Que é a beleza? A beleza está no objeto, na arquitetura, na árvore, no rosto formoso de uma pessoa, na luz refletida na água? Encontra-se ela no exterior, ou será uma coisa não dependente do observador e do objeto observado? E como pode verificar-se uma coisa em que não existe observador nem objeto observado? (…) Ora, por certo, a beleza se torna existente quando há o total abandono de “nós mesmos”. (A Essência da Maturidade, pág. 95)

Ao observardes, por exemplo, uma montanha com seu manto de neve, sua luminosidade, sua profundeza, beleza e majestade, essa própria coisa expulsa momentaneamente todos os pensamentos; por um segundo ficais atordoado ante tal espetáculo, e vossa mente se torna de todo quieta. Nesse estado, sente-se certa coisa que não pode ser expressa em palavras, mas que é da natureza da beleza. Então, a montanha, o rio ou a flor (…) expulsa, por um segundo, todos os vossos pensamentos, inquietações, impressões. (Idem, pág. 95)

E pode uma pessoa morrer para tudo quanto pensou a respeito de si própria, para todos os seus prazeres e preocupações, no instante do total abandono de si própria? Isso exige grande austeridade (…) Só se manifesta a austeridade quando a mente compreende a natureza daquele intervalo entre o observador e a coisa observada, e já não nutre o observador por meio do pensamento. Isso produz uma sensibilidade e extraordinária natureza. E a mente que não é sensível, atenta, jamais saberá o que é o amor. (A Essência da Maturidade, pág. 95-96)

Ora, que se entende por beleza, por verdade? A beleza, de certo, não é um ornamento; a mera ornamentação do corpo não é beleza. Todos queremos ser belos, (…) ser apresentáveis – mas não é isso o que entendemos por beleza. (Novo Acesso à Vida, pág. 84)

Vestir-se com gosto e alinho, ser asseado, cortês, atencioso, etc., faz parte do belo (…) Todos os dias (…), cuidamos de enfeitar o exterior. Os astros cinematográficos, e vós que os copiais, cuidais de ser belos exteriormente; mas, se nada tendes interiormente, a decoração externa, a ornamentação, não é beleza. (Idem, pág. 84)

Senhores, não conheceis aquele “estado de ser” íntimo, aquela interior tranqüilidade, em que floresce o amor, a bondade, a generosidade, a piedade? Aquele estado de ser, obviamente, é a essência mesma da beleza, e, sem ele, enfeitar a nós mesmos significa dar realce aos valores sensoriais, os valores dos sentidos; (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 84-85)

Pergunta: A beleza deve ser cultivada, adquirida? Que significa a beleza para vós?

Krishnamurti: A beleza, de certo, não é uma coisa da mente, (…) não é sensação. A maioria de nós procura a sensação, que chama de beleza. (…) O vestir um sari com correção, o arquear os lábios, caprichosamente, com batom, o andar de certa maneira – isso é beleza? (…) (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 147-148)

Conquanto seja necessário dispensar certa atenção e cuidados à forma exterior – asseio, etc. – em parte por necessidade e em parte por razões estéticas, tal coisa, por certo, não é beleza. A beleza que é sensação é coisa da mente, e a mente pode fazer bela ou feia qualquer coisa; (…) (Idem, pág. 148)

A mente, pois, está sempre pintando, imaginando o belo, que é sempre do passado. Mas a beleza está no tempo? (…) Vós e eu podemos ver a beleza externamente; mas o mero apreciar dessa expressão não é a beleza. A beleza, portanto, é algo que está fora da mente, fora da sensação, fora dos limites do tempo (…); e esse percebimento ilimitado (…) é beleza – o que significa ser realmente, infinitamente sensível. (…) (Idem, pág. 149)

Que é a beleza? Acha-se esta numa pintura, em um museu, em um poema? Está no perfil das montanhas contra o céu? Em uma extensão de água que reflete a magnificência das nuvens (…)? A glória externa há exaltado o mesquinho e insignificante “eu” (…) Quando o “eu” se acha por completo ausente, há beleza. Então a relação do indivíduo com a natureza muda totalmente. (La Totalidad de la Vida, pág. 197)

(…) A beleza não é produto da inteligência humana; as realizações do homem provocam sentimentos e emoções, o que nada tem a ver com a beleza. O belo não está nas coisas manufaturadas nem nas coisas construídas, tampouco se acha ele nos museus. É preciso transcender tudo isso, abandonar todos os gostos pessoais, (…) forma de escolha e (…) as emoções, para que o amor exista, ele que é a própria beleza. (…) (Diário de Krishnamurti, pág. 189)

A beleza faz parte dessa compreensão, mas ela não é apenas uma questão de proporção, de forma, de gosto e de comportamento. A beleza é aquele estado em que a mente abandonou o centro do ego na paixão da simplicidade. A simplicidade não tem fim; e só pode haver simplicidade quando há uma austeridade que não é resultado de disciplina calculada e de autonegação. Essa austeridade é desapego, o que só o amor pode produzir. (…) Só a mente inocente pode pesquisar o desconhecido. (…) (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 21-22)

Do completo silêncio que se seguiu, surgiu aquela coisa singular, tornando sem sentido a meditação (…) Só que não havia nem tempo nem espaço; aquela “coisa” simplesmente existia como a inquebrantável força, a arrasadora vitalidade que é a beleza em si, o amor. Nem a mais rica imaginação seria capaz de inventá-lo, ou o mais secreto impulso, de projetá-lo. Toda forma de pensamento, de sentimento, de desejo, ou compulsão estavam completamente ausentes. Tampouco se tratava de uma experiência, pois experimentar implica o reconhecimento, um centro que acumula, a memória e a continuidade. (…) (Diário de Krishnamurti, pág. 189)

Para a maioria de nós, a beleza é questão de proporções, forma, tamanho, contorno, cor. Vemos um edifício, uma árvore, uma montanha, um rio, e dizemos que é belo; mas aí está ainda a “entidade exterior”, o experimentador que está observando essas coisas e, por conseguinte, o que chamamos “beleza” acha-se ainda na esfera do tempo. (A Mente sem Medo, 1ª ed., pág. 113)

Mas eu sinto que a beleza está fora do tempo e que, para se conhecer a beleza, o experimentador deve deixar de existir. O experimentador não é mais do que simples acumulação de experiência, que serve para julgar, avaliar, pensar. Quando a mente contempla um quadro, ou ouve música, ou observa a correnteza de um rio, ela geralmente o faz apoiada naquele fundo de experiência acumulada; (…) (Idem, pág. 113)

Conhecer a beleza, ou seja, descobrir o que é eterno, só é possível quando a mente está totalmente só (…) A mente deve estar totalmente livre de influência, de contaminação por parte da sociedade, dessa estrutura psicológica de avidez, inveja, ansiedade, medo. (…) (Idem, pág. 113)

A beleza e aquilo que é eterno não podem ser separados. Podeis pintar, escrever, observar a natureza, mas se há qualquer forma de atividade do “eu” – qualquer movimento egocêntrico do pensamento – então o que percebeis deixa de ser beleza, porque ainda compreendido na esfera do tempo; (…) Para descobrirdes o que é eterno, o que é imortal, deve vossa mente estar livre do tempo (…) (A Mente sem Medo, 1ª ed., pág. 114)

Mas a mente que tem sério interesse, que deseja realmente descobrir, abandonará totalmente a atividade egocêntrica do isolamento e alcançará (…) um estado no qual se verá completamente só; e, somente nesse estado de solidão total, pode ocorrer a compreensão da beleza, do que é eterno. (Idem, pág. 114)

(…) A beleza surge quando há beleza interior; e só há essa beleza interior quando não há mais conflito, quando há amor, (…) caridade, (…) generosidade. Então vossos olhos têm expressão, vossos lábios têm riquezas, vossas palavras significação. Porque essas coisas nos faltam, satisfazemo-nos com uma ostentação exterior de beleza, compramos jóias e quadros. (…) (A Arte da Libertação, pág. 97)

(…) A apreciação da beleza, da vida, só vem quando há enorme incerteza, quando damos atenção a cada movimento da verdade, (…) de cada pensamento e cada sentimento (…) Só vem quando a mente é flexível no mais alto grau; (…) quando não mais está amarrada a uma forma de crença (…) Quando a mente é livre para observar (…) (Idem, pág. 98)

(…) É o redescobrimento da beleza e da realidade o que mais importa. Esse redescobrimento só ocorrerá quando reconhecermos o vazio da nossa mente e do nosso coração, quando estivermos cônscios não apenas desse vazio, mas também de sua profundeza, e quando não mais procurarmos evitá-lo. (…) (Idem, pág. 99)

Só a inteligência criadora, a compreensão criadora, pode fazer vir uma nova cultura, um novo mundo, uma felicidade nova. (Idem, pág. 99)

(…) Ninguém vos poderá transformar num artista; só vós próprios podereis fazê-lo. É isto que desejo dizer: posso dar-vos tinta, pincéis e tela, mas vós próprios tendes de vos tornar o artista, o pintor. Não vos posso fazer pintor. (…) Alguns vos podem dar os materiais, os utensílios, mas ninguém vos pode dar a chama da vida criativa. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 40-41)

(…) Mas a mente sensível é sensível tanto para o feio como para o belo (…) E com essa mente descobrimos que existe uma beleza inteiramente diferente das avaliações feitas pela mente limitada. Deveis saber que a beleza requer simplicidade, e a mente muito simples, que vê os fatos tais como são, é uma mente muito bela. Mas não podemos ser simples se não houver passividade, e não há passividade se não há austeridade. (O Passo Decisivo, pág. 92)

Não me refiro à austeridade da tanga, das longas barbas, do monge, do tomar só uma refeição por dia, porém à austeridade da mente que se vê como é e segue infinitamente aquilo que vê. E esse seguir é passividade, porquanto a mente a nada está apegada. A mente deve ficar completamente passiva, para ver “o que é”. (Idem, pág. 92)

Assim, o percebimento da beleza requer a paixão da austeridade. (…) Necessita-se de intensidade, e (…) de penetração. A mente embotada não pode ser austera, (…) simples e, por conseguinte, é sem paixão. É na chama da paixão que se percebe a beleza, que se pode viver com a beleza. (Idem, pág. 92)

E, agora, que é beleza? Cabe à mente religiosa descobrir o que é a beleza, porque sem ela, não há amor. Ao perceberdes o que é a beleza, sabereis o que é o amor. Esse estado de beleza e de amor é próprio da mente religiosa. (…) A beleza requer expressão, precisa ser posta em palavras, numa pedra, num edifício? Ou é a beleza coisa inteiramente diversa? Para descobrir o que é a beleza e, por conseguinte, o que é o amor, torna-se necessária a compreensão do “eu”, o conhecimento de nós mesmos (…) (O Novo Ente Humano, pág. 43)

Sabeis o que significa beleza? Não me refiro à beleza da arquitetura, das formas no espaço, da pintura, nem à beleza de um rosto ou de um sari, mas, sim, à beleza que surge quando já não há nenhum movimento do “eu” (…) volitivo, (…) do tempo. Só na total ausência do “eu”, da vontade, ela pode ser encontrada. Há, então, paixão, e, nessa paixão, grande beleza. (…) Lá não existe experiência nenhuma; só existe aquilo que é inominável. (O Novo Ente Humano, pág. 173)

O chamado artista poderá pintar uma árvore ou escrever uma poesia a respeito dela, mas estará realmente em comunhão com a árvore? No estado de comunhão não há interpretação, idéia de comunicação, (…) maneira de expressão. Se expressais ou não essa comunhão em palavras, numa tela, ou no mármore, pouco importa; mas, no momento em que desejais expressá-la, a fim de exibi-la, (…) de vos tornardes famoso, etc., começa a ter importância o “eu”. (A Mente Sem Medo, 1ª ed., pág. 35-36)

Para se ver a beleza do rosto de uma pessoa, a beleza de um rio, (…) de uma folha caída à beira da estrada, (…) de um sorriso, (…) de uma ave a voar, necessita-se de paixão, de alta sensibilidade. Mas não temos essa sensibilidade. (…) Vivemos sufocados, tolhidos, porque, para nós, beleza é sexualidade (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 122)

Pergunta: Diz-se que o artista é um homem que possui essa compreensão de que falais, pelo menos enquanto cria. Mas, se alguém o perturba ou contraria, é ele capaz de reagir violentamente. (…)

Krishnamurti: A quem chamais artista? Ao homem que só momentaneamente é criador? Para mim, tal homem não é artista. Ao homem que só em momentos raros tem o impulso criador e expressa o seu poder de criar pela perfeição da técnica, positivamente não podemos chamá-lo artista. (…) (A Luta do Homem, pág. 149)

Para mim, o verdadeiro artista é aquele que vive completamente, harmoniosamente, que não separa a sua arte da vida, cuja vida mesma é expressão, seja na tela, ou na música, ou na sua conduta; é o homem que não divorciou a sua expressão de seu viver cotidiano. (…) (Idem, pág. 149-150)

Nisso se revela inteligência e harmonia no mais alto grau. Para mim, o verdadeiro artista é o homem que possui essa harmonia. Ele a expressa na tela ou pela palavra, ou não a expressa por forma alguma, sentindo-a somente. Mas tudo isso requer delicado equilíbrio, percebimento intenso (…) (Idem, pág. 150)

(…) Porque (…) o grande artista é aquele que vê o todo e não a parte apenas. Ele pinta ou escreve poemas ou cria maravilhas, porque vê o todo e depois elabora os pormenores. Que é que, fundamentalmente, está impedindo a percepção do todo, do problema total? (…) (O Problema da Revolução Total, pág. 24)

Assim, nossa investigação visa, não a encontrar a solução do problema, mas a descobrir o que nos impede, a cada um de nós, de apreciar o problema de maneira total. Não é fundamentalmente o “eu”, o “meu”, o “ego”, o que constitui o fundo psicológico? Não é o “eu”, a mente, que é a sede do “eu”? (…) (Idem, pág. 24)

O verdadeiro artista está acima da vaidade e das ambições do “eu”. Quando o indivíduo possui brilhante capacidade de expressão, e ao mesmo tempo está enredado nos interesses mundanos, isso tende a tornar-lhe a vida cheia de contradições e de lutas. O louvor e a adulação, quando se lhes atribui muita importância, enchem de vento o “ego” e destroem a receptividade; e o culto do bom êxito, em qualquer terreno, é evidentemente prejudicial à inteligência. (A Educação e o Significado da Vida, 1ª ed., pág. 155)

Toda tendência ou talento que concorra para o isolamento, toda espécie de auto-identificação, por mais estimulante que seja, desfigura a expressão da sensibilidade e produz o embotamento. Embota-se a sensibilidade quando o talento se torna “pessoal”, quando se atribui importância ao “eu” e ao “meu”. Eu pinto, eu escrevo, eu invento. Só quando estamos cônscios de cada movimento de nossos pensamentos e sentimentos, em nossas relações com pessoas, com coisas e com a natureza, só então a mente está aberta e flexível, não vinculada a desejos e interesses de autoproteção (…) (Idem, pág. 155-156)

Pergunta: O artista, o músico, estão ocupados com uma futilidade? (…)

Krishnamurti: Este é um problema muito complicado. (…) Como diz o interrogante, há dois tipos de pessoas, aquelas que são inerentemente artistas e aquelas que se interessam pela arte ou pela música. (A Conquista da Serenidade, pág. 21)

Os que se interessam, evidentemente o fazem ou porque desejam sensação, exaltação, (…) formas de fuga, ou apenas por distração, por gosto. (…) E há o outro tipo: o artista, (…) Inerentemente, espontaneamente, ele pinta, toca ou compõe música, etc. (Idem, pág. 21-22)

Pois bem, que acontece a essa pessoa? Vós deveis conhecer pessoas assim. (…) O risco que correm todas as pessoas dotadas de certa capacidade, certo talento, é, em primeiro lugar, o de pensarem que são superiores. (…) (Idem, pág. 22)

São pessoas especialmente escolhidas do alto; e, com esse sentimento de separação, (…) vêm todos os males: tornam-se anti-sociais, individualistas, agressivas, extraordinariamente egocêntricas – quase todas as pessoas talentosas são assim. (A Conquista da Serenidade, pág. 22)

Em tais condições, o talento, a capacidade representam um perigo (…) Não quero dizer que se possa evitar o talento, a capacidade; o que é necessário é que o indivíduo esteja cônscio das suas conseqüências, dos seus perigos. Podem essas pessoas reunir-se (…), mas existe sempre essa barreira entre eles e as outras pessoas (…) (Idem, pág. 22)

Não estou desfazendo de ninguém, visto que isso seria por demais estúpido; mas é preciso ficar cônscio de tudo isso. (…) Antes de tudo, são bem poucos os verdadeiros artistas. Gostamos de passar por artistas, uma vez que é lucrativo, dá-nos certo glamour, certa evidência (…) (Idem, pág. 22)

A dificuldade consiste, portanto, em conservar a sensibilidade a todas as horas, em estar vigilante, quer sejais verdadeiro artista, quer simples diletante. E essa sensibilidade se embota quando atribuís importância a vós mesmos como artista. (Idem, pág. 23)

Podeis ter uma visão e possuir a capacidade de reproduzir essa visão na tela, no mármore ou pela palavra; mas, no momento em que vos identificais com ela, estais perdido, está tudo acabado. Perdeis aquela sensibilidade. O mundo se compraz em louvar-vos, em dizer que sois um artista maravilhoso; e isso vos dá gosto. (Idem, pág. 23)

E, para a maioria de nós, que, inerentemente, não somos grandes artistas, a dificuldade é a de não nos deixarmos perder em sensações, visto que as sensações insensibilizam; (…) O “experimentar” só pode manifestar-se quando há relação direta: e não há relação direta quando existe a cortina da sensação. (…) (Idem, pág. 23-24)

Esta é, por certo, a verdadeira revolução – experimentar integralmente, como ente humano integral, pois, experimentando, terá o indivíduo a capacidade de criar, isto é, experimentando a arte, a beleza, ele criará, inevitavelmente, a técnica de pintar, de escrever. (O que te Fará Feliz?, pág. 63-64)

Entretanto, se for ele capaz de experimentar um sentimento, esse sentimento encontrará expressão, e ele achará então o seu estilo próprio; se escrever um poema de amor, será verdadeiramente um poema de amor, e não, simplesmente, versos bem medidos. (Idem, pág. 64)

(…) Exige alguma forma de expressão a mente perceptiva? Não, porque perceber é expressar, atuar. O artista, o pintor, o construtor, buscam a auto-expressão, que é fragmentária, e, portanto, a expressão disso não é a beleza. Uma mente condicionada, fragmentária, expressa esse sentimento do belo, porém este se acha condicionado. É beleza isso? Portanto, o “eu”, que é a mente condicionada, nunca pode ver a beleza, e qualquer coisa que expresse deve ter sua própria qualidade. (Tradición y Revolución, pág. 110)

(…) As pessoas que se ocupam da auto-expressão estão em sua maioria interessadas nelas mesmas. O artista, famoso ou não, pertence a essa categoria. É o “eu” o autor da fragmentação. Na ausência do “eu”, há percepção. A percepção é ação, e isso é beleza. (Idem, pág. 110)

(…) A beleza é a total abnegação do “eu”, e, com a total ausência do “eu”, surge “aquilo”. Nós tratamos de capturar “aquilo” sem a ausência do “eu”, e a criação se converte então em mero assunto de ostentação. (Idem, pág. 111)

(…) O artista é claro em seu sentimento, porém fracassa em sua expressão, porque está condicionado pelo objetivismo, o não-objetivismo e tudo isso. Pode, pois, o ser humano viver neste mundo não fragmentariamente, não como hindu, budista, cristão, comunista, senão como ser humano? (Idem, pág. 117)

Pergunta: Sou artista, e preocupa-me sumamente a técnica de pintar. É possível que esta própria preocupação constitua obstáculo à genuína expressão criadora?

Krishnamurti: Eu quisera saber por que é que a maioria de nós, inclusive os artistas, tanto se preocupa a respeito da técnica. (…) Cultivamos a técnica, porque desejamos resultados. Quero ser grande artista, (…) grande músico, alcançar fama, notoriedade. (…) (Transformação Fundamental, pág. 60-61)

Pode um artista, cultivando uma técnica, tornar-se um verdadeiro artista? Mas, se amamos a coisa que estamos fazendo, não somos então artistas? (…) Posso amar uma coisa por ela própria, se sou ambicioso, se desejo tornar-me conhecido? Se desejo ser o melhor pintor, o melhor poeta (…), se estou em busca de um resultado, posso amar realmente uma coisa, por ela própria? Se sou invejoso, imitativo, se há medo, competição, posso amar aquilo que estou fazendo? (Idem, pág. 61)

Se amo uma coisa, posso então aprender a técnica – como misturar as tintas, etc. Estamos cheios de ambição, inveja; desejamos ser “um sucesso”. E assim, estamos a aprender técnicas e a perder a coisa real (…) O importante é amarmos totalmente o que estamos fazendo, e esse próprio amor será o nosso guia. (Transformação Fundamental, pág. 61)

Pergunta: Toda arte tem uma técnica própria, e é preciso esforço para dominar a técnica. Como se pode harmonizar a criação com a perfeição técnica?

Krishnamurti: Não se pode harmonizar a criação com a perfeição técnica. Podeis tocar piano com perfeição, e não ser criador; podeis tocar piano brilhantemente, e não ser músico. Podeis saber manejar as cores, espalhar tintas na tela com muita habilidade, e não ser um pintor criador. A criação vem em primeiro lugar, e não a técnica (…) (A Arte da Libertação, pág. 175)

Aprendemos todas essas técnicas, mas nossos corações e nossas mentes estão vazios. Somos máquinas de primeira ordem, (…) mas não sabemos amar. (…) Para podermos expressar algo, é necessário que haja algo para expressar, precisamos ter uma canção no coração, para cantar. (…) (Idem, pág. 175)

Assim, (…) Aprendemos do cantor a técnica da canção, mas não temos a canção; e eu vos digo que a canção é essencial, que a alegria de cantar é essencial. Quando existe a alegria, a técnica pode ser formada do nada; inventareis vossa própria técnica, não precisareis estudar elocução ou estilo. (…) (A Arte da Libertação, pág. 176)

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