estar só. (Idem, pág. 45)

Trata-se, pois, fundamentalmente, de um problema psicológico, e não econômico; é um problema da psique individual e, por conseguinte, é necessário compreendermos o processo da individualidade, do “vós”. O “vós” que mora na América é diferente do “eu” que vive na Índia ou na Europa? (…) Ora, quando o “eu” busca segurança numa crença, essa mesma crença fortifica o “eu”. Eu sou hindu, sou socialista, pertenço a determinada seita. O problema econômico nunca poderá ser resolvido enquanto nos separamos em nacionalidades, em grupos religiosos, ou enquanto pertencermos a determinadas ideologias. (Por que não te Satisfaz a Vida?, pág. 13)

(…) Queremos estar externamente em segurança, e por isso nos empenhamos pela segurança interior; mas, enquanto estivermos à procura de segurança interior, por meio de crenças, de apegos, de ideologias, é bem de ver que criaremos ilhas de isolamento, separando-nos em grupos nacionais, ideológicos e religiosos, e vivendo, assim, em guerra uns contra os outros. (Idem, pág. 14)

(…) Devemos ser capazes de discernir compreensivamente, em nós mesmos, a influência que a massa exerce por meio das tradições, dos preconceitos de raça, dos ideais e das crenças (…) Enquanto essas coisas nos dominarem, seremos individualmente incapazes de ação clara, direta, simples e compreensiva. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 10-11)

Desembaraçai-vos primeiro a vós mesmos da psicologia da massa, da irreflexão coletiva. (…) A irreflexão e a estultície da massa existem em nós. Nós somos a massa, conscientes de algumas das suas estultícies e crueldades, porém, na maior parte, inconscientes dos seus preconceitos, falsos valores e ideais que nos vencem. Antes de poderdes desenredar a outrem, tendes de vos libertar vós mesmos do grande poder dessas carências e temores (…) Ao começardes a perceber os falsos valores que vos prendem e a discernir o seu significado, sabereis que formidável mudança tem lugar em vós. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 81)

A divisão criada pelas nacionalidades, pelos políticos, pelas organizações religiosas, pela revolução tecnológica, pelo conhecimento técnico, tudo isso nos levou a aceitar o que é, a aceitar uma sociedade essencialmente baseada na violência, a ajustar-nos psicologicamente à estrutura dessa sociedade. E isso, é bem de ver, não constitui uma revolução fundamental, uma mutação na psique. (A Essência da Maturidade, pág. 179)

A sociedade é vós, e vós sois a sociedade. A estrutura psicológica da sociedade foi criada por cada ente humano, e nessa estrutura psicológica cada ente humano se vê aprisionado. E, enquanto o ente humano não quebrar, dentro de si mesmo, completa e totalmente, essa estrutura psicológica, não será capaz de viver pacificamente, com intensa percepção da realidade. Interessa-nos, pois, promover essa mutação em nós mesmos, (…) porquanto necessitamos de paz. (…) (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 22-23)

Enquanto pertencermos à cultura coletiva, à civilização coletiva, não poderá haver criação. (…) O homem que percebe o inteiro significado do coletivo e dele se liberta (…), tal homem é um indivíduo criador e sua ação produz novas culturas. (Visão da Realidade, pág. 146-147)

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