Agora, se atentardes bem, vereis que esta sociedade está baseada no espírito de classe, que é, ainda, espírito de segurança. (…) Assim como as crenças separam as pessoas, limitam-nas, conservando-as divididas, assim também a possessividade, expressando-se sob a forma de espírito de classe e transformando-se em nacionalismo, separa as pessoas. (…) (Palestras em Auckland, 1934, pág.20)

Para compreender a violência, cumpre haver percepção clara da violência (…). O nacionalismo, o antagonismo de classe, o espírito de aquisição, a desenfreada ambição de poder, as inumeráveis crenças (…) eis os fatores da violência. (O Caminho da Vida, pág. 19)

O apetite de ganho, que é a base de nossa atual civilização, dividiu o homem contra o homem. Em nosso desejo de possuir, de dominar as idéias, os sentimentos e o trabalho alheios, fizemos uma separação de nós mesmos em classes, governos de classe, lutas de classe, guerras de classe, (…). (Idem, pág. 19)

E há também a luta de classes – não emprego a expressão “luta de classes” no sentido comunista, mas tão somente para constatar um fato, sem interpretá-lo seja de que maneira for. Vê-se a divisão das religiões (…). (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 50)

(…) Ao verdes que a distinção de classe é coisa falsa, que ela cria conflito, sofrimento, divisão entre pessoas – ao perceberdes essa verdade, ela própria vos liberta. A percepção mesma dessa verdade é transformação (…). (O que te fará Feliz?, pág. 128)

Por conseguinte, a compreensão da natureza do conflito exige, não a compreensão de vosso conflito individual, porém a compreensão do conflito total, (…) esse conflito total que inclui o nacionalismo, as diferenças de classe, a ambição, a avidez, a inveja, o desejo de posição e prestígio, o desejo de poder, de domínio, o sentimento de medo, de culpa, de ansiedade (…) – a totalidade da vida. (…) Uma de nossas dificuldades é que funcionamos fragmentariamente, cada um numa só seção ou parte – como engenheiro, artista, cientista, negociante, advogado, físico – como entidade dividida, fragmentária. E cada fragmento está em guerra com outro fragmento, desprezando-o ou sentindo-se superior a ele. (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 25)

Ora, se examinarmos a nossa vida, as nossas relações com os outros, veremos que são um processo de isolamento. (…) Vivemos em relação com alguém só enquanto essa relação nos satisfaz, (…). Mas, no momento em que ocorre em nossas relações uma perturbação que gera desconforto em nós, abandonamos essas relações. (Novo Acesso à Vida, pág. 143)

(…) Assim, se examinarmos as nossas vidas e observarmos as nossas relações, vemos que elas constituem um processo em que levantamos resistência uns contra os outros, em que erguemos uma muralha, por cima da qual olhamos e observamos os outros; mas conservamos sempre a muralha e permanecemos atrás dela, quer seja uma muralha psicológica, quer seja uma muralha material, uma muralha econômica, uma muralha nacional. (Idem, pág. 144)

Se prestais atenção ao que estou dizendo e o seguis sem esforço, encontrareis a solução correta; e o descobrimento da solução correta é a revolução no centro. (…) Para a maioria de nós existe um centro, que é o “eu”, o “ego” (…). E o fazer cessar completamente esse centro é a única revolução verdadeira; (…). (Percepção Criadora, pág. 27)

Devemos tomar o conteúdo de nossa consciência e olhá-lo. A quase todos nós nos recalcam desde a infância (…). E quando o indivíduo se sente ferido, constrói um muro ao redor de si mesmo. E a conseqüência disso é que nos isolamos mais e mais (…). As ações que procedem desse trauma psicológico são obviamente neuróticas. (…) Quando digo: “Estou ferido” – não fisicamente, senão internamente, psicologicamente, na psique – que é que se sente magoado? Não é por acaso a imagem, a representação (conceito) que o indivíduo tem de si mesmo? (…) (La Llama de la Atención, pág. 16)

(…) Todos temos uma imagem de nós mesmos: um vê-se como grande homem, ou como homem muito humilde; outro acha-se um grande político, com todo o orgulho, a vaidade, o poder, a posição; e isso cria a imagem (…) de si mesmo. Se possuímos um título de doutor ou somos dona-de-casa, temos a correspondente imagem de nós mesmos. Cada um tem uma imagem de si mesmo (…). O pensamento criou essa imagem e é ela que fica magoada. É possível, então, não ter nenhuma imagem de si mesmo? (Idem, pág. 16)

Por conseguinte, muito depende de considerar o problema (…). Cada um de nós tem uma imagem de si mesmo, em geral uma imagem algo lisonjeira, e dessa base é que olhamos a coisa que nos causa dor ou prazer. (O Descobrimento do Amor, pág. 94)

Tendes, pois, uma imagem de vós mesmos – como sois, ou como deveríeis ser ou deveis ser – e dessa imagem olhais a coisa que se chama “problema”. Há, pois, a imagem e o problema, e procurais então “aproximar” a imagem ao problema, ou interpretais o problema de conformidade com o padrão estabelecido por essa imagem. (…) (Idem, pág. 94-95)

Pois bem. O problema nunca será resolvido enquanto a imagem existir – a imagem do que deveríeis ser, ou a imagem de si própria que a mente criou, graças a seu saber, à história, à tradição de família, a todas as formas de experiência. Estais cônscio, não da imagem, porém do problema, enquanto o que aqui estamos tentando fazer não é resolver o problema, porém, sim, (…) a estrutura da imagem; porque, se nenhuma imagem tivermos de nós mesmos, podemos resolver o problema. (Idem, pág. 95)

O indivíduo, em geral, tem de si próprio a imagem de que é um ser humano extraordinário, ou um homem mal sucedido na vida, um infeliz que precisa preencher-se, ou um homem vaidoso, ambicioso – bem sabeis que imagens a maioria das pessoas têm de si próprias. (…) Ora, se eu tenho uma imagem de mim mesmo, essa imagem terá de contradizer os fatos da existência diária, e só sou capaz de olhar os fatos diários com os olhos dessa imagem. Por conseguinte, o problema é criado pela imagem e não pelo próprio fato. (Idem, pág. 95)

Quando somos inferiores, temos o impulso de sentir-nos superiores; (…). Quer dizer: por mim mesmo, sou insignificante, vazio, superficial, e por isso desejo máscaras: (…) a máscara da superioridade e da nobreza, (…) da seriedade, (…) a máscara com a qual afirmamos procurar a Deus. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 209-210)

(…) Um homem que é feliz, que ama, não ambiciona posses, não se entusiasma pelo bom êxito, pelo poder, pela posição ou pela autoridade. Os infelizes, os aflitos, é que buscam o poder e o bom êxito como refúgios de sua própria insuficiência. (…) (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 131)

Como é estranho o desejo de se exibir ou de ser alguém. Invejar é odiar, e a vaidade corrompe. Como é difícil a simplicidade e a autenticidade! A autenticidade é, em si, uma tarefa das mais árduas, ao passo que o desejo de se tornar alguém oferece pouca dificuldade. É muito fácil fingir ou representar, mas é extremamente complexo sermos aquilo que somos; (…). Portanto, se formos inteligentes, abriremos mão da pretensão de sermos alguém ou alguma coisa. (Diário de Krishnamurti, pág. 165)

Portanto, é extremamente difícil sermos o que somos. (…) Mas, para que procedamos assim, para que deixemos de ser alguém, é preciso desvendar a nossa face oculta, expô-la sem medo, a fim de a compreendermos. A compreensão de nossas ânsias e desejos ocultos vem da plena consciência deles (…); dessa forma, o puro ato de ver destrói aquela estrutura psicológica, libertando-nos do sofrimento e do desejo de ser alguém. (…) (Idem, pág. 166)

Agora, o interrogante deseja saber (…). Servimo-nos das coisas, das posses, não como meras necessidades, mas como meios de satisfazer uma necessidade psicológica (…). Isto é, a propriedade se torna um meio de engrandecimento próprio. A maioria de nós aspira a títulos, posição, posses, terras, virtudes, fama; e tudo isso implica (…) uma necessidade psicológica (…) (Que estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 128)

Vemos, pois, que baseamos as nossas relações no auto-engrandecimento. E enquanto nos servirmos de pessoas, de idéias, de coisas, para nosso engrandecimento próprio, tem de haver violência. (…) No mundo dos negócios ou no mundo social, na política, como escritor, (…) poeta, queremos que reconheçam nossos méritos, (…) bom êxito; o problema, pois, é, com efeito, muito mais interior e psicológico, do que exterior e objetivo. (…) (Idem, pág. 129-130)

Enquanto nos servirmos dos conhecimentos técnicos para promoção e glorificação do indivíduo ou do grupo, as necessidades do homem não serão organizadas. É o desejo de segurança psicológica, por meio do progresso técnico, que está destruindo a segurança física do homem. Há conhecimentos científicos suficientes para alimentar, vestir e dar casa ao homem; mas o uso apropriado desses conhecimentos é negado enquanto houver nacionalidades separativas, com governos e fronteiras soberanos, que, por sua vez, suscitam as lutas de classe e de raça. (…) (Arte da Libertação, pág. 247)

Como dizia, o saber é essencial em certos níveis da vida, para podermos viver. Mas, afora isso, qual é a natureza do saber? Que queremos dizer quando afirmamos que o saber é necessário para acharmos a Deus, ou que o saber é necessário para nos conhecermos a nós mesmos (…)? Aqui, entendemos o saber como “experiência”. (…). Esse saber não é utilizado pelo “ego”, pelo “eu” para se fortalecer a si próprio? (…) (Novos Roteiros em Educação, pág. 113)

Utilizamos, pois, o conhecimento como meio de fortalecer o “ego”, o “eu”. Já não observastes os Pundits, ou vosso pai, (…) ou vosso mestre – já observastes como todos eles estão “inchados” de saber? Já observastes como o saber dá o sentimento de expansão do “eu”, o “eu sei e tu não sabes” (…). Assim, gradualmente, o saber, que é meramente informação, é usado por vaidade e se torna o sustento, a nutrição do “ego”, do “eu”. (…) (Idem, pág. 113-114)

(…) O cientista utiliza o saber para alimentar a vaidade; assim também o professor; (…) os pais, (…) os gurus – todos querem ser alguém no mundo. (…) (Novos Roteiros em Educação, pág. 114)

Que sabem eles? Só sabem o que está nos livros; ou (…) o que experimentaram, sendo que suas experiências dependem do seu fundo de condicionamento. Os mais de nós, pois, estamos cheios de palavras, de conhecimentos, a que damos o nome de saber; e, sem esse saber, vemo-nos perdidos. (…) (Idem, pág. 114)

Desse modo, onde há temor, não há amor; e o saber sem amor é destrutivo. É o que está acontecendo no mundo atualmente. (…) (Idem, pág. 114)

Se quisermos criar uma sociedade sã e feliz, precisamos principiar por nós (…). Em lugar de conferirmos importância a nomes, rótulos e termos, geradores de confusão, devemos desembaraçar a mente de tudo isso e observar-nos sem paixão. (…) Vemos, em torno de nós e em nós próprios, desejos e ações exclusivistas a redundarem no empobrecimento das relações. (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 19)

Por conseguinte, cumpre descobrir, não se há algo maior do que o conhecido, que nos impele para o desconhecido e, sim, perceber o que existe em nós que está criando confusão, guerras, diferenças de classe, esnobismo, desejo de fugir, através da música, da arte, e de muitos outros modos. Importa, sem dúvida, que as coisas sejam vistas como são (…) para nos vermos exatamente como somos. (…) (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 251)

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