A vida é complexa e dolorosa, uma série de conflitos internos e externos. Requer-se percepção das atitudes mentais e emocionais que são a causa das perturbações externas e físicas. Para compreendê-las, necessitais de tempo para reflexão tranqüila. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 128)

Para que estejais cônscios de vossos estados psicológicos, necessitais de períodos de tranqüila solidão, de retraimento do tumulto e da pressa do viver cotidiano e suas rotinas. É essa tranqüilidade ativa essencial não somente para o bem-estar da mente-coração, senão também para o descobrimento do Real. (…) (Idem, pág. 128)

Infelizmente, a maioria de nós concede pouco tempo para o recolhimento sério e tranqüilo. Deixamo-nos automatizar; acostumamo-nos às rotinas, renunciando ao pensar; aceitamos a autoridade (…); tornamo-nos simples dentes da gigantesca máquina da atual civilização. Perdemos a capacidade criadora. Perdemos a alegria interior. (…) O cultivo do exterior não produz o bem-estar interior; só pela autovigilância, e pelo autoconhecimento constantes poderá haver tranqüilidade interior. Sem o Real, a existência é conflito e sofrimento. (Idem, pág. 128-129)

(…) A sociedade, a tradição, os valores estabelecidos, tudo nos obriga a ajustar-nos e a copiar. Para podermos funcionar na sociedade, é claro que temos de aceitar o padrão da sociedade, ajustar-nos aos seus valores. Mas o homem verdadeiramente religioso é livre da sociedade, sendo a sociedade os valores criados pela avidez, a inveja, a ambição, o desejo de sucesso, o medo. (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 31)

Se agirdes como reformador, estareis remendando a sociedade, sempre em degenerescência, e, portanto, sustentando um sistema que sempre produziu guerras, divisões, separações. (…) Tendes de estar “de fora” de todas as comunidades, (…) religiões e da moralidade social, senão vos vereis aprisionado no mesmo padrão velho, um pouco modificado, talvez. (A Outra Margem do Caminho, pág. 112)

Mas só podereis “estar de fora” ao deixardes de ser invejoso e violento, (…) de adorar o sucesso ou o poder que ele confere. Só podereis “estar de fora”, psicologicamente, quando vos compreenderdes como parte do ambiente, (…) da estrutura social que vós mesmos construístes (…) (Idem, pág. 112-113)

(…) Estou fora da sociedade e, por conseqüência, apto a ajudar a sociedade. Devemos desembaraçar-nos, libertar-nos da sociedade, a fim de que surja um novo grupo humano e, por conseguinte, possa ser formada uma nova estrutura social. Não se pode reformar a velha sociedade; isso é retrocesso. (O Descobrimento do Amor, pág. 101)

A sociedade deseja sejais respeitável, submisso a ela, e não transbordante de pujança criadora, revolucionário no verdadeiro sentido da palavra. A verdadeira revolução não é a (…) comunista ou qualquer outra (…) estúpida (…); é a revolução do pensamento, que só pode vir quando vos emancipardes completamente da sociedade. (Visão da Realidade, pág. 224)

Nessa liberdade a vossa mente já não está a submeter-se, ajustar-se, defender-se, refrear-se, e, por conseguinte, é verdadeiramente religiosa; e o homem (…) o único revolucionário. (Idem, pág. 224)

Por conseguinte, é de real importância, se desejamos operar uma transformação fundamental, estarmos totalmente livres da sociedade. E esta é que é a verdadeira revolução: a revolução que vem quando começamos a compreender o padrão da sociedade de que fazemos parte. (…) A composição da sociedade é um misto de avidez, inveja, ambição, (…) crenças condicionadas, baseadas no medo (…) (Verdade Libertadora, pág. 33-34)

Portanto, só o homem que se retira da sociedade, que se liberta da compulsão de seus semelhantes e da tradição, (…) inveja e ambição interiores – só esse homem é verdadeiramente revolucionário (…) religioso, e só ele descobrirá se existe uma realidade além das projeções de nossa pequenina, insignificante mente. (Idem, pág. 34)

Sendo, pois, resultado do tempo, a mente só pode pensar em termos de expansão, realização; e pode a mente libertar-se do mais? Isso, com efeito, significa dissociar-se completamente da sociedade. (…) Nossa ânsia de aquisição não se restringe às coisas materiais, mas se estende também aos domínios da chamada espiritualidade, onde desejamos possuir mais virtude, estar mais próximo do mestre, do guru. Toda a estrutura, pois, do nosso pensar se baseia no mais; (…) e só o indivíduo que se dissociou de todo da sociedade, pode influir na sociedade. (…) (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 54-55)

Só a mente que investiga a fundo a questão do autoconhecimento, afastando de si toda autoridade, todas as igrejas, todos os salvadores, todos os guias – só essa mente é capaz de descobrir a Realidade. Porque o rejeitarmos todas as coisas que nos foram impostas, equivale a rejeitarmos a sociedade, opormo-nos à sociedade (…) Aquele que está fora da sociedade, que já não está na sujeição da sociedade – só esse é capaz de descobrir o que é Deus, a Verdade. (…) (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 89)

Em primeiro lugar, como já disse (…), toda atividade à beira do precipício só poderá gerar mais confusão (…) Nessas condições, o que podemos fazer é afastar-nos da confusão, i.e., da confusão que reina em nós mesmos. E é isso o que estou fazendo; estou a afastar-me da confusão política, espiritual e psicológica, e dando a mão àqueles que também desejam afastar-se dela. (…) Por certo, não está fugindo aos seus deveres quem assim procede. (…) Ao compreender que está cego e confuso, deve um homem primeiramente libertar-se da confusão e dos laços que o estão prendendo e cegando. (…) (Uma Nova Maneira de Viver, pág. 18)

É bastante óbvio que a maioria de nós está confusa, intelectualmente. (…) Dentro de nós estamos completamente confusos, embora não gostemos de admiti-lo; vemos confusão em todas as coisas, e não sabemos ao certo o que devemos fazer. (…) Assim, para aqueles que já reconheceram que existe confusão neles próprios e ao redor de si, a ação se torna extremamente importante. (A Arte da Libertação, pág. 59-60)

Mas, se um homem está confuso, como pode agir? Tudo o que ele faça (…) há de ser confuso, e essa ação criará naturalmente, infalivelmente, maior confusão. (…) Que deve fazer então? (…) Qual o seu primeiro dever: agir, ou dissipar a confusão dentro de si e, portanto, fora de si? (…) Deve ele agir, confuso como está, ou conservar-se inativo? (…) (Idem, pág. 60)

Ora, nós tememos estar inativos; e o recolher-se por um período de tempo para estudar todo o problema requer extraordinária inteligência. (…) Assim, é muito importante compreender o problema da ação e da inação. Não é necessário ficar inativo, para considerar o problema no seu todo? (Idem, pág. 60-61)

É claro que precisamos continuar a atender à nossa diária responsabilidade de ganhar a subsistência; todas as coisas necessárias têm de continuar. Mas as organizações políticas, religiosas, sociais, os grupos (…) – há necessidade de pertencermos a elas? (Idem, pág. 61)

Se temos muito empenho, não é necessário que reconsideremos, que tornemos a analisar todo o problema da existência? E, para tal, não é necessário, por ora, que nos afastemos, a fim de estudar, ponderar, meditar? Esse afastamento não é, verdadeiramente, ação? Nessa chamada inação há a extraordinária ação de reconsiderar toda a matéria. (…) (A Arte da Libertação, pág. 61)

É inação considerar novamente um problema? Claro que não. Sem dúvida, quem está evitando a ação é o homem que está ativo, sem ter reconsiderado o problema. Esse é que é o verdadeiro “escapista”. Está confuso, e, para escapar à sua confusão, à sua insuficiência, atira-se à ação (…) Está na realidade, fugindo ao problema fundamental, que é a confusão. (…) (Idem, pág. 61)

Nos nossos tempos, principalmente, em que todo o mundo se acha à beira do precipício e acontecimentos catastróficos estão se verificando, não se torna necessário que uns poucos, pelo menos, fiquem inativos, e, deliberadamente, não se deixem colher por esta máquina (…) atômica da ação, que nada produz a não ser maior confusão, maior caos? (A Arte da Libertação, pág. 61-62)

Certo, os que têm empenho hão de retirar-se, não da vida, não das atividades diárias, mas retirar-se a fim de descobrir, estudar, explorar, investigar a causa da confusão (…) Por conseguinte, (…) o que mais importa, se desejarmos compreender a causa da confusão, é o autoconhecimento. (Idem, pág. 62)

Sem compreendermos a nós mesmos, não pode haver ordem no mundo; sem explorarmos a fundo o processo do pensamento, do sentimento e da ação, em nós mesmos, nunca haverá possibilidade de paz mundial, de ordem e segurança. Por conseguinte, o estudo de si mesmo é de importância primordial e não constitui processo de fuga. Esse estudo de si mesmo não é simples inação. Pelo contrário, requer uma percepção extraordinária em tudo que fazemos, uma percepção na qual não haja julgamento, condenação, censura. (Idem, pág. 62)

Essa percepção do processo total de si mesmo, na vida diária, não é limitativa, mas sempre expansível, sempre iluminativa; e desse percebimento surge a ordem, primeiro em nós mesmos, depois exteriormente, em nossas relações. (Idem, pág. 62)

(…) É a verdade que transforma, e não a ação imediata; só o descobrimento da verdade, por cada um de nós, fará nascer a felicidade e a paz no mundo. Viver no mundo sem ser do mundo – eis o nosso problema (…); não podemos retrair-nos do mundo (…) renunciar a ele; temos de nos compreender a nós mesmos. (…) Compreender-se a si mesmo é o começo da sabedoria; (…) é compreender o indivíduo, a suas relações com as coisas, pessoas e idéias. (A Arte da Libertação, pág. 187)

Procederíamos sabiamente se depois de certa idade – digamos quarenta ou quarenta e cinco anos, i.e, antes de sermos demasiado idosos – nos isolássemos da sociedade. Que aconteceria se vos retirásseis para a solidão, não para gozar os bens materiais acumulados, mas para descobrirdes a vós mesmos, para pensar e sentir profundamente, para meditar e descobrir a realidade? (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 58)

Talvez pudéssemos salvar a humanidade do caminho dos sentidos e mundano que está trilhando, com toda sua brutalidade e dor. Poderia haver, assim, um grupo de pessoas dissociadas do mundanismo, de suas práticas e de tudo que com ele se relaciona e, portanto, capazes de orientar e ensinar a humanidade. (Idem, pág. 58)

Uma vez libertos do mundanismo, careceriam de autoridade e de importância social, e assim não seriam arrastados para sua insensatez e calamidade. Porque o homem não liberto da autoridade, das posições, não está apto a guiar, a ensinar a outrem. (…) Se tal grupo de pessoas vier a existir, criar-se-á um novo mundo, uma nova cultura. (Idem, pág. 58-59)

Está visto, pois, que devemos chegar àquele ponto em que nada há para aprender, porque lá a mente está livre da sociedade, (…) de todas as manifestações, (…) da luta pelo reconhecimento de nossa posição social, etc.; e só nesse estado de liberdade, fora do alcance da sociedade, se pode criar uma nova cultura, inaugurar uma nova civilização. (…) (Visão da Realidade, pág. 204-205)

Pergunta: Falastes seriamente ao sugerir que nos deveríamos retirar do mundo aos quarenta e cinco anos, mais ou menos?

Krishnamurti: Sugeri-o seriamente. Quase todos nós, até a morte, estamos tão presos ao mundanismo, que não temos lazer para pesquisar profundamente, para descobrir o real. Para nos retirarmos do mundo impõe-se completa modificação nos sistemas educacional e econômico (…) Se vos retirásseis, estaríeis perdidos, sentir-vos-íeis solitários, não saberíeis o que fazer convosco, pois vos retiraríeis sem o devido preparo. Formaríeis provavelmente novos grupos, novas organizações com crenças novas, emblemas e rótulos (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 75-76)

Para retirar-vos do mundo, deveis estar preparados: por meio de educação apropriada, pela criação de ambiente propício, pelo estabelecimento do Estado adequado, pela correta educação, etc. Com tal preparo, o retirar-vos então, do mundanismo, em qualquer idade, é a seqüência natural (…) Afastai-vos para mergulhar num estado de plena e profunda consciência, retirai-vos não para o isolamento, mas para o encontro com o real; para auxiliar a transformação da sociedade e do Estado (…) (Idem pág. 76)

Tal grupo de pessoas estaria completamente dissociado da autoridade, da política, de todas as causa originadoras de guerra e antagonismo entre os homens. (…) As grandes realizações, indubitavelmente, se alcançam assim. (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 76)

(…) A vida solitária ou em pequeno grupo requer grande inteligência. Mas, se efetivamente julgásseis isso valioso, realizá-lo-íeis, não como maravilhosa ação de renúncia, mas como algo natural e inteligente, próprio de pessoa que reflete. O extraordinariamente importante é que haja, ao menos, algumas pessoas não pertencentes a grupos, raça, religião ou sociedade determinada. Elas criarão a verdadeira fraternidade entre os homens porque estarão buscando a verdade. (…) (Idem, pág. 77)

Por conseguinte, quando a mente não se acha verdadeiramente num estado de ação, porém num estado de inação, daí vem mais inação, que é do tempo. Há duas espécies de inação: a inação gerada pelo tempo, e a inação que é o estado total da mente que se vê em presença de uma tremenda crise. Com o enfrentar uma crise tremenda, a mente se torna completamente inativa, quer dizer, livre de todo pensamento; e dessa inação vem ação; esta é a única importante, e não a outra. (O Despertar da Sensibilidade, pág. 152)

Como indivíduos, deveis começar a perceber o verdadeiro significado do ambiente, quer do passado quer do presente, i.e., perceber o significado das circunstâncias em contínua mutação. Mas, na percepção do verdadeiro ambiente, tem de haver grande conflito, e vós não desejais conflito; desejais reformas (…) (A Luta do Homem, pág. 106)

Tornai-vos vivamente cônscios desse conflito; não tenteis fugir dele, não procureis soluções para ele. Porque é na agudeza do sofrimento que podereis discernir o verdadeiro significado do ambiente. Nessa claridade do pensamento não há ilusões. (…) (Idem, pág. 107)

Isso é inteligência, e essa inteligência é ação pura. Quando a ação nascer da inteligência, quando a ação mesma for inteligência, não procurareis então a inteligência. Será então a plenitude, a suficiência, a riqueza interior, o sentimento daquela eternidade que é Deus. E essa plenitude, essa inteligência, impedirá por todo o sempre a criação de barreiras e prisões. (Idem, pág. 107)

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