Pergunta: O homem que permanece inalterado em face dos perigos e experiências da vida, (…) é sempre um homem de vontade firme e de caráter puro. (…) Que tendes a dizer sobre a vontade e o caráter, e qual o seu verdadeiro valor para o indivíduo?

Krishnamurti: (…) Que quereis dizer por vontade? Vontade é resultado de resistência. Se não compreendeis uma coisa, desejais conquistá-la. Toda conquista é apenas escravidão, e, por isso, resistência; e dessa resistência cresce a vontade, a idéia de “devo e não-devo”. Mas a percepção, o entendimento, liberta a mente e o coração da resistência, e, assim, dessa constante batalha do “devo e não devo”. (Palestras em Adyar, Índia, 1933-1934, pág. 148-149)

A mesma coisa se aplica ao caráter. O caráter é unicamente a força de resistir às múltiplas compulsões que a sociedade exerce sobre vós. Quanto mais vontade tiverdes, maior é a autoconsciência, o “eu”, porque o “eu” é resultado do conflito e nasce da resistência que cria a autoconsciência. (…) (Idem, pág. 149)

É bastante óbvio que a maioria de nós está confusa, intelectualmente. (…) Tudo em torno de nós parece desintegrar-se: os valores morais e éticos tornaram-se simples questão de tradição, sem muito sentido. (…) Mas, se um homem está confuso, como pode agir? Tudo que ele faça (…) há de ser confuso, e essa ação criará maior confusão. (…) (A Arte da Libertação, pág. 59-60)

(…) Necessita-se de liberdade, e a liberdade só pode vir quando se compreende todo o problema da inveja, da avidez, da ambição, do desejo de poder. É a libertação de tudo isso que permite o surgir dessa coisa maravilhosa que se chama caráter. Aí o homem tem compaixão, sabe o que é amar, e não quando meramente repete palavras e mais palavras acerca da moralidade. (O Homem Livre, pág. 120)

O florescimento da bondade, por conseguinte, não é possível dentro da sociedade, porquanto a sociedade, intrinsecamente, é sempre corrupta. Só o homem que compreende toda a estrutura e todo o “processo” da sociedade e dela se está libertando, só esse homem tem caráter e só ele pode ser bondoso. (Idem, pág. 120)

O caráter é produto da imitação (…) do que os outros dizem ou não dizem. O caráter é mero resultado do fortalecimento de nossas tendências oriundas de preconceitos (…) tradição da Europa, da Índia (…)? É isso que geralmente se chama caráter – ser um “homem forte”, um homem respeitado. (Novos Roteiros em Educação, pág. 153)

Pergunta: Será a palavra “caráter” outro nome para “limitação”?

Krishnamurti: O caráter torna-se limitação se for meramente defesa egoística contra a vida. Esse desenvolvimento de resistência contra o movimento da vida torna-se um meio de autoproteção. Nele não pode haver inteligência. (…) (Palestras no Chile e México, 1935, pág. 19)

O homem que quiser viver, alcançar plenitude, tem de possuir inteligência. O caráter acha-se em oposição à inteligência. O caráter é somente um obstáculo, uma limitação, e, em seu desenvolvimento, não pode haver plenitude. (Idem, pág. 19)

O caráter é resultado da imitação, de ser controlado pelo medo do que as pessoas irão dizer. (…) Será o caráter o simples fortalecimento de nossas próprias tendências e preconceitos? Será a manutenção da tradição, seja da Índia, da Europa ou da América? Isso é o que geralmente se considera ter caráter – ser uma pessoa forte, que apóia a tradição local e que é, portanto, respeitada pela maioria. (…) Imitar, seguir, adorar, ter ideais – essa rota leva à respeitabilidade, mas não à compreensão. (…) (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 117)

Nessas condições, sem vocês se compreenderem, sem tomarem consciência de tudo que está acontecendo em sua própria mente (…), não pode haver inteligência. E é a inteligência que cria o caráter, não a adoração de heróis ou a busca (…) de um ideal. (…) (Idem, pág. 117)

O caráter pode ser modificado, alterado, tornado harmônico, mas o caráter não é a Realidade. Deve o pensamento transcender a si próprio, para compreender o Atemporal. Quando pensamos em termos de progresso (…), não estamos pensando e sentindo dentro do padrão do tempo? Existe um vir-a-ser, um modificar e alterar no plano horizontal. Só quando o pensamento, pela diligente vigilância de si mesmo, se liberta do vir-a-ser, do passado, só quando está totalmente tranqüilo, existe o Atemporal. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 143)

(…) Podemos possuir todas as coisas exteriores que dão conforto (…) mas, interiormente, somos pobres, insuficientes, infelizes; estamos confusos, não sabemos o que fazer, onde encontrar a felicidade, a salvação. (…) (Poder e Realização, pág. 5)

Em vista de tudo isso, devemos tratar de aclarar o que se entende por “vida moral”. É a moral compatível com o progresso? Pode-se (…) planejar e cultivar a conduta moral, harmonizando-a com o extraordinário progresso (…)? (…) (Idem, pág. 5-6)

(…) É cultivável a moral? E (…) ela nos leva à felicidade, ao estado criador, à liberdade? Ou a moral não é algo que se cultiva, mas sim, uma revolução – uma revolução inconsciente? (Poder e Realização, pág. 6)

Ainda que tenhamos (…) todo o bem-estar (…) estamos cônscios da falta geral da afeição, do amor; e há também medo. (…) Cultivamos a virtude, a moral, a fim de correspondermos ao progresso (…) mas esse cultivo da moral pelo intelecto produzirá bem-estar humano? (Idem, pág. 7)

Ao examinardes esse processo, discernireis que o “eu” se está reformando a si mesmo a cada momento, pelas suas atividades volitivas baseadas na ignorância, na carência e no medo. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 21)

Quando começardes a verificar que o “eu”, portanto, não é permanente, haverá mudança vital em nossa conduta e moral. Então não poderá haver subserviência, aquiescência, mas somente a ação da inteligência desperta. (…) (Idem, pág. 21)

Cada um de vós deve tornar-se apercebido do processo da ignorância. Esse apercebimento não é o poder de uma compreensão superior dirigindo outra inferior, (…) porém é aquela compreensão sem escolha, resultante da ação persistente, sem temor nem carência. (Idem, pág. 21)

Dessa percepção isenta de escolha, surge a verdadeira moral, as relações e a ação verdadeiras. A conduta então não é mera imitação de um modelo, de um ideal ou de uma disciplina, mas sim resultado da verdadeira compreensão do processo do “eu”. Esse discernimento é inteligência desperta que, não sendo hierárquica ou pessoal, ajuda a criar uma nova cultura de preenchimento e cooperação. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 21-22)

Existe a moral do ideal e a moral do real. O ideal é amarmos uns aos outros, não matar, não explorar e assim por diante. Porém, na realidade, a nossa conduta baseia-se em uma concepção diferente. A ética de nossa existência diária, a moral das nossas relações sociais, baseia-se, fundamentalmente, no egoísmo, no espírito de aquisição, no temor e na autoproteção. (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 44)

A moral cotidiana é realmente imoralidade, e o mundo está enredado nessa imoralidade. Várias formas de aquisição, de exploração e de matança são condecoradas pelos governos e pelas organizações religiosas e constituem a base da moral aceita. Em tudo isso não há amor, mas somente medo disfarçado (…) palavras idealistas que impedem o discernimento. (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 45)

Para ser verdadeiramente moral, isto é, para ter verdadeiras relações com outrem, com a sociedade, é preciso que cesse a imoralidade do mundo. Essa imoralidade foi criada pelos anseios de autoproteção e pelos esforços de cada indivíduo. (Idem, pág. 45)

Agora, perguntareis como se pode viver sem ansiedade, sem espírito de aquisição. Se compreenderdes profundamente o significado de vos libertardes do espírito de aquisição, se fizerdes experiências nesse sentido, então, por vós mesmos, vereis que podeis viver no mundo sem pertencer ao mundo. (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 45)

Digo-vos, ainda, que esse medo é criado pela busca de segurança. (…) A sociedade nada mais é que a expressão do indivíduo multiplicada por milhares. Afinal, a sociedade não é alguma coisa misteriosa. Ela é o que vós sois. Ela comprime, controla, domina, torce. (…) Essa sociedade oferece segurança por meio da tradição. (…) Assim, a moralidade é mera conveniência. Não a reta percepção das coisas, mas o hábil ajuste às circunstâncias – é o que denominamos moralidade. (…) (Palestras em Auckland, 1934, pág. 18-19)

(…) Assim, cumpre-nos descobrir até que ponto nos emancipamos da moralidade ditada pela autoridade, da imitação, do ajustamento e da obediência. Não é o medo a base de nossa moralidade? (…) Pode-se ver, pois, que todo ajustamento a um padrão, sancionado ou não pela tradição, não representa conduta virtuosa. Só da liberdade pode vir a virtude. (A Luz que não se Apaga, pág. 60)

Se observardes desapaixonadamente as coisas, verificareis que a moral dos nossos dias está baseada num profundo egoísmo, na busca de segurança (…) Em virtude da aquisitividade, do desejo de possuir, estabelecestes certas leis, opiniões a que chamais morais. Se, voluntariamente, estiverdes livres da possessividade, da aquisitividade, coisa essa que exige profundo discernimento, daí advirá a inteligência, que é a guardiã da verdadeira moral. (Palestras no Chile e México, 1935, pág. 18)

Vós direis: “Isso está muito bem para nós, que somos educados, que não necessitamos de ninguém para nos apoiar nessa moral; porém, o que será do povo, da massa?” Quando encarais os outros como indivíduos não cultos, é que vós próprios o não sois: pois dessa pretensa consideração para com os outros nasce a exploração. (Palestras no Chile e México, 1935, pág. 18)

Se houvésseis compreendido a falsa moral da atualidade, com sua crueldade sutil, então haveria a verdadeira inteligência. Só essa inteligência constitui a segurança da moral benévola, que tudo abrange e é isenta de temor. (Idem, pág. 19)

Pergunta: Que é “ser virtuoso”? (…) Qual a base da moralidade?

Podemos pôr de parte a moralidade social que, na verdade, é completamente imoral? A moralidade social se tornou uma coisa respeitável, aprovada por sanções religiosas. (…) Essa moralidade é ir para a guerra, matar, ser agressivo, buscar o poder, dar ensejo ao ódio; é a crueldade e a injustiça da autoridade estabelecida. (A Luz que não se Apaga, pág. 59)

Mas, podemos realmente dizer que ela não é moral? Porque, consciente ou inconscientemente, nós fazemos parte dessa sociedade. A moralidade social é nossa moralidade (…) A facilidade com que a pomos de lado é o sinal de nossa moralidade; não o esforço que nos custa o pô-lo de lado, não a recompensa ou a punição desse esforço. (…) (Idem, pág. 59-60)

Se nossa conduta é dirigida pelo ambiente em que vivemos, por ele moldada e controlada, então essa conduta é mecânica e fortemente condicionada. E se nossa conduta resulta de nossa própria reação condicionada, é moral? Se vossa ação se baseia no medo à punição e no desejo de recompensa, é virtuosa? Se procedeis virtuosamente em conformidade com certo conceito ou princípio ideológico, pode-se considerar virtuosa tal ação? (…) (A Luz que não se Apaga, pág. 60)

Criamos a sociedade e essa sociedade nos condiciona. As nossas mentes são deformadas e pesadamente condicionadas por uma moralidade que não é moral; a moralidade da sociedade é imoralidade, porque a sociedade admite e estimula a ambição, a violência, a competição, a avidez, etc., que são essencialmente imorais. Não existe amor, atenção para com o outro, afeição, ternura, e a “respeitabilidade moral” da sociedade é uma desordem extrema. A mente, que foi treinada (…) para para aceitar, (…) obedecer e ajustar-se, não é capaz de ser altamente sensível e, portanto, altamente virtuosa. (…) (O Mundo Somos Nós, pág. 33)

Vê-se, pois, que o pensamento sustenta e alimenta tanto o medo como o prazer. (…) E, se se observar, toda a moralidade social – que é realmente imoral – está baseada no prazer e no medo, no prêmio e no castigo. (Idem, pág. 66)

Podemos varrer para o lado toda a moralidade social, a qual é mais ou menos necessária (…); mas, independentemente dessas coisas, virtude ou moralidade é, em geral, uma capa de respeitabilidade. A mente que se ajusta, (…) que obedece,(…) que segue a autoridade, a convenção, não é, por certo, uma mente livre; é uma mente vulgar, estreita, limitada. (…) A moralidade social se baseia essencialmente na autoridade e na imitação. (…) (O Passo Decisivo, pág. 51-52)

Parece-me que a bondade (…) nunca se verificará enquanto a mente for apenas “respeitável”, adaptada ao padrão social, a certo padrão ideológico ou religioso, quer imposto de fora, quer interiormente cultivado. Resulta aí a questão: por que é que o homem segue? Por que segue não apenas o padrão social, mas também o padrão que estabeleceu para si próprio, pela experiência, pela repetição de certas idéias, (…) normas de conduta? (…) (Idem, pág. 52)

Ora, é verdadeiramente possível ficarmos livres da influência (…) de tudo o que nos cerca? (…) A sociedade, com seu código de ética, (…) seus valores tradicionais, exige insistentemente que o indivíduo se ajuste ao padrão estabelecido, e a esse ajustamento chama moralidade; e imoral é a pessoa que se desvia do padrão. Mas, por certo, precisamos ficar totalmente livres do padrão, libertar-nos completamente da estrutura psicológica da sociedade – e isso significa que temos de ficar cônscios de toda essa estrutura em nós mesmos, tanto na mente consciente como na inconsciente. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 129)

(…) E, sem amor, não sois um ente moral; podeis ser “respeitável”, isto é, um homem que se ajusta à sociedade: que não rouba, (…) não faz isto ou aquilo. Mas isso não é moralidade, não é virtude, porém mero conformismo, que dá respeitabilidade. A respeitabilidade é a coisa mais terrível, mais repelente que há na Terra, porque serve para encobrir muitas iniqüidades. Mas, quando há amor, há moralidade. Tudo o que fazeis é sempre moral, se houver amor. (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 144-145)

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