Aprender não é acumular conhecimentos. Qualquer cérebro eletrônico é capaz de acumular conhecimentos. O conhecimento, por conseguinte, não é de grande relevância; tem certa utilidade, mas não aquela desmedida importância que os entes humanos lhe atribuem. Mas o ato de aprender requer uma mente muito ágil. (…) (A Suprema Realização, pág. 9)

A mente que interpreta, que traduz, que tem uma tradição ou conhecimentos acumulados – essa mente é incapaz de aprender, por que está funcionando num estreito canal. Não é uma mente capaz de atuar, de aprender, cheia de energia e de vitalidade. (…) Porque só a mente que está aprendendo é nova; a mente nova pode ver as coisas de maneira nova, com clareza, rejeitar o que é falso e perseguir o verdadeiro. (Idem, pág. 10)

O que compreendemos por aprender? Geralmente é entendido como memorização, acumulação, armazenamento para uso, especializado ou não, conhecimento de idioma, leitura, escrita, comunicação, etc. Os modernos computadores podem fazê-lo melhor. São extraordinariamente rápidos. Então qual a diferença entre nós e o computador? O computador deve ser programado. Também fomos programados de várias maneiras: tradição, a chamada cultura, conhecimento. E programados igualmente como hindus, budistas, cristãos, comunistas e tudo o mais. (…) (Last Talks at Saanen, 1985, pág. 146-147)

Quando é que aprendemos? Não me refiro à acumulação de conhecimentos, que é uma coisa muito diferente. (…) Por “aprender” entendo um movimento não acumulador, um perene fluir, que é aprender, aprender, sem jamais acumular. O cérebro eletrônico acumula conhecimentos, possui conhecimentos; mas não pode aprender. (…) Só se aprende quando há um movimento, um movimento constante, de investigação, exploração ou compreensão, sem nenhuma atividade de acumulação. (A Suprema Realização, pág. 21-22)

Não sou contra o conhecimento. Existe diferença entre o aprender e o adquirir conhecimentos. Cessa o aprender quando só há acúmulo de conhecimentos. O aprender independe de qualquer aquisição. Ao se dar demasiada importância ao conhecimento, deixa de haver o aprender. Quanto maior o número de informações acumuladas, mais segura, mais certa se torna a mente, cessando, portanto, o aprender. (…) (Ensinar e Aprender, pág. 72)

Não há o “movimento de aprender” quando há aquisição de conhecimentos; as duas coisas são incompatíveis, contraditórias. O “movimento do aprender” implica um estado em que a mente não tem, guardada como conhecimento, nenhuma experiência. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 166-167)

O conhecimento se adquire, ao passo que o aprender é um movimento constante, que não é um processo “aditivo” ou “aquisitivo”; por conseguinte, o “movimento do aprender” implica um estado em que a mente nenhuma autoridade tem. Todo conhecimento supõe alguma autoridade, e a mente que se fortificou na autoridade do conhecimento de modo nenhum pode aprender. (…) (Idem, pág. 167)

(…) Ora, o que geralmente chamamos “aprender” é exatamente esse mesmo processo de adquirir novas informações e acrescentá-las ao “estoque” de conhecimentos que já possuímos. (…) Por “aprender” não entendo acrescentar ao que já se sabe. Só se pode aprender quando não há nenhum apego ao passado, como conhecimento, isto é, quando vedes uma coisa nova e não a traduzis em termos de “conhecido”. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 167)

(…) A mente que está aprendendo é uma mente “inocente” , ao passo que a mente que está apenas adquirindo conhecimentos é velha, estagnada, corrompida pelo passado. A mente “inocente” percebe instantaneamente, aprende a todas as horas, sem acumular, e só essa mente é amadurecida. (Idem, pág. 167)

Falamos também sobre o aprendermos a respeito de nós mesmos. Aprender implica um movimento não acumulativo (…) Só há movimento quando há um constante fluir, a forte corrente. E é isso o que o aprender implica; aprender, não só acerca de coisas exteriores e de fatos científicos, mas também a respeito de nós mesmos, porque “o que somos” é uma coisa que está constantemente a mudar, uma coisa dinâmica, versátil. (A Questão do Impossível, pág. 101-102)

Para aprendermos sobre o que somos, a experiência trazida do passado em nada pode ajudar-nos; pelo contrário, o passado põe fim ao aprender e, por conseguinte, à ação completa. Espero tenhais visto bem claramente este fato, ou seja, que estamos lidando com um movimento sempre vivo, da vida. Esse movimento é o “eu”. Para compreender esse “eu” tão sutil, é necessária intensa curiosidade, persistente vigilância, compreensão não acumulativa. (…) (Idem, pág. 102)

Penso existir um “processo” de aprender sem nenhuma relação com o desejo de ser ensinado. Vendo-nos confusos, não raro desejamos encontrar alguém que nos ajude a viver sem confusão e, por conseguinte, só estamos aprendendo e adquirindo conhecimentos com o fim de nos ajustar a um certo padrão; e, a meu ver, essas maneiras de aprender conduzirão, invariavelmente, não só a mais confusão, senão à deterioração da mente. (O Homem Livre, pág. 153)

Julgo haver um aprender de espécie diferente, (…) que é investigação de nós mesmos e em que não há mestre nem discípulo, seguidor nem guru. Ao começarmos a investigar o funcionamento da própria mente, ao observarmos o próprio pensar, nossas atividades e sentimentos de cada dia, não podemos então ser ensinados, porque não há ninguém para nos ensinar. A investigação não pode então basear-se em autoridade alguma (…). (Idem, pág. 153)

Antes disso, porém, temos de compreender o significado da palavra “aprender”. (…) Não ides aprender nada deste orador (…). Podemos, pois, rejeitar completamente a autoridade, para considerarmos a questão do aprender (…); aprender pela observação de sua própria psique, de seu “eu”. O aprender requer liberdade, requer grande curiosidade e, também, intensidade, paixão, espontaneidade. (…) (Fora da Violência, pág. 20-21)

Não há aprender quando a mente espera ser ensinada e trata tão só de acumular conhecimento na forma de memória. No processo de ser ensinado, (…) há instrutor e discípulo, o que sabe e o que não sabe; (…). Recomendável seria tratarmos de compreender (…) a falsidade dessa distinção (…); para aprender, necessitamos de muita humildade. Quem diz “eu sei”, realmente não sabe. O que sabe é coisa passada, morta. (…) (O Homem Livre, pág. 121)

Apega-se à autoridade, evidentemente, porque teme a incerteza, a insegurança; teme o desconhecido, o (…) amanhã. (…) Mas, penso que só nesse estado de humildade completa – que é o estado da mente que está sempre pronta a reconhecer que não sabe – só nesse estado há possibilidade de aprender. (…) (A Mente sem Medo, 1ª ed., pág. 13)

Nós estamos aprendendo; por conseguinte, não pode haver julgamento e não pode haver avaliação. Quando se está aprendendo, a mente está sempre atenta e nunca acumulando; (…) não há acumulação em que nos basearmos para julgar, avaliar, condenar e comparar. (…) Porque a mente que está aprendendo está sempre nova; é sempre uma mente indagadora, (…) nunca disposta a aceitar a autoridade e avaliar segundo essa autoridade. É uma mente jovem; e é inocente, nova, porque está sempre aprendendo. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 32)

Assim, “aprender” tem dois significados: aprender para adquirir conhecimentos, a fim de que eu possa funcionar com o máximo de eficiência em certos campos; ou aprender acerca de mim mesmo, de modo que o passado – o pensamento – não possa em nenhum momento interferir. Dessa maneira, posso observar, e minha mente é sempre sensível. (Fora da Violência, pág. 53-54)

Não apenas a mente, mas também o corpo, têm de estar altamente sensíveis. Não se pode ter um corpo embotado, indolente, pesadamente alimentado de carne e de vinho e tentar meditar – não faz sentido. Portanto, (…) veremos que a mente tem de estar altamente desperta, sensível e inteligente, inteligência esta que não nasce do conhecimento. (O Mundo Somos Nós, pág. 33)

(…) Expressemo-lo de outro modo: aprende-se algo de memória, de modo que isso se armazena como conhecimento no cérebro (…); quando se vai à faculdade ou à universidade, acumula-se uma grande quantidade de informação em forma de conhecimentos e, de acordo com esses conhecimentos, atua-se (…). A outra forma de aprender – à qual estamos muito pouco acostumados, por sermos tão escravos dos hábitos, da tradição e de toda classe de conformidade – é observar sem a companhia do conhecimento prévio, olhar algo como se fora novo e o olhássemos pela primeira vez. (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 203)

Nesta arte de aprender – na qual se acumulam os conhecimentos registrando somente as coisas que são indispensáveis a uma ação eficiente – não se registra nenhuma reação psicológica; o cérebro emprega os conhecimentos onde a função e a destreza são necessárias e, não obstante, o cérebro está livre para não registrar na área psicológica. É muito árduo achar-se tão totalmente alerta que se registre só o que é necessário (…). Alguém me insulta, (…) me adula, me chama disto (…) não há registro. (…) (Idem, pág. 215)

Registrar e, ainda assim, não registrar, de modo que não haja desenvolvimento do “eu”, da estrutura egocêntrica. A estrutura do “eu” aparece somente quando há um registro de tudo aquilo que não é necessário; ou seja, o conceder importância ao nome, à própria experiência, (…)opiniões e conclusões; tudo isso significa a intensificação da energia do “eu”, o que é sempre um fator de distorção. (Idem, pág. 215)

A arte de aprender dá esta clareza extraordinária, e uma grande destreza na ação; porém, sem essa claridade, a destreza gera o sentimento da própria importância, quer esse sentimento se identifique consigo mesmo, quer com um grupo ou nação. O sentimento da própria importância nega a clareza. Sem claridade não pode haver compaixão, e porque não há compaixão, a destreza se tornou tão importante. Se não há um despertar da inteligência (…) Essa inteligência tem sua própria ação; essa ação não é mecânica e, portanto, é ação sem causa. (Idem, pág. 215)

Alguns dos alunos desta escola já estão envelhecidos, pois sua única preocupação é obter conhecimento e não aprender. O aprender encontra-se fora do tempo. (…) Impende compreender a psique da pessoa em que se deu a mutação. Esta ocorreu quando ela negou o tempo. Vocês superaram o passado. Já não são hindus, nem cristãos. Assim transformados, (…) como agirão nesse novo estado? (…) Descubram-no vocês próprios. (Ensinar e Aprender, pág. 81)

Para aprender, requer-se o escutar, e quando escutais há atenção. Estamos vendo, pois, que, para aprender, necessita-se de silêncio, atenção e observação. Esse processo, em seu todo, é o aprender – não é acumular – é ir aprendendo, aprender agindo, em vez de “ter aprendido” e agir. São dois processos completamente diversos. Nós estamos aprendendo quando estamos examinando, (…) observando – e isso não é o mesmo que ter aprendido e, depois, observar. Os dois movimentos são inteiramente diferentes. (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 106)

O que agora estamos fazendo é “aprender agindo”, porque vós não estais sendo ensinados. Aqui não há instrutor nem discípulo. Não há guru de espécie alguma. Porque cada um tem de alumiar seu caminho com sua própria luz e não com a luz de outrem. Se caminhardes com a luz de outrem, ela vos levará à escuridão. (Idem, pág. 106)

O aprender está no agir e não no ser ensinado (exceto tecnologicamente; tecnologicamente, tenho de ser ajudado a compreender o cérebro eletrônico, etc.). Ninguém pode ensinar-vos, e vós mesmos é que tendes de iniciar esse aprender. O que outro ensina não é a verdade. O seguidor destrói a verdade, tanto quanto o guru a destrói. Por conseguinte, vós tendes de aprender; e o aprender está no agir. Eis a beleza do aprender. Esse aprender torna-se uma alegria, um deleite (…). (Idem, pág. 107)

Só aprendemos quando a mente está de todo quieta; (…) Se, por exemplo, estais escutando o que se está dizendo com idéias, opiniões, com conhecimentos anteriormente adquiridos, ou se estais comparando o que ouvis com o que outro disse, não há aprender. Só podeis aprender, escutando. Escutar é um ato silencioso; só a mente que está em silêncio, mas ao mesmo tempo em plena atividade, pode aprender. (A Suprema Realização, pág. 22)

(…) Pois estamos sempre satisfeitos com o conhecido; mas, se arranharmos a crosta do conhecido, não encontramos nada, depara-se-nos o vazio, o vácuo. E, por certo, é muito importante que saiba a mente viver de modo integral dentro desse vazio, desse silêncio (…). Eis por que devemos compreender o que significa “aprender”. Além de certo limite, nada mais podemos aprender, pois nada há que aprender, não há instrutor que possa ensinar-nos. E a esse ponto temos de chegar (…). (Visão da Realidade, pág. 204)

Só quando a mente se acha nesse estado de vazio em que não há conhecimento, (…) não há mais o experimentador aprendendo, acumulando – só então existe aquele esforço criador, podendo expressar-se através de vários talentos e artes, sem causar mais sofrimentos. (Idem, pág. 204)

(…) O que se entende por disciplina? Conheceis o significado comum dessa palavra: controlar, subjugar, forçar o pensamento, pelo exercício, pelo exercício da vontade, a ajustar-se a um padrão mais nobre. A disciplina supõe resistência, moldagem da mente, manter o pensamento numa certa direção, etc. (…). Na disciplina há divisão, ou seja, “aquele que disciplina” e “aquilo que é disciplinado” – e por isso existe conflito perene. (…) (O Homem Livre, pág. 97)

A palavra “disciplina” significa aprender de um homem que sabe; supõe-se que vós não sabeis e tendes de aprender dele. (…) Mas, aqui, não a vamos empregar com o sentido de aprender de outro, mas, sim, com o significado de observar a si próprio. A observação de si próprio exige uma disciplina em que não haja repressão, imitação, obediência, (…) ajustamento; (…). O próprio ato de aprender é, em si, disciplina, já que requer muita atenção, grande energia e “intensidade”, e instantaneidade da ação. (Fora da Violência, pág. 21)

A disciplina imposta pelos pais, pela sociedade, pelas organizações religiosas, é ajustamento. Contra esse ajustamento vem a revolta – o pai quer obrigar o filho a fazer certas coisas, este se rebela, etc. – tal é a vida baseada na obediência e no ajustamento; e há o contrário: rejeitar o ajustamento, para fazer o que se entende. (…) (A Questão do Impossível, pág. 24)

Pergunta: É evidente que deve haver alguma espécie de disciplina nas escolas, mas como exercê-la?

Krishnamurti: É fato, senhor, que fizeram experiências na Inglaterra e noutros países, nas quais as escolas não tinham disciplina de espécie alguma; permitia-se às crianças fazerem o que bem entendessem (…). Essas escolas não ignoram, naturalmente, que as crianças necessitam de alguma espécie de disciplina, no sentido de orientação; não com rigorosos deveres e proibições, mas disciplina consistente de alguma espécie de advertência, sugestão ou alusão (…). (A Arte da Libertação, pág. 86-87)

Quando se examina a (…) disciplina, quer se trate de disciplina imposta, quer de autodisciplina, percebe-se que ela é uma forma de ajustamento, interior ou exterior, a um dado padrão, memória, experiência. E nós nos rebelamos contra essa disciplina. (…) Entretanto, é fácil perceber que há necessidade de certa disciplina na vida – disciplina que não seja mero conformismo, ajustamento a um padrão, não baseada no medo, etc.; porque, se nenhuma disciplina existe, não se pode viver. (…) (O Descobrimento do Amor, pág. 122-123)

A palavra disciplina, na sua raiz, significa aprender. E para aprender acerca de alguma coisa (…) é preciso disciplina; (…). O próprio ato de aprender é disciplina, o que liberta de toda repressão, de toda imitação. (…) (O Mundo Somos Nós, pág. 49-50)

(…) Muito poucos no mundo somos disciplinados, (…) no sentido de estar aprendendo. A palavra “disciplina” deriva do vocábulo discípulo, (…) aquele cuja mente está aprendendo – não de uma pessoa particular, ou de um guru, de um mestre, de um predicador, ou por meio de livros, senão que aprende através da observação de sua própria mente, de seu próprio coração; aprende de suas próprias ações. E esse aprender requer certa disciplina. (…) Onde há amoldamento, obediência e imitação, nunca existe o ato de aprender – há apenas seguimento, (…). (La Llama de la Atención, pág. 23)

Disciplina não significa reprimir e controlar, nem tampouco ajustamento a um padrão ou a uma ideologia; significa que a mente vê “o que é” e aprende de “o que é”. A mente é então sobremodo desperta, vigilante. (…) (A Questão do Impossível, pág. 24)

Compreendendo-se a liberdade, compreende-se também o que é disciplina. (…) A liberdade e a disciplina se acompanham sempre, não são coisas separadas. (…) A mente que está aprendendo, observando, vendo realmente “o que é”, não está interpretando “o que é” em conformidade com os seus desejos, seu condicionamento, seus particulares prazeres. (Idem, pág. 24)

Como sabem, liberdade é algo que a maior parte de nós não quer. Desejamos libertar-nos de determinada coisa, das necessidades ou das pressões imediatas (…). Liberdade não é licenciosidade, não é fazer o que apetece – a liberdade exige uma disciplina tremenda, que não é a disciplina do soldado, (…) da repressão e do conformismo. (O Mundo Somos Nós, pág. 49)

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