Importa não nos limitarmos a escutar o que se diz, e aceitá-lo ou rejeitá-lo, mas que também observemos o “processo” do nosso pensar, em todas as nossas relações. Porque nas relações, que são o espelho, vemo-nos a nós mesmos como somos realmente. E, se não condenamos nem comparamos, será então possível penetrarmos mais fundo no “processo” da consciência. Só então pode ocorrer uma revolução fundamental. (…) (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 90)

A maior parte de nós não quer conhecer a si mesma. (…) Teme descobrir aquilo que somos – o feio e o belo. (…) O “eu” permanece para nós como uma porta fechada, enquanto buscamos conforto na vida de relação. E é desse desejo de conforto que se originam (…) as complicações (…) – o domínio, o ciúme, as discriminações. (…) Só há transformação possível quando se compreende a vida de relação. (Nós Somos o Problema, pág. 82)

Assim, o importante é a intenção de descobrir, na vida de relação, “o que é”. (…) E, no compreender “o que é”, sem condenação, sem justificação, dá-se-nos a possibilidade de transcendê-lo. É essa capacidade de encarar, com toda a clareza, “o que é” – o ciúme, a ganância, (…) na vida de relação; é essa capacidade (…) sem nenhuma tendência para a fuga, que nos dá a possibilidade de transcender “o que é”. E é só então que se torna possível uma transformação radical. (Idem, pág. 82-83)

Quase sempre nos revelamos a outrem, mas o que é importante é ver-vos como sois ou revelar-vos a outros? Estive tentando explicar que todas as relações mútuas agirão como um espelho em que perceberemos claramente aquilo que é torto e aquilo que é direito. Dão a focalização necessária para ver penetrantemente, mas (…) se estamos cegos pelo preconceito, opiniões, crenças, não podemos ver claramente, sem distorção. Então as relações mútuas não são um processo de auto-revelação? (Palestras em Ojai e Saróbia, 1940, pág. 57)

Nossa consideração primordial é: o que nos impede de perceber verdadeiramente? Não estamos aptos a perceber porque nossas opiniões a respeito de nós mesmos, nossos temores, ideais, crenças, esperanças, tradições, tudo isso age como véus. (…) Nossa consideração capital deveria ser, não a alteração ou a aceitação do que é observado, mas apercebermo-nos das muitas causas que produzem essa perversão. (…) (Idem, pág. 57-58)

(…) Mas a qualquer momento em que se sinta um empenho sério, momento que poderá durar só meia hora, (…) nesse momento existe a percepção sem escolha, o percebimento de nós mesmos como num espelho, sem deformação, o percebimento da coisa exatamente como é. Esse próprio percebimento do fato produz a libertação, a liberdade. (…) Mas, se ficardes simplesmente cônscios da imagem refletida naquele espelho, vereis desaparecer tudo o que foi, e esse percebimento traz a liberdade, uma quietude da mente em que há felicidade. (As Ilusões da Mente, pág.108)

(…) Ora, não são todas as relações mútuas um processo de auto-revelação? Isto é, nesse processo (…) estais vos revelando a vós mesmos, (…) descobrindo (…) o feio e o agradável. Se estais apercebidos, as relações são como um espelho, refletindo mais e mais os vários estados dos vossos pensamentos e sentimentos. Se compreendermos (…) então elas terão um significado diferente. (…) (Palestras em Ojai e Saróbia, 1940, pág. 39)

As relações mútuas agem como um espelho refletindo todos os estados do nosso ser, se o permitirmos; mas (…) queremos ocultar-nos a nós mesmo; a revelação é dolorosa. Nas relações mútuas, se estivermos apercebidos, ambos os estados, o consciente e o inconsciente, são revelados. (Palestras em Ojai e Saróbia, 1940, pág. 146)

Essa auto-revelação cessa quando nos “utilizamos” das pessoas como necessidades, quando “dependemos” delas, quando “as possuímos”. Na maioria das vezes, as relações mútuas são utilizadas para encobrir nossa pobreza interior; tentamos enriquecer essa pobreza psicológica apegando-nos uns aos outros, adulando-nos uns aos outros. Há conflito nas relações mútuas, mas ao invés de compreendermos a sua causa e, assim, transcendê-la, procuramos escapar dela buscando satisfação. (…) (Idem, pág. 146)

(…) Afinal, conhecer a vós mesmos é observar o vosso próprio comportamento, as palavras que usais, as ações que praticais, em vossas relações diárias – e só. Começai por aí, e vereis como é extraordinariamente difícil estar vigilante, observar as vossas maneiras de proceder, as palavras que usais com vosso criado, (…) vosso patrão, as vossas atitudes com relação a pessoas, idéias e coisas. (Visão da Realidade, pág. 165)

Procurai observar os vossos pensamentos, os vossos “motivos” no espelho das relações e vereis que, no mesmo instante em que vos observais, quereis corrigi-los, dizendo: “isto é bom, isto é mau, devo fazer isto, não devo fazer aquilo”. Ao vos mirardes (…) vossa atitude é de condenação ou justificação, e, desse modo, desfigurais o que vedes. (Idem, pág. 165)

Mas se observardes com simplicidade, naquele espelho, a vossa atitude com relação a pessoas, idéias e coisas, se encarardes o fato simplesmente, sem julgamento nem condenação ou aceitação, verificareis que essa mesma percepção tem ação própria. Tal é o começo do autoconhecimento. (Idem, pág. 165)

Para descobrirmos o processo total do autoconhecimento, temos de estar muito vigilantes nas relações com outros. As relações são o único espelho que temos, um espelho que não desfigura, um espelho no qual podemos ver, com toda fidelidade, o nosso pensamento desdobrar-se. O isolamento é uma forma sub-reptícia de opor resistência às relações. O isolamento sem dúvida impede a compreensão das relações: relações com as pessoas, as idéias e as coisas. (Nosso Único Problema, pág. 18)

Mas não existe compreensão da vida de relação, porque nós nos servimos dela unicamente como meio de promover o nosso êxito, (…) satisfação, (…) o “vir-a-ser”. Mas a vida de relação é um meio de autodescobrimento porque estar em relação é ser, é existência (…) A vida de relação, portanto, é um espelho no qual posso mirar-me. Esse espelho pode refletir com desfigurações, ou pode refletir “tal qual” (…) aquilo “que é”. Mas, em geral, nós vemos nesse espelho (…) somente aquilo que nos agrada ver; não vemos “o que é”. Preferimos idealizar, (…) fugir (…) viver no futuro, a compreender aquele estado de relação no presente imediato. (O que te fará Feliz?, pág. 102-103)

Assim sendo, a capacidade de compreender a vida só se realiza ao compreendermos a vida de relação. A vida de relação é um espelho. Ela deve refletir, não aquilo que desejamos ser, ideal ou romanticamente, mas, sim, o que na realidade somos; e é muito difícil percebermos a nós mesmos tais como somos realmente, porque estamos habituados a fugir daquilo “que é”. É difícil perceber, observar em silêncio “o que é”, porque estamos afeitos a condenar, a justificar, a comparar e a identificar. E nesse processo (…) aquilo “que é” não pode ser compreendido. Só na compreensão do “que é”, podemos ficar livres do “que é”. (Idem, pág. 104)

As relações baseadas na sensação nunca podem ser um meio de rompimento das cadeias do “eu”; entretanto, a maior parte das nossas relações se baseia na sensação, é produto do nosso desejo pessoal de vantagem, conforto e segurança psicológica. Embora possam oferecer-nos uma momentânea fuga do “eu”, essas relações só têm o efeito de reforçá-lo, em suas atividades isolantes e escravizantes. As relações são um espelho em que se pode ver o “eu” em todas as suas atividades, e só quando forem compreendidos os movimentos do “eu”, nas reações da vida de relação, dar-se-á a criadora libertação do jugo do “eu”. (A Educação e o Significado da Vida, 1ª ed., pág. 64-65)

Mas, qual é o verdadeiro significado da vida de relação? Não é ela um processo de auto-revelação? Não é a vida de relação um espelho, no qual, estando vigilantes, podemos observar, sem deformação, nossos secretos pensamentos e motivos, nosso estado interior? Na vida de relação revela-se o processo sutil do “ego”, e só mediante vigilância imparcial é possível transcender a insuficiência interior. O conflito extingue-se na solidão da Realidade. Esse transcender é o amor. O amor não tem móvel; ele é a sua própria eternidade. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 132)

(…) Se pudermos estar cônscios de cada pensamento, de cada sentimento, momento a momento, veremos que na vida de relação compreenderemos as peculiaridades e tendências do “eu”. Só então podemos ter aquela tranqüilidade da mente, na qual (…) pode surgir a realidade final. (Por que não te Satisfaz a Vida?, pág. 40)

Como dissemos, essa compreensão de nós mesmos só é possível quando ficamos atentos ao nosso relacionamento. Só no relacionamento a pessoa pode realmente observar-se; nele todas as reações, todos os condicionamentos se revelam. Assim, na relação a pessoa apercebe-se do seu verdadeiro estado. E, ao observar-se, toma consciência desse imenso problema do medo. (O Mundo Somos Nós, pág. 64)

A meu ver, a revolução a que me refiro só é possível quando a mente se acha muito tranqüila, (…) silenciosa. Entretanto, essa quietação da mente não se obtém por meio de esforço; vem ela com toda a naturalidade e facilidade, quando a mente compreende o seu “processo” de ação. (…) Assim, pois, o começo da liberdade está no autoconhecimento. As relações são o espelho em que nos podemos ver como de fato somos, sem desfiguração alguma; (…) só então a mente se torna quieta, silenciosa. (Visão da Realidade, pág. 143)

Senhor, o “ego” não é uma entidade objetiva, que se possa estudar ao microscópio, ou aprender nos livros, ou compreender por meio de citações. (…) Ele só pode ser compreendido na vida de relação. Afinal de contas, o conflito existe nas relações (…) com a proriedade, com uma idéia, com vossa esposa, ou com vosso vizinho. (O que te fará Feliz?, pág. 115)

Se ficarmos cônscios dessa atividade agressiva do “eu”, em nós mesmos, e compreendermos suas conseqüências, existirá então a possibilidade de se estabelecerem relações pacíficas e felizes entre os homens. A própria percepção do “que é”, representa um processo libertador. (…) A percepção mesma do que eu sou, produz transformação, traz a liberdade da compreensão. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 251)

Se há tensão entre vós e os vossos pais, essa contradição tem de ser enfrentada, se desejais viver criadoramente, com felicidade. (…) Não queremos encontrar perturbações nas relações. Sem dúvida, quando um homem está em busca de prazer, satisfação, conforto, segurança, nas relações, essas relações são uma coisa sem vida; ele as converte numa coisa morta. (…) (A Arte da Libertação, pág. 224)

As relações são um processo de auto-revelação; mas, se a auto-revelação é desagradável, insatisfatória, perturbadora, não temos vontade alguma de continuar a encará-la. Tornam-se, assim, as relações um simples meio de comunicação, e, por conseqüência, uma coisa morta. Mas se as relações são um processo ativo, no qual há auto-revelação, no qual me descubro a mim mesmo, como num espelho, então, (…) também delas provém o esclarecimento e a alegria. (Idem, pág. 224)

(…) O que é possível conhecer são as minhas relações com a propriedade, com as pessoas, as idéias. Temos, portanto, que o começo do autoconhecimento está na compreensão das relações, e que as relações funcionam em todos os níveis. (…) As relações são o espelho no qual vejo a mim mesmo assim como sou, e o ver-me tal qual sou é o começo da sabedoria. A sabedoria não é coisa adquirível, nem por meio de livros nem de um guru. (…) (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 134)

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