Como encontrastes Deus? "Krishnamurti não nega a existência de Deus"
Pergunta: Como encontrastes Deus?
Krishnamurti: Como sabeis, senhor, que eu encontrei Deus? Não riais, senhores. Esta pergunta é muito séria. Senhor, Deus pode ser conhecido? Deus pode ser achado? Prestai atenção, por favor. Deus é uma coisa que anda perdida e que temos de achar? Pode-se reconhecer aquela Realidade, aquele Deus? Se podeis reconhecê-la, então já tendes conhecimento dela; e se já tendes conhecimento dela, não é coisa nova. Se sois capaz de conhecer (experience) Deus, a Verdade, essa experiência é gerada pelo passado, e por conseguinte já não é a verdade e, sim, meramente, uma “projeção” da memória. A mente é produto do passado, do conhecimento, da experiência, do tempo; a mente pode criar Deus; ela pode dizer: “sei que isto é Deus”, “sei que tive a experiência de Deus”, “sei que há Deus, a voz de Deus me fala”. Mas isso é só memória, - a antiga reação do vosso condicionamento. A mente pode inventar Deus e pode experimentar Deus. A mente que é resultado do conhecido pode “projetar-se” e criar toda a sorte de imagens e visões; tudo isso, porém, se acha na esfera do conhecido. Deus não pode ser conhecido. Ele é totalmente desconhecido. Não pode ser “experimentado”. Se quando não há “experimentador” e não há “experiência”, só então pode a Realidade aparecer. É só quando a mente se acha no “estado do desconhecido” que pode surgir o desconhecido. Só depois de se apagar toda experiência, todo conhecimento, está a mente verdadeiramente tranqüila, silenciosa, e nessa tranqüilidade, que é imensurável, nessa tranqüilidade, nasce Aquilo que não tem nome.
14 de fevereiro de 1954
Livro: AS ILUSÕES DA MENTE (páginas 55, 56)
Autor: J. Krishnamurti
Edições de Ouro
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Irmos sempre mais além, nunca
Irmos sempre mais além, nunca nos ficando pelos mestres, pelas preces, pelos milagres, pelos eus superiores, pelos deuses(Deus)...que mais não são do que meras projecções dos eus e suas respetivas respostas a essas projecções...
Por falta de inteligência,
Vida:- Criei vida
Passivamente atentos aos
Passivamente atentos aos problemas, que são sempre problemas de relações, com coisas, pessoas, ideias... não agressivamente ativos, é o único modo de os resolvermos.
Aperecebermo-nos de que podemos estar sempre mais passivos é a continuação da vigilância sem escolha, escolha que é conflito e destruição que nada resolvem.
Vigilância traz experiência que não é para acumular; acumulação impede mobilidade e observação.
É fundamental compreendermo-nos muito bem a nós mesmos e ao nosso modo de funcionamento, e, irmos para lá das portas: então o Desconhecido se revela. com K.
SOBRE A CRENÇA EM
SOBRE A CRENÇA EM DEUS Pergunta: Acreditar em Deus tem sido um poderoso incentivo para melhorar a vida. O senhor rejeita Deus, porquê? Por que não tenta restabelecer a fé do homem na ideia (como se a ideia fosse uma grande coisa!) em Deus?K. – Olhemos para o problema de um modo aberto e inteligente. Eu não rejeito Deus – isso seria demasiado estúpido. Só o homem que não conhece a realidade (quase Deus) utiliza palavras sem significado (Deus?). Aquele que diz que sabe, não sabe; o que experiencia a Realidade a todo o momento não tem (todos?) os meios para comunicar essa realidade.A crença é a negação da Verdade (o que faltava); a crença impede a Verdade; acreditar em deus é não encontrar Deus. Nem o crente nem o não-crente encontram Deus; porque a Verdade é Desconhecido, e acreditar ou não no desconhecido é uma projeção pessoal e portanto não é Real. Sei que você é crente, e sei também que isso tem pouco significado na sua vida.Há muita gente crente; milhões acreditam em Deus e nisso obtêm consolo. Primeiro que tudo, porque é crente? É crente porque isso lhe dá satisfação, conforto, esperança e, como você afirma, dá significado à vida. De fato, o seu acreditar tem muito pouco significado, porque acredita e explora os outros, acredita e mata, acredita num Deus universal e aceita que os homens se matem uns aos outros. O homem rico também acredita em Deus, ele explora sem piedade, acumula riqueza, e depois constrói um templo ou torna-se filantropo (benemérito!).Os homens que largaram a bomba atómica em Hiroshima disseram que Deus estava com eles; aqueles que voaram de Inglaterra para destruir a Alemanha afirmavam que Deus era o seu co-piloto. Os ditadores, os primeiros ministros, os generais, os presidentes, todos eles falam de Deus, têm imensa fé em Deus. E estão eles a fazer o que devem fazer, construindo uma vida melhor para os seres humanos? As pessoas que afirmam acreditar em Deus já destruíram metade do mundo, e este planeta está uma completa desgraça. Através da intolerância religiosa criam-se divisões entre os povos, os que acreditam, os que acreditam e os que não acreditam (ou os que acreditam numa maneira e os que acreditam doutra maneira), o que conduz a guerras religiosas. Isso demonstra como as nossas mentes estão extraordinariamente politizadas.Será que acreditar em Deus é «um poderoso incentivo para uma vida melhor»? Por que queremos nós um incentivo para viver melhor? Claro que esse incentivo dever ser o nosso próprio desejo de viver com higiene e com simplicidade (tudo o que vai para além disto, nomeadamente a acumulação, só pode prejudicar, porque não é justo), não é assim? Se procuramos um incentivo, é porque não estamos interessados em tornar a vida melhor para todos, estamos apenas interessados no nosso incentivo, que é diferente do de outra pessoa – e acabaremos por lutar por causa de um incentivo! Se vivemos em paz uns com os outros, não porque acreditamos mas porque somos seres humanos, então partilhamos todos os meios de produção com o objetivo de produzir coisas para toda a gente (e, vemos Deus!). Devido à falta de inteligência, aceitamos a ideia de uma superinteligência a que chamamos «Deus»; mas esse «Deus» não nos vai proporcionar uma vida melhor. O que conduz a uma vida melhor é a Inteligência; e não pode existir inteligência-Deus, se houver crença, se houver divisões sociais (até e nas igrejas, nos partidos, nos clubes, nos países, nos blocos!...), se os meios de produção (e distribuição) estiverem nas mãos de poucos indivíduos, se existirem nações isoladas e governos soberanos. Tudo isto indica falta de inteligência e é a falta de inteligência que está a impedir uma vida melhor, e não a descrença em Deus.Todos nós acreditamos de modos diferentes, mas a crença não tem qualquer realidade. A realidade é aquilo que cada um é, o que cada um faz, pensa, e acreditar em Deus é um mero escape para a nossa monótona, estúpida e cruel existência. Mais, a crença invariavelmente divide as pessoas: há o hindu, (o muçulmano), o budista, o cristão, (o judeu), o comunista, o socialista, o capitalista, e tudo o resto. A crença e a ideia dividem; nunca levam as pessoas a estarem unidas. Algumas pessoas podem juntar-se e formar um grupo; mas esse grupo acaba por se opor a outro grupo. Ideias e crenças nunca são unificadoras; pelo contrário, elas são separativas, desintegradoras e destrutivas. Portanto, a crença em Deus está de fato a espalhar a infelicidade no mundo; embora essa crença nos traga consolo momentâneo, ela na realidade traz mais sofrimento e destruição na forma de guerras, fome, divisão de classes e a impiedosa ação de indivíduos que se põem à parte. Assim, a crença não tem validade alguma. Se acreditamos realmente em Deus, se isso é uma experiência(?) real para nós, então há um sorriso na nossa face; e não destruímos os outros seres humanos.O que é a Realidade? O que é Deus? Deus não é a palavra, a palavra não é a realidade. Para conhecer isso que é imensurável, que não está no tempo, a mente tem de estar liberta do tempo, quer dizer, a mente tem de se libertar de todo o pensamento, de todas as ideias acerca de Deus. O que sabemos nós sobre Deus ou a Verdade? Não sabemos realmente nada sobre essa Realidade. Tudo o que conhecemos são palavras, são experiências de outros ou alguns momentos de experiências pessoais (até estas experiências tendo muito pouco ou nada a ver com Deus). Claro que isso não nos dá a conhecer Deus, não é a Verdade, isso não está para além do tempo, temos de compreender o processo do tempo, tempo sendo pensamento, sendo o processo de «vir a ser», sendo acumulação de conhecimentos. Isso é tudo o que está por detrás da mente; a mente, em si, é esse fundo(background), é o consciente e o inconsciente, é o coletivo e o individual. Assim, a mente tem de estar livre do conhecido, isto é, ela tem de estar completamente em silêncio, não FORÇADA ao silêncio. A mente que é forçada, controlada, moldada, posta dentro de limites e mantida quieta, não é uma mente em paz. Podemos ter sucesso por algum tempo em forçar a mente a ser superficialmente silenciosa, mas tal mente não é uma mente serena. A serenidade só acontece quando compreendemos todo o processo do pensamento, porque compreender esse processo é acabar com ele, e na cessação do processo do pensamento está o começo do silêncio.Só quando a mente está completamente em silêncio, não apenas a um nível superficial mas a um nível profundo da consciência – só então o desconhecido pode manifestar-se. O Desconhecido não é algo para ser experimentado pela mente; apenas o silêncio e só o silêncio pode ser experienciado. Se a mente experimenta o que quer que seja que não o silêncio, é porque está simplesmente a projetar os seus próprios desejos (daqui o mal da experiência da ilusão dos desejos…), e uma tal mente não está em silêncio. Silêncio é a libertação do passado, dos conhecimentos, de memórias conscientes e inconscientes; quando a mente está em completo silêncio, em não funcionamento, quando há silêncio que não é produto do esforço, então o Intemporal, o Eterno dá-se a mostrar. Esse estado não é um estado para lembrar – não há qualquer entidade a recordá-lo, a experimentá-lo.Portanto, Deus, a Verdade, chamemos-lhe o que quisermos, é algo que se manifesta a todo o momento, e isso só acontece num estado de liberdade e de espontaneidade, não quando a mente é disciplinada de acordo com um padrão. Deus não é uma coisa da mente, não vem através da autoprojeção; só acontece quando há virtude, que é liberdade. Virtude é enfrentar o fato de que O QUE É, e enfrentar o FATO gera um estado de BÊNÇÃO. Quando a mente está nesse estado de profunda alegria, em paz, sem qualquer movimento, sem a projeção consciente ou inconsciente do pensamento – só então o ETERNO se manifesta.” – K e J
Reder-se à vontade de Deus, supõe prévio conhecimento .......
Pergunta: Qual a diferença entre a rendição à vontade de Deus e o que dizeis a respeito da aceitação do que é? Krishnamurti: Há, por certo, enorme diferença, não? Render-se à vontade de Deus, supõe prévio conhecimento da vontade de Deus. Não vos submeteis a uma coisa que não conheceis. Se conheceis a realidade, não podeis render-vos a ela; deixais de existir; não há rendição a uma vontade superior. Se vos rendeis a uma vontade superior, essa vontade superior é uma projeção de vós mesmos, visto que o real não pode ser conhecido através do conhecido. Ele só pode vir à existência, quando o conhecido deixou de existir. O conhecido é criação da mente, porque o pensamento é resultado do conhecido, do passado, e o pensamento só pode criar o que conhece. Por conseguinte, o que ele conhece não é o eterno. Eis por que, quando vos rendeis à vontade de Deus, vos estais rendendo às vossas próprias projeções, isso pode ser agradável, confortador, mas não é o real. Livro: A PRIMEIRA E ÚLTIMA LIBERDADE (pagina 177) J. Krishnamurti Tradução Hugo Veloso Editora CULTRIX
O Supremo não pode ser atingido
Para o encontro com a vida necessita-se de vulnerabilidade e não de muralha respeitável da virtude, onde o eu se isola. O Supremo não pode ser atingido; não há caminho, não há aperfeiçoamento matematicamente progressivo, para chegar-se lá. A Verdade tem de vir, ninguém pode ir a ela, e a virtude cultivada não leva ninguém aonde ela está. O que se pode atingir, não é a Verdade, mas o nosso próprio desejo, projetado; e é só na Verdade que se encontra a felicidade.
Livro: Comentários Sobre o Viver (página 31)
J. Krishnamurti
Tradução Hugo Veloso
Editora CULTRIX
A Verdade ou Deus não é uma convicção
Pode-se converter alguém, de uma crença a outra, de um dogma a outro, mas ninguém pode ser convertido à compreensão da Realidade. Uma crença não é a realidade. Qualquer um pode mudar de pensar, de opinião, mas a Verdade ou Deus não é uma convicção: é uma experiência não baseada em crença alguma, em dogma algum, ou em experiência prévia. Se temos uma experiência nascida da crença, essa experiência é reação condicionada por aquela crença. Se temos uma experiência inesperada, espontânea, e sobre ela construímos novas experiências, ela se torna, nesse caso, meramente uma continuação da memória, reagindo ao contacto com o presente. A memória é sempre morta: só toma vida em contacto com o presente.
Livro: COMENTÁRIOS SOBRE O VIVER (página 21 )
J. Krishnamurti
Tradução de Hugo Veloso
Editora CULTRIX
A Realidade não está distante de nós
É sobremodo difícil ter consciência da estupidez, da avidez, da malevolência, ambição, etc. O fato mesmo de estar cônscio do que é, é a verdade. A REALIDADE, POIS, NÃO ESTÁ DISTANTE DE NÓS, MAS NÓS A COLOCAMOS A DISTÂNCIA, PORQUE DESEJAMOS QUE ELA NOS SIRVA DE CONTINUIDADE PESSOAL. Ela está aqui, agora, imediatamente. O eterno, ou atemporal, existe agora, e o agora não pode ser compreendido pelo homem que está aprisionado na rede do tempo. Para libertar o pensamento, é preciso ação; a mente porém, que é indolente, preguiçosa, cria sempre novos empecilhos. Essa libertação só é possível pela meditação correta, que significa ação completa – não ação contínua, e a ação completa só pode ser compreendida pela mente que compreende o processo da continuidade, que é memória – não a memória fatual, mas a memória psicológica. Enquanto funcionar a memória, a mente não poderá compreender o que é. Nossa mente, entretanto, o nosso ser total, se torna extraordinariamente criador, passivamente vigilante, ao ser compreendida a significação do findar, porque no findar há renovação, ao passo que na continuidade há morte, decomposição.
Livro: A PRIMEIRA E ÚLTIMA LIBERDADE (página 219)
J. Krishnamurti
Desejais que vos diga o que é Deus
Desejais que vos diga o que é a realidade. Pode o indescritível ser posto em palavras? Pode-se medir o imensurável ? Pode-se aprisionar o vento na mão? Se o fazeis, é o vento? Se medis o que é imensurável, é o imensurável? Se o formulais, é o real? Naturalmente que não, no momento em que descreveis algo que é indescritível, ele não é mais o indescritível. Do momento em que traduzis o incognoscível no conhecido, ele deixa de ser o incognocível. Entretanto, é isso o que buscamos, sequiosamente. Queremos sempre saber, pois teremos então a possibilidade de continuar a existir, a possibilidade - assim pensamos - de conquistar a felicidade final, a permanência. Queremos sempre saber por que não somos felizes, por que estamos lutando, insanamente, por que estamos exaustos, degradados. No entanto, ao invés de reconhecermos o fato simples - que somos entes degradados, estúpidos, cansados, agitados - queremos fugir do conhecido para o desconhecido, que por sua vez se torna o conhecido; desse modo, nunca podemos achar a realidade.
Conseqüentemente, ao invés de perguntar quem atingiu o real ou o que é Deus, por que não aplicais toda a vossa atenção e vigilância ao que é? Encontrareis então o desconhecido, ou melhor, ele virá ao vosso encontro. Se compreenderdes o que é conhecido, experimentareis aquele silêncio extraordinário, não provocado, não forçado, aquele vazio criador, no qual, e só nele, a realidade pode surgir. A realidade não pode vir àquele que está em "vir a ser", lutando; pode vir àquele que está em "ser" , que compreende o que é. Vereis, pois, que a realidade não está ao longe; o desconhecido não está longe de nós; ele se acha em "o que é". Assim como a solução de um problema se encontra no problema, assim também a realidade se encontra em "o que é"; se pudermos compreender "o que é", conheceremos então a verdade.
Livro: A PRIMEIRA E ÚLTIMA LIBERDADE (paginas 218, 219)
J. Krishnamurti.
Quando há amor, sabe-se o que é Deus. Ele é a eternidade.
Como nossos corações estão murchos, Deus se tornou extraordinariamente importante. Isto é, desejais conhecer a Deus, porque perdestes a melodia do vosso coração, e saís atrás do cantor, pedindo-lhe que vos ensine a cantar.Ele poderá ensinar-vos a técnica, mas a técnica não conduz à criação. Não sois músico pelo simples fato de saberdes cantar. Podeis conhecer todos os passos de uma dança, mas se não há criação no vosso coração, estais apenas funcionando como máquinas. Não podeis amar, se vosso fim é unicamente alcançar um resultado. Não existe aquilo que chamamos ideal, que é apenas um alvo para ser alcançado. A beleza não é objeto que se alcance; ela é a realidade, agora, não amanhã. Quando há amor, compreende-se o desconhecido, sabe-se o que é Deus, e não se precisa de ninguém para ensiná-lo. Esta é a beleza do amor. Ele é, em si, a eternidade. Como não temos amor, queremos que alguém, ou Deus, no-lo dê. Se amássemos deveras, sabemos como seria diferente este mundo? Seríamos verdadeiramente felizes. Por conseguinte, não colocaríamos nossa felicidade em coisas, na família, em ideais. Seríamos felizes e, conseqüentemente, as coisas, as pessoas e os ideais, não dominariam nossas vidas. Tudo isso é secundário. Porque não amamos e porque não somos felizes, pomos nosso interesse nas coisas, pensando que elas nos trarão a felicidade, e uma das coisas em que pomos nosso interesse é Deus.
Livro: A PRIMEIRA E ÚLTIMA LIBERDADE (página 218)
J. Krishnamurti
Vós atingistes o real? Podeis dizer o que é Deus?
Pergunta: Vós atingistes o real. Podeis dizer o que é Deus?
Krishnamurti: Como sabeis que atingi o real? Para sabê-lo, seria necessário que vós também o tivésseis alcançado. Não estou dando uma resposta sutil. Para conhecer uma coisa deveis estar em relação com ela; deveis ter tido também a experiência, pessoalmente e, por conseguinte, vossa afirmação de que alcancei a realidade, não tem, evidentemente, sentido. Que importa, se eu a alcancei ou não? O que estou dizendo não é verdadeiro? Ainda que eu seja o mais perfeito dos homens, se o que digo não é verdadeiro, por que me dais atenção? Ora, por certo, meu atingimento da realidade nada tem que ver com o que estou dizendo, e o homem que venera outro homem, por ter esse outro alcançado a realidade, está, em verdade, rendendo culto à autoridade e, por conseguinte, nunca encontrará a verdade. Nenhuma importância tem compreender o que se diz sobre a realidade, ou conhecer o homem que atingiu, não achais?
Sei que a tradição manda “acompanhar o homem que atingiu a realidade”. Mas como saber que ele atingiu? O que se pode fazer é acompanhá-lo; mas, mesmo isso é dificílimo, hoje em dia. Há muito pouca gente boa – no genuíno sentido da expressão – gente que não esteja à procura de alguma coisa, atrás de alguma coisa. Os que estão buscando alguma coisa, ou desejando alguma coisa, são exploradores, e, portanto, é muito difícil achar-se um companheiro para amar.
Idealizamos os indivíduos que alcançaram a realidade, esperamos que eles nos dêem alguma coisa – o que constitui uma relação falsa. COMO SE PODE ESTAR EM COMUNHÃO COM UM HOMEM QUE ATINGIU A REALIDADE, QUANDO ESTÁ AUSENTE O AMOR? Esta a nossa dificuldade. Em todas estas discussões, não nos amamos realmente uns aos outros; somos desconfiados. Desejais alguma coisa de mim: instrução, atingimento do real, ou minha companhia – e tudo isso indica que não amais. Como desejais alguma coisa, estais aqui para explorar. QUANDO AMAMOS, REALMENTE, UNS AOS OUTROS, A COMUNHÃO É INSTANTÂNEA. Então não importa mais que vós tenhais alcançado a realidade e eu não, ou que estejais num plano superior ou inferior.
Livro: A Primeira e a Última Liberdade (páginas 217, 218 )
J. Krishnamurti.
Deus ou a Verdade é algo que se manifesta de momento a momento
Por conseqüência , DEUS OU A VERDADE - OU COMO QUISERDES CHAMÁ-LO - É ALGO QUE SE MANIFESTA DE MOMENTO A MOMENTO, e isso só pode acontecer num estado de liberdade e espontaneidade, e não quando a mente foi disciplinada, de acordo com uma padrão. DEUS NÃO É PRODUTO DA MENTE, não é resultado de autoprojeção; só pode surgir quando há virtude, que é liberdade. Virtude é enfrentar o fato, o que é. E enfrentar o fato é um estado de bem-aventurança. Só quando a mente está repleta de felicidade, tranqüila, imóvel, sem nenhuma projeção de pensamento, consciente ou inconsciente - só então se manifesta o Eterno.
Livro: A PRIMEIRA E ÚLTIMA LIBERDADE (página 173)
J. Krishnamurti.
O Grande Mérito de K
O grande mérito de K é nos fornecer a possibilidade potencial em tornar a mente tranquila, imóvel, repleta de felicidade, sem nenhuma projeção de pensamento consciente ou inconsciente. Tudo isto em relação; onde podemos nos ver como somos. O homem é a única manifestação conhecida que pode testemunhar silenciosamente esse instante de virtude perfeita e assim libertar, em si mesmo, todas as manifestações cósmicas conhecidas.
Em síntese: ver o falso como falso; o verdadeiro como verdadeiro e o verdadeiro no falso e assim silenciamos o cérebro (pensamento/sentimentos/emoções) e esvaziamos a mente.
Seria um método ? Não, diferente do Budismo não há um "vir a ser" (tempo); somente um desnudamento diante do fato, o que é. A própria consciência se libertando dos emaranhados conceituais, resíduos evolutivos espaço-tempo, desejos e apegos (poeiras). A única ferramenta é a relação (vida); consigo mesmo, com os semelhantes e com a natureza.
Olá amigo Milton.
Interessante sua narração. Gostaria de fazer uma pequena observação.
Todas as coisas superficiais conhecidas dentro da modalidade espaço-tempo que compõem nossos relacionamentos: com a natureza, com os semelhantes e conosco mesmo não passam de coisas secundárias, com as quais administramos nossas existências, com as idiossincrasias de serem fugazes, temporárias e insatisfatórias. Em outras palavras; são resíduos, memórias, pensamentos, passados que se projetam no futuro incerto.
O que constitui o primordial da Consciência, do Eu Sou? Eis aí o mistério, a porta estreita, se assim podemos dizer. A Consciência funciona a semelhança de um prisma, transformando a luz branca, as potencialidades puras, o Desconhecido, o sopro divino, nas diferentes cores diversificadas e francionadas do universo conhecido. Em outras palavras, a sarsa ardente, a chama transformando e criando, a cada instante mágico, instante perfeito; você e eu e todo o conhecido.
Comungar esse instante de Consciência é a Apoteose da Consciência; o Nirvana de Buda; o Céu dos Cristãos, a Bem Aventurança dos hIndús, o TAO de Lao Tsé, a Mente sem conteúdo de K. É a Mente Iluminada e desperta.
Todo o resto é secundário e superflúo.
O Eterno, o Atemporal se manifesta quando há silêncio mental
Só quando a mente se acha em silêncio completo, não só na superfície, mas no fundo, de ponta a ponta, tanto nos níveis superficiais, como nos níveis mais profundos da consciência – só então pode o desconhecido manifestar-se na existência. O desconhecido não é passível de ser experimentado pela mente; só o silêncio pode ser experimentado; nada mais senão o silêncio. Se a mente experimenta algo que seja o silêncio, está apenas projetando seus próprios desejos e, portanto não está em silêncio; enquanto a mente não está silenciosa, enquanto o pensamento, sob qualquer forma, consciente ou inconsciente, se acha em movimento, não pode haver silêncio. Silêncio é liberdade, é estar livre do passado, do saber, da memória, tanto consciente como inconsciente. QUANDO A MENTE ESTÁ SILENCIOSA DE TODO, QUANDO NÃO ESTÁ EM USO, QUANDO HÁ SILÊNCIO QUE NÃO É PRODUTO DE ESFORÇO, SÓ ENTÃO SE MANIFESTA O ATEMPORAL, O ETERNO. Esse estado não é um estado de lembrança; não há entidade que se recorda, que experimenta.
Livro: A PRIMEIRA E A ÚLTIMA LIBERDADE ( páginas 172, 173 )
J. Krishnamurti
Em busca de Deus
Expresso aqui tão somente o que é a minha compreensão, não tenho a presunção de ser dono da verdade e, conseqüentemente, não tenho a pretensão de convencer ninguém.
Dizer que Deus é o criador do universo não é senão dar resposta simplista a um problema meramente teórico da origem do mundo físico; visto que esta resposta é inviável por meio um raciocínio lógico de regressão à causa primeira com os recursos da ciência empírica. Face à inviabilidade de o mundo físico criar a si próprio, ou seja, de que a causa primeira possa ser interna à realidade física, surge como resposta que essa causa esteja acima do físico, que não dependa do físico, que a causa primeira seja metafísica. Considerar se essa causa metafísica é dotada de atributos intelectuais e volitivos é tarefa das várias vertentes doutrinárias.
A “harmonia” do universo, que repetidamente é usada para demonstrar a existência de uma inteligência em sua formulação, está muito mais para Caos do que para Cosmos; o universo está em constante desequilíbrio.
Têm assim razão os filósofos materialistas ao negarem a existência de Deus, eis que suas especulações se limitam às relações de causas e efeitos inerentes ao mundo material, nas quais Deus é dispensável. Assim é a resposta de Laplace, ocupado com fenômenos físicos, mas fervoroso católico, a Napoleão quando este, ao ler sua obra “Exposition du systéme du monde”, lhe disse: “não encontrei o nome de Deus em sua obra”, ao que Laplace retrucou: “Majestade, não tive necessidade dessa hipótese”.
Dizer que Deus é provedor choca-se com a realidade do quotidiano. Face ao inevitável, impotentes diante do que foge ao nosso domínio, coloca-se a “vontade de Deus” como fonte de resignação, eis que diante de um desastre climático ou de uma doença, alguns são salvos, outros morrem; é Deus que provê ao salvamento daqueles e determina a morte destes? Se os que se salvam dão “graças a Deus” podem, então, os que sucumbem pôr a culpa em Deus? Poderíamos indagar quais seriam os critérios de Deus?
Deus como provedor de nossas necessidades materiais? Considero hipocrisia pedir a Deus que nos conceda benesses materiais, ainda que legítimas.
Me causa perplexidade que, em geral, quando se aborda o tema de Deus, se o faz quase sempre ligando-o ao mundo material, desprezando o que disse Jesus de Nazaré: o reino de Deus não é deste mundo.
Na minha compreensão, Deus é, acima de tudo, a resposta ao problema de nossa existência metafísica, em síntese: se nossa existência não se resume à condição material, mas somos dotados de um espírito, é nele que Deus assume sua presença e importância.
Esse é o motivo pelo qual não podemos entender Deus, não conseguiremos jamais atingi-lo pela razão, pois que esta é uma propriedade da mente física. Deus somente pode ser encontrado pela nossa sensibilidade, que é um atributo do espírito.
Somos dotados de consciência e de sentimentos o que, de persi, é infinitamente mais importante que termos um corpo. Saber-se vivo não é tão importante quanto sentir-se vivo.
Um abraço fraterno, Aldo
La tecnología ha afectado a
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Que sabeis de Deus ou a Verdade? De fato nada sabeis daquela ...
Mas, que é a realidade, que é Deus? Deus não é a palavra; a palavra não é a coisa. Para conhecer aquilo que é imensurável, independente do tempo, a mente deve estar livre do tempo, o que significa que deve estar livre de todo pensamento, de todas as idéias relativas a Deus. QUE SABEIS DE DEUS OU DA VERDADE? DE FATO NADA SABEIS DAQUELA REALIDADE. O que conheceis são só palavras, experiências de outrem, ou alguns momentos de experiências um tanto vagas, de vós mesmos. Isso naturalmente, não é Deus, não é a realidade, não está fora da esfera do tempo. Para conhecer o que está além do tempo, é preciso compreender o processo do tempo, sendo tempo pensamento, processo de “vir a ser”, acumulação de conhecimento. Aí está todo o fundo que constitui a mente; a mente, ela própria, é o fundo, consciente e inconscientemente, coletiva e individualmente. A mente, por conseguinte, deve estar livre do conhecido, o que significa que deve estar de todo silenciosa, sem ter sido posta em silêncio. A mente que alcança o silêncio como resultado, como conseqüência de determinada ação, exercício, disciplina, não é mente silenciosa. A mente que é constrangida, controlada, moldada, posta numa forma é obrigada a ficar quieta, não é mente tranqüila. A TRANQÜILIDADE SÓ PODE VIR QUANDO SE COMPREENDE TODO O PROCESSO DE PENSAMENTO, PORQUE, COMPREENDER O PROCESSO É PÔR-LHE FIM, E O FIM DO PROCESSO DE PENSAMENTO É O COMEÇO DO SILÊNCIO.
Livro: A PRIMEIRA E A ÚLTIMA LIBERDADE (página 172 )
J. Krishnamurti
EDITORA CULTRIX 5ª Edição
Jamais disse que Deus não existe. Disse que Deus só existe....
A Sra. Besant tencionava ir ao acampamento de Ommen a convite especial de Krishnamurti, feito em uma carta muito amorosa , mas uma indisposição a impediu. Embora ele se preocupasse muito com a saúde dela, sua ausência permitiu-lhe dizer o que queria nas palestras em volta da fogueira do acampamento, sem temer magoá-la. Ele chegou a dizer aos organizadores do acampamento, antes da abertura, que dissolveria a Ordem da Estrela imediatamente se ela “reivindicasse ser um instrumento que tinha a verdade, a única Verdade”. Durante as reuniões fizeram-lhe perguntas como: “É verdade que não deseja discípulos?” “O que pensa de rituais e cerimônias?” “Por que nos diz que não há estágios no Caminho”. “Uma vez que nos diz que não há Deus, código moral e nem o bem ou o mal, em que seu ensinamento difere do materialismo comum”. “Você é o Cristo que retornou?” Trechos das respostas de Krishnamurti transcritos abaixo mostram como ele era pouco entendido por aqueles que lhe faziam estas perguntas.
“Torno a dizer que não tenho discípulo. Se compreenderem a Verdade e não seguirem indivíduos verão que cada um de vocês é um discípulo da Verdade... A Verdade não dá esperança; ela dá compreensão... Não há compreensão no culto à personalidade...CONTINUO A AFIRMAR QUE TODAS AS CERIMÔNIAS SÃO DESNECESSÁRIAS PARA O CRESCIMENTO ESPIRITUAL.....Se quiserem procurar a Verdade, precisam sair, ir para bem longe das limitações da mente e do coração humanos e lá descobri-la – E ESTA VERDADE ESTÁ DENTRO DE VOCÊS. Não é mais simples ter a própria Vida como meta do que ter mediadores, gurus, que inevitavelmente diminuirão a Verdade e, portanto, a trairão? ....Digo que a Libertação pode ser alcançada EM QUALQUER ESTÁGIO DA EVOLUÇÃO PELO HOMEM QUE COMPREENDE, e adorar estágios, como vocês fazem, não é essencial. Não repitam minhas palavras como vindas de uma autoridade. Recuso-me a ser uma muleta. Não permitirei que me carreguem em uma gaiola para sua adoração. Quando levamos o ar fresco da montanha e o prendemos numa pequena sala, o frescor do ar desaparece e resta apenas a estagnação. JAMAIS DISSE QUE DEUS NÃO EXISTE. DISSE QUE DEUS SÓ EXISTE MANIFESTADO EM NÓS.....MAS NÃO USAREI A PALAVRA DEUS....PREFIRO CHAMAR-LHE VIDA. É claro que não existe nem o bem nem o mal. O bem é o que vocês não receiam; o mal é o que temem. Portanto, se destruírem o medo, estarão espiritualmente realizados.....Quando estiverem apaixonados pela vida e colocarem este amor acima de qualquer coisa e julgarem por este amor e não por seu temor, então esta estagnação que chamam de moralidade desaparecerá...Amigos, não se preocupem com quem eu sou: NUNCA SABERÃO. ... Vocês pensam que a Verdade tem alguma relação com aquilo que pensam que eu sou? Vocês não estão preocupados com a verdade, mas com o vaso que contém a Verdade. Bebam a água se estiver limpa; EU LHES DIGO QUE TENHO ESTA ÁGUA LIMPA; tenho o bálsamo que purifica, que cura enormemente, e vocês me perguntam: quem é você? Eu sou todas as coisas sou a Vida”.
Ele encerrou a Convenção com as palavras: “Milhares de pessoas tem vindo a estes acampamentos, o que não fariam no mundo se todos compreendessem! Poderiam mudar amanhã a face da Terra”.
Livro: VIDA E MORTE DE KRISHNAMURTI
Autora: Mary Lutyens
Tradução: Marly Winckler
EDITORA TEOSÓFICA 1ª Edição.
Se deveras crêsseis em Deus, vossos semblantes irradiariam.....
Os homens que lançaram a bomba atômica sobre Hiroxima disseram que Deus os acompanhava; os que voavam da Inglaterra para destruir a Alemanha, diziam que Deus era seu co-piloto. Os ditadores, os primeiros ministros, os generais, os presidentes, todos falam de Deus e tem fé imensa em Deus. Estão prestando algum serviço tornando melhor a vida do homem? As mesmas pessoas que dizem crer em Deus, devastaram a metade do mundo, e o deixaram em completa miséria. A intolerância religiosa, dividindo os homens em fiéis e infiéis, conduz a guerras religiosas. Isso mostra nosso estranho senso político.
A crença em Deus é “poderoso incentivo para uma vida melhor”? Por que precisais de um incentivo para viver melhor? Ora, por certo, vosso incentivo deve ser vosso próprio desejo de viver com pureza e simplicidade, não achais? Se conferis tanta importância ao incentivo, não estais interessado em tornar a vida possível para todos; estais interessado unicamente no vosso incentivo que é diferente do meu incentivo – e brigaremos por causa dos nossos incentivos. Se vivemos felizes e unidos, não porque cremos em Deus, mas porque somos humanos, compartilharemos os diferentes meios de produção, a fim de produzirmos, para todos, as coisas necessárias. Em virtude da nossa falta de inteligência, aceitamos a idéia de uma super inteligência, a que chamamos Deus; mas esse Deus, essa super inteligência, não nos dará uma vida melhor. O que conduz a uma vida melhor é a inteligência; e não pode haver inteligência se há crenças, se há divisões de classes, se os meios de produção se encontram nas mãos de poucos, se há nacionalidades isoladas e governos soberanos. Tudo isso indica, por certo, evidente falta de inteligência, e é isso que nos está privando de uma vida melhor, e não a falta de crença em Deus.
Todos vós credes, de diferentes maneiras, mas vossa crença não tem realidade alguma. A realidade é o que sois, o que fazeis, o que pensais, E VOSSA CRENÇA EM DEUS É APENAS UMA FUGA DO VOSSO VIVER MONÓTONO, ESTÚPIDO, E CRUEL. Além disso, a crença, invariavelmente, separa os homens: temos o hinduísta, o budista, o cristão, o comunista, o capitalista, etc. A crença, a idéia, divide, não une os homens. Será possível unir certo número de pessoas em uma grupo, mas este grupo se oporá a outro grupo. Idéias e crenças nunca são unificadoras, ao contrário, são fatores de desavença, desintegração e ruína. Por conseguinte, VOSSA CRENÇA EM DEUS SÓ ESTÁ, NA VERDADE, ESPALHANDO MISÉRIAS PELO MUNDO. Ainda que vos tenha trazido momentâneo conforto, na realidade ela trouxe mais sofrimentos e mais destruição, sob a forma de guerras, fome, divisões de classe, e as crueldades de certos indivíduos. Vossa crença, pois, é sem eficácia. SE DEVERAS CRÊSSEIS EM DEUS, SE ISSO FOSSE UMA EXPERIÊNCIA REAL, VOSSOS SEMBLANTES IRRADIARIAM AFETO, E NÃO ESTARÍEIS DESTRUINDO VOSSOS SEMELHANTES.
Livro: A PRIMEIRA E ÚLTIMA LIBERDADE (página 171, 172 )
J. Krishnamurti
Editora CULTRIX 5ª edição
Eu não nego Deus; seria absurdo fazê-lo.
Pergunta: A crença em Deus foi sempre poderoso incentivo para uma vida melhor. Por que negais Deus? Porque não procurais reanimar a fé do homem na idéia de Deus?
Krishnamurti: Consideremos este problema com amplitude e de maneira inteligente. EU NÃO NEGO DEUS; SERIA ABSURDO FAZÊ-LO. Só o homem que não conhece a realidade se entretém com palavras sem significação. O homem que diz que sabe, não sabe. O homem que conhece a realidade, momento por momento, não tem meios de comunicar a realidade. A crença é negação da verdade, a crença é um obstáculo à verdade; crer em Deus não é achar a Deus. Nem o crente nem o descrente acharão a Deus. Porque a realidade é o desconhecido, a vossa crença ou descrença do desconhecido é simples autoprojeção, e por conseguinte não é real. Sei que credes e sei que isso tem muito pouca significação na vossa vida. Há muitas pessoas que crêem; milhões crêem em Deus e encontram consolo nisso. Em primeiro lugar, por que credes? Credes porque isso vos dá satisfação, consolo, esperança, e dizeis que essas coisas dão sentido à vida. Na realidade, vossa crença tem muito pouca significação, porque credes e explorais, credes e matais, credes em um Deus e vos assassinais mutuamente. O rico também crê em Deus; explora impiedosamente, acumula dinheiro, e depois manda construir uma igreja ou se torna filantropo.
Livro: A PRIMEIRA E A ÚLTIMA LIBERDADE (páginas 170, 171)
J. Krishnamurti
Editora CULTRIX (5ª edição)
O homem que diz saber o que é Deus, não o sabe.
Pergunta: Deus é para vós uma realidade? Se o é falai-nos de Deus.
Krishnamurti: É a mente preguiçosa que faz uma pergunta dessas, não achais? Isso é como um homem deixar-se ficar sentado, muito confortavelmente, no meio do vale, e desejar que lhe dêem uma descrição do que se encontra além das montanhas. É isso o que todos estamos fazendo. As palavras que lemos nos chamados livros sagrados satisfazem-nos a mente. As descrições das experiências de outros são nos gratas e pensamos haver compreendido tudo; mas nunca nos mexemos, nunca deixamos o vale, para galgarmos as íngremes encostas e descobrirmos por nós mesmos. Eis porque tanto importa começarmos de novo, rejeitando todos os livros, todos os guias, todos os instrutores, para fazermos a jornada sozinhos. Deus, o desconhecido, é coisa que precisa ser descoberta; não podemos descrevê-lo nem a seu respeito especular. O que se especula é produto do conhecido; e a mente que está entravada, onerada, ocupada pelo conhecido, nunca descobrirá o desconhecido. Podeis praticar a virtude, ficar sentados horas e horas a meditar, mas nunca conhecereis o desconhecido, porque o desconhecido só pode vir à existência pelo autoconhecimento. Deve a mente libertar-se do sentimento de sua própria continuidade – que é o conhecido; e quando isso acontecer, nunca perguntaremos se Deus é uma realidade. O HOMEM QUE DIZ SABER O QUE É DEUS, NÃO O SABE. Só a mente que se liberta da experiência de há um segundo, pode conhecer o desconhecido. Deus, ou a Verdade não tem morada permanente, e nisso é que consiste a sua beleza; essa Realidade não pode ser convertida em abrigo de uma mente rasteira, insignificante. Ela é uma coisa viva organizada, nenhum dogma ou crença , que não leva a carga do conhecido – só essa mente pode descobrir se há ou se não há Deus. O declarar que o há ou não o há, impede qualquer descobrimento. Mas a mente, porque ela própria é impermanente, deseja a segurança de que existe algo permanente, e por isso diz que deve haver algo que é eterno, perene. Em virtude de sua própria qualidade – o tempo – ela projeta uma coisa a que chama “o atemporal” e se põe a especular a seu respeito; mas só a mente que se liberta do tempo, pode conhecer o desconhecido.
11 de março de 1956
Livro: DA SOLIDÃO À PLENITUDE HUMANA (página 178, 179)
J. Krishnamurti
A mente pode imaginar Deus com uma barba ou um olho só.
Para descobrir o que é a verdade você nunca pode aceitar nada gratuitamente, não deve nunca deixar-se influenciar pelo que os livros, os instrutores ou alguma outra pessoa digam. Se for influenciado por eles, só encontrará o que eles querem que você encontre. E você deve saber que a sua mente pode criar a imagem daquilo que ela deseja; ELA PODE IMAGINAR DEUS COM UMA BARBA OU COM UM OLHO SÓ; pode torná-lo azul ou purpúreo. Assim sendo, você precisa estar consciente de seus próprios desejos e não se deixar enganar pelas projeções de seus próprios desejos e ansiedades. SE DESEJA MUITO VER DEUS SOB CERTA FORMA, A IMAGEM QUE VOCÊ VERÁ SERÁ DE ACORDO COM SEUS DESEJOS; E ESSA IMAGEM NÃO SERÁ DEUS, NÃO É? Se estiver triste e quiser ser consolado, ou se você se sentir sentimental e romântico em suas aspirações religiosas, acabará criando um Deus que suprirá o que você quer; mas isso ainda não será Deus.
Portanto, a sua mente deve ser completamente livre, e só então você poderá descobrir a verdade – não pela aceitação superstição, nem pela leitura dos chamados livros sagrados, nem por seguir um guru. Só quando tiver esta liberdade, esta verdadeira liberdade das influências exteriores, bem como de seus próprios desejos e anelos, de modo que tenha a mente bastante clara – SÓ ENTÃO SERÁ POSSÍVEL DESCOBRIR O QUE É DEUS. Mas se você se limitar a sentar e a especular, seu palpite valerá tanto quanto o de seu guru e será igualmente ilusório.
Livro: O VERDADEIRO OBJETIVO DA VIDA (página 46)
J. Krishnamurti
Editora: CULTRIX
Por que veneramos Deus?
Pergunta: Por que veneramos Deus?
Krishnamurti: Não me parece que veneramos Deus. Não riais! Vede, nós não amamos Deus; se amássemos a Deus, não haveria essa coisa que chamamos “adoração”. Adoramos Deus porque O tememos; há medo em nossos corações, e não amor. O templo, o puja, as vestes sagradas – essas coisas não são de Deus, são criações da vaidade e do medo do homem. Só os que são infelizes, os que sentem medo, adoram Deus. Os que tem riqueza, posição e autoridade, não são entes felizes. O homem ambicioso é um ente humano muito infeliz. A felicidade só vem quando estamos libertados de tudo isso; e, então, não adoramos Deus. São os infelizes, os torturados, os desesperados, que se arrastam para os templos; mas, se abandonarem essas suposta devoção e compreenderem sua desdita, eles serão então homens e mulheres felizes, porque descobrirão o que é a Verdade, o que é Deus.
Livro: A CULTURA E O PROBLEMA HUMANO (Página 137)
J. Krishnamurti
Editora CULTRIX
Isso significa que Deus está no homem
K: Eu estava assistindo, outro dia, na televisão, a um debate sobre Darwin, sobre o seu conhecimento e sobre o que ele realizou – toda sua teoria da evolução. Ela me parece totalmente falsa psicologicamente.
DB: Parece que ele forneceu evidências de que todas as espécies mudaram com o tempo. Por que isso é falso?
K: Naturalmente. É óbvio.
DB: Mas fisicamente parece claro que houve um processo de evolução, e que isso aumentou a capacidade do cérebro para fazer certas coisas. Por exemplo, não poderíamos estar discutindo esse problema se o cérebro não tivesse aumentado.
K: Naturalmente.
DB: Mas, a meu ver, você está sugerindo que a mente não se origina do cérebro. Não é isso? O cérebro é, talvez, um instrumento da mente?
K: E a mente não é o tempo. Veja bem o que isso significa.
DB: A mente não evolui com o cérebro.
K: A mente não pertence ao tempo, e o cérebro pertence ao tempo – não seria esta a origem do conflito?
DB: Bem, temos de verificar por que isso cria o conflito. Não fica claro dizer que o cérebro pertence ao tempo, mas sim que ele se desenvolveu de tal maneira que o tempo está inserido nele.
K: Sim, é isso que eu quis dizer.
DB: Mas não é necessariamente isso.
K: Ele evoluiu.
DB: Ele evoluiu, e assim traz o tempo dentro de si.
K: Sim, ele evoluiu. O tempo é parte dele.
DB: Ele se tornou parte da sua própria estrutura.
K: Sim.
DB: Contudo, a mente opera sem o tempo, embora o cérebro não seja capaz de fazer isso.
K: ISSO SIGNIFICA QUE DEUS ESTÁ NO HOMEM, E QUE DEUS SÓ PODE OPERAR SE O CÉREBRO ESTIVER TRANQÜILO, SE O CÉREBRO NÃO ESTIVER PRESO NO TEMPO.
DB: Bem, eu não estava querendo dizer isso. Eu percebo que o cérebro, pelo fato de possuir uma estrutura temporal, não é capaz de responder à mente de maneira adequada. É isso o que realmente parece estar implicado aqui.
K: Pode o próprio cérebro perceber que ele está preso no tempo e que, enquanto ele persistir seguindo essa direção, o conflito será eterno, interminável? Você está seguindo o que eu estou dizendo?
DB: Sim. Será que o cérebro percebe isso?
K: Teria o cérebro a capacidade de perceber o que está fazendo agora – estando preso no tempo – de perceber que nesse processo não há um fim para o conflito? Isso quer dizer: Haverá uma parte do cérebro que não pertença ao tempo?
DB: Que não esteja presa nem funcionando no tempo?
K: Pode alguém dizer isso:
DB: Não sei.
K: Isso significaria – voltamos à mesma coisa usando palavras diferentes – que o cérebro não está sendo completamente condicionado pelo tempo, de modo que há uma parte do cérebro que se encontra livre do tempo.
Livro: A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO (páginas 21, 22, 23 )
Diálogos entre J. Krishnamurti / David Bohm
A crença não vos conduz a Deus
Pergunta: A crença em Deus se baseia sempre no medo?
Krishnamurti: Por que credes em Deus? Qual a necessidade? Interessa-vos a crença em Deus quando sois muito feliz ou só quando se vos apresentam tribulações? Vós credes, porque fostes condicionado para crer? Como sabemos, há dois mil anos que nos dizem que existe Deus. E no mundo comunista estão condicionando a mente para não crer em Deus. É a mesma coisa; tanto num como noutro caso a mente está sendo influenciada. A palavra “Deus” não é Deus; e o descobrirdes verdadeiramente, por vós mesmo, se tal coisa – Deus – existe, é muito mais significativo do que vos apegardes a uma crença ou descrença. E o descobrir por si mesmo requer enorme energia – energia para libertar-se de todas as crenças; porém isto não importa um estado de ateísmo ou de dúvida. Mas a crença é uma coisa muito confortante, e poucos estão dispostos a despedaçar-se interiormente. A CRENÇA NÃO VOS CONDUZ A DEUS. Nenhum templo, nem igreja, nem dogma, nem ritual pode conduzir-vos à Realidade. Essa Realidade existe; mas para descobri-la precisais de uma mente imensurável. A mente pequena, limitada, só pode encontrar os deuses pequeninos e limitados que ela mesma cria. Portanto, devemos estar prontos a perder toda a nossa respeitabilidade, todas as nossas crenças, para podermos descobrir o que é real.
Acho que não podeis continuar escutando. Se estivestes escutando indolentemente, ouvindo puramente as palavras, neste caso, sem dúvida, poderíeis continuar ouvindo por mais algumas horas. Mas, se escutastes corretamente, atentamente, com o propósito de aprofundar, então dez minutos bastariam, porque neste espaço poderíeis destroçar as barreiras que a mente criou para si própria e descobrir o que é Verdade.
7 de setembro de 1961
Livro: O PASSO DECISIVO (página 214, 215 )
J. Krishnamurti
Editora CULTRIX
Todos os livros sagrados descrevem Deus, mas essa descrição...
Pergunta: Que é Deus ?
Krishnamurti: Como descobrir? Você pretende aceitar a informação de alguma outra pessoa? Ou vai, antes, tentar descobrir por si mesmo o que vem a ser Deus? É fácil fazer pergunta, mas experienciar a verdade exige muita inteligência, grande esforço de pesquisa e de busca.
Assim, a primeira pergunta é: você pretende aceitar o que outra pessoa diga sobre Deus? Não importa quem seja ela, Krishna, Buda ou Cristo, porque todos podem estar enganados – e também o seu guru particular pode estar enganado. Sem dúvida, para descobrir a verdade, sua mente precisa ser livre para inquirir, o que quer dizer que ela não pode simplesmente aceitar ou crer. Posso dar-lhe uma descrição da verdade, mas não será o mesmo que você vivenciar a verdade por si próprio. TODOS OS LIVROS SAGRADOS DESCREVEM DEUS, MAS ESSA DESCRIÇÃO NÃO É DEUS. A palavra “Deus” não é Deus, não é mesmo?
Livro: O Verdadeiro Objetivo da Vida (página 45, 46)
J. Krishnamurti
Não podemos aproximar-nos de Deus se nos entregamos ao sexo
Incapazes, que somos, de compreender essa coisa humana chamada amor, fugimos para abstrações. O amor pode ser a solução final de todas as dificuldades, problemas e aflições humanas. Assim, como iremos descobrir o que é o amor? Pela simples definição? A Igreja o tem definido de uma maneira, a sociedade de outra, e há também desvios e perversões de toda espécie. A adoração de uma certa pessoa, o amor carnal, a troca de emoções, o companheirismo – será isso o que se entende por amor? Essa foi sempre a norma, o padrão, que se tornou tão pessoal, sensual, limitado, que as religiões declararam que o amor é muito mais do que isso. Naquilo que denominam “amor humano”, vêem elas que existe prazer, competição, ciúme, desejo de possuir, de conservar, de controlar, de influir no pensar de outrem e, sabendo da complexidade dessas coisas, dizem as religiões que deve haver outra espécie de amor – divino, belo, imaculado, incorruptível.
Em todo o mundo, certos homens chamados “santos” sempre sustentaram que olhar uma mulher é pecaminoso; DIZEM QUE NÃO PODEMOS APROXIMAR-NOS DE DEUS SE NOS ENTREGAMOS AO SEXO e, por conseguinte, o negam, embora eles próprios se vejam devorados por ele. Mas, negando o sexo, esses homens arrancam os próprios olhos, decepam a própria língua, uma vez que estão negando toda a beleza da Terra. Deixaram famintos os seus corações e a sua mente; são entes humanos “desidratados”; baniram a beleza, porque a beleza está ligada à mulher.
Pode o amor ser dividido em sagrado e profano, humano e divino, ou só há amor? O amor é para um só e não para muitos? Se digo “Amo-te”, isso exclui o amor a outro? O amor é pessoal ou impessoal? Moral ou imoral? Familial ou não familial? Se amais a humanidade, podeis amar o indivíduo? O amor é sentimento? Emoção? O amor é prazer e desejo? Todas essas perguntas indicam – não é verdade? – que temos idéias a respeito do amor, idéia sobre o que ele deve ou não deve ser, um padrão, um código criado pela cultura em que vivemos.
Assim para examinarmos a questão do amor – o que é o amor – devemos primeiramente libertar-nos das incrustações dos séculos, lançar fora todos os ideais e ideologias sobre o que ele deve ou não deve ser. Dividir qualquer coisa em o que deveria ser e o que é, é a maneira mais ilusória de enfrentar a vida.
Ora, como iremos saber o que essa chama que denominam amor - não a maneira de expressá-lo a outrem, porém o que ele próprio significa? Em primeiro lugar, rejeitarei tudo que a Igreja, a sociedade, meus pais e amigos, todas as pessoas e todos os livros disseram a seu respeito, porque desejo descobrir por mim mesmo o que ele é. Eis um problema imenso, que interessa a toda a humanidade; há milhares de maneiras de defini-lo e eu próprio me vejo todo enredado neste ou naquele padrão, conforme a coisa que, no momento, me dá gosto ou prazer. Por conseguinte, para compreender o amor, não devo em primeiro lugar libertar-me de minhas inclinações e preconceitos? Vejo-me confuso, dilacerado pelos meus próprios desejos e, assim, digo entre mim: “Primeiro, dissipa a tua confusão. Talvez tenhas possibilidade de descobrir o que é o amor através do que ele não é.
Livro: LIBERTE-SE DO PASSADO (página 71, 72, 73)
J. Krishnamurti
Quando adorais a Deus, estais adorando a vós mesmo.
A necessidade de segurança nas relações gera inevitavelmente o sofrimento e o medo. Já encontrastes alguma vez segurança em alguma de vossas relações? Já? A maioria de nós quer a segurança no amar e no ser amado, mas existirá amor quando cada um está a buscar a própria segurança, seu caminho próprio? Nós não somos amados porque não sabemos amar.
Que é o amor? Esta palavra está carregada e corrompida, que quase não tenho vontade de empregá-la. Todo o mundo fala de amor – toda revista e jornal e todo missionário discorre interminavelmente sobre o amor. Amo a minha pátria, amo o meu rei, amo um certo livro, amo aquela montanha, amo o prazer, amo minha esposa, amo a Deus. O amor é uma idéia? Se é, pode então ser cultivado, nutrido, conservado com carinho, moldado, torcido de todas as maneiras possíveis. Quando dizeis que amais a Deus, que significa isso? Significa que amais uma projeção de vossa própria imaginação, uma projeção de vós mesmo, revestida de certas formas de respeitabilidade, conforme o que pensais ser nobre e sagrado; o dizer “Amo a Deus” é puro contra-senso. QUANDO ADORAIS A DEUS, ESTAIS ADORANDO A VÓS MESMO; e isso não é amor
Livro: LIBERTE-SE DO PASSADO (página 71)
J. Krishnamurti
A Vontade de Deus
A VONTADE DE DEUS
Pergunta: Depois de nos “esvaziarmos” do “eu”, que há para preencher a mente?
Krishnamurti: Como posso responder-vos? Primeiro, tratai de “esvaziar” a mente e, depois, descobrireis o que há. Não só vós, pessoalmente, senhor: todos nós. Esta é uma questão de interesse geral. Temos muito medo do vazio e desejamos preenchê-lo. Temos medo de nossa esgotante solidão, e procuramos fugir dela. É o fugir que gera o medo; mas o fugir nos põe ativos e, por isso, quando fugimos, pensamos que estamos sendo muito positivos. Quando tiverdes compreendido essa solidão, depois de atravessá-la e ultrapassá-la, descobrireis por vós mesmos o que há quando “eu” já não existe. Mas, como em tudo mais, senhor, deveis começar pelo vazio. A taça só é útil quando vazia. Mas, para compreender esse vazio, é preciso atravessá-lo num clarão, por assim dizer, e lançar a base correta. Então, vós sabereis; nunca mais perguntareis o que há além daquele vazio.
Ouvinte: Então, por certo, o significado da vida é este: A taça deve ser útil.
Krishnamurti: A taça só pode ser útil quando vazia. Podeis então enchê-la com o de que gostais. Mas se vossa taça já está cheia – cheia de sofrimento, aflição, conflito – que utilidade tem ela? Senhor, que utilidade tem nossa vida, tal como é: competição, guerras, conflitos internacionais, divisão entre Oriente e Ocidente, entre esta e aquela religião? Que utilidade tem isso?
Interpelante: Não me entendestes bem. Dizendo que “a taça deve ser útil”, eu quis dizer que a finalidade da vida é cumprir a vontade de Deus.
Krishnamurti: Todo político, todo negociante, todo general preparador de guerras, fala sobre “a vontade de Deus”. O comunista também fala da “vontade de Deus”, mas no seu caso se trata da “vontade do Estado”, etc. etc. Que é “a vontade de Deus”? Só podereis averiguar isso quando já não estiverdes buscando, já não estiverdes pedindo, quando já não pertencerdes a nenhum grupo separado, quando já não tiverdes medo, quando vos achardes num estado de completa incerteza – que não significa demência. Nesse estado, o pensamento já não busca um pouso seguro. Então, talvez, aquilo que se pode chamar “Deus” – ou outro nome qualquer – começará a atuar.
14 de junho de 1962
Livro: O HOMEM E SEUS DESEJOS EM CONFLITO (páginas 76,77)
J. Krishnamurti
Vim ter convosco para descobrir se há Deus, e me tornastes.....
Interrogante: Vim ter convosco para descobrir se há Deus, e me tornastes totalmente confuso.
Krishnamurti: Viestes perguntar se há Deus, e nós respondemos: A palavra leva à ilusão que adoramos, e por causa dessa ilusão estamos prontos a matar-nos mutuamente. Quando não há nenhuma ilusão, “o que é” é então sacratíssimo. Pois bem; olhemos o que realmente é . Num dado momento, “o que é” pode ser medo, ou extremo desespero, ou passageira alegria. Essas coisas variam constantemente. E há também o observador que diz: “Tudo o que me cerca varia, mas eu permaneço o mesmo”. É fato isso, é realmente o que é? Ele também não varia, acrescentando a si próprio, subtraindo de si próprio, modificando-se, ajustando-se, “vindo a ser”, “não vindo a ser”? Vemos, pois, que tanto o observador como a coisa observada variam constantemente. “O que é” é variação. Isso é um fato. É “o que é”.
Livro: A LUZ QUE NÃO SE APAGA (páginas 19, 20)
J. Krishnamurti.
Deus é a ilusão que adoramos.
DEUS É A ILUSÃO QUE ADORAMOS
Interrogante: E vós me estais pedindo que me despoje da palavra? Como posso fazê-lo? A palavra é o passado; é memória. A esposa é a palavra, e a casa é a palavra. “No começo, era o Verbo”. A palavra é também o meio de comunicação, de identificação. Vosso nome não é vós, mas, se não sei vosso nome, não posso pedir informações a vosso respeito. E vós me estais perguntando se a mente pode libertar-se da palavra – quer dizer, se a mente pode libertar-se de sua própria atividade.
Krishnamurti: No caso da árvore, o objeto está diante de vossos olhos, e a palavra se aplica à árvore, por consenso geral. Ora, com relação à palavra “Deus” não existe nada a que ela possa aplicar-se de modo que cada homem pode criar sua própria imagem da coisa designada por tal palavra. O teólogo o faz por uma certa maneira, o intelectual por outra, e o crente e o não crente por suas próprias e diferentes maneiras. A esperança é produto do desespero - o desespero de todos os que nos cercam neste mundo. Do desespero nasce a esperança – também asa duas faces da mesma moeda. Quando não há esperança, há o inferno, e o medo ao inferno dá-nos a vitalidade da esperança. Começa, então, a ilusão. A PALAVRA, POR CONSEGUINTE, LEVOU-NOS À ILUSÃO E NÃO A DEUS. DEUS É A ILUSÃO QUE ADORAMOS; e o descrente cria a ilusão de outro Deus que ele venera – o Estado, ou uma certa utopia, ou um certo livro que ele pensa conter toda a verdade. Por isso vos perguntamos se podeis libertar-vos da e de sua ilusão.
Interrogante: Preciso meditar sobre isso.
Krishnamurti: Se não há ilusão, que resta?
Interrogante: Apenas “o que é”.
Krishnamurti: “O que é” é o que há de mais sagrado
Interrogante: Se “o que é” é o que há de mais sagrado, então a guerra é sacratíssima, e o são o ódio, a desordem, a dor, a avareza, a pilhagem. Não há então necessidade de falarmos em transformação. Se é sagrado “o que é”, nesse caso todos os assassinos e salteadores e exploradores poderão dizer: “Não me toqueis; o que estou fazendo é sagrado”.
Krishnamurti: A própria simplicidade desta asserção, “O que é é o que há de mais sagrado” leva a muita incompreensão, porque não percebemos a verdade que ela encerra. Quando se vê que “o que é” é sagrado, não se mata, não se faz guerra, não se espera nada, não se explora. Quem praticou tais coisas não tem direito a imunidade, porquanto violou uma verdade. O branco que diz ao negro amotinado: “O que é é sagrado; não o perturbes, não te exaltes” – não viu aquela verdade, porque, se a tivesse visto, o negro seria sagrado e não haveria necessidade de exaltação. Assim, se cada um de nós perceber essa verdade, haverá transformação. Esse ver da verdade é transformação.
Livro: A LUZ QUE NÃO SE APAGA (páginas 17, 18, 19 )
J. Krishnamurti
É necessário a crença para se conhecer Deus?
EXISTE DEUS?
Interrogante: Desejo deveras saber se existe Deus. Se não, a vida é sem significação. Desconhecendo Deus, o homem o inventou mediante crenças e imagens inúmeras. A divisão e o medo gerado por essas crenças o separaram de seus semelhantes. Para fugir às penas e aos malefícios dessa divisão, criou ele mais crenças ainda, e a crescente aflição e confusão o engolfaram. Porque ignoramos, cremos. Posso conhecer Deus? Fiz esta pergunta a vários “santos”, tanto na Índia como aqui, e todos exaltaram a crença. “Crede, e O conhecereis; sem crença, jamais O conhecereis”. E vós, que pensais?
Krishnamurti: É necessário a crença para se conhecer Deus? Aprender é muito mais importante do que saber. O aprender a respeito da crença é o fim da crença. Livre da crença, tem a mente a possibilidade de olhar. É a crença ou a descrença que escraviza – pois crença e descrença são a mesma coisa, as faces opostas da mesma moeda. Podemos, pois, rejeitar de todo a crença, positiva ou negativa; o crente e o descrente são idênticos. Após essa rejeição, tem então um significado diferente a pergunta “Existe Deus?” – A palavra”Deus”, com sua soma de tradição e memória, suas implicações intelectuais e sentimentais, não é Deus. A palavra não é o real. Pode, pois, a mente libertar-se da palavra?
Interrogante: Não sei o que isso significa.
Krishnamurti: A palavra é a tradição, a esperança, o desejo de descobrir o absoluto, a luta por alcançar a realidade última, o movimento que dá vitalidade à existência. Torna-se, assim, a própria palavra a realidade última; mas, pode-se ver que a palavra não é a coisa real. A mente é a palavra, e a palavra é pensamento.
Livro: A LUZ QUE NÃO SE APAGA (páginas 16 e 17)
J. Krishnamurti
Devemos desconfiar e duvidar da "voz de Deus" dentro de nós
Pergunta: Que é a voz serena e suave da consciência? Não é a voz de Deus que se faz ouvir dentro de cada um de nós?
Krishnamurti: Eu diria que convém desconfiar da “voz serena e suave da consciência”, assim como devemos desconfiar e duvidar da “voz de Deus”dentro de nós. Essa voz se faz ouvir a todos os santos, todos os generais, todos os traficantes de guerras, tanto quanto a vós e a mim. Essa voz deve ser totalmente rejeitada, porquanto nos extravia desastrosamente. “ A voz de Deus”, na maioria das pessoas, é o próprio desejo delas, sua própria identificação com um dado país, dada crença ou idéia. É fácil “produzir” a “voz de Deus” em si mesmo – terrivelmente fácil. E se por acaso sois um organizador, homem dotado de certa capacidade oratória, vos tornareis um líder e conduzireis vossos semelhantes à destruição, a piores aflições.
Livro: O HOMEM E SEUS DESEJOS EM CONFLITO ( página 96 )
J. Krishnamurti
Sobre a palavra
Aquele nome que todos pronunciam correntemente e que aqui não citarei, pois já foi citado, é na verdade impronunciável, por que se o prununciardes já não será ele e sim uma memória do que não é.
Portanto me resguardo o direito de ser cauteloso em usar do nome daquilo que não tem nome.
Qual o primeiro mandamento dos dez mandamentos cristãos?
Não vou citá-lo em respeito à obviedade. Mas tenho-no como primeiro princípio, sempre.
Então por que teimam em citá-lo, homens.
Aquilo que não pode ser alcançado nunca o será.
Melhor então respeitar ao extremo aquilo a que esse respeito faz jus.
Não,
em vão
não.
Você não pode buscar a realidade, Deus, isolando-se
Bombaim, 8 de fevereiro de 1948 Você não pode buscar a realidade, Deus, ou o que seja, isolando-se. Interlocutor: Podemos amar a verdade sem amar o homem? Podemos amar o homem sem amar a verdade? O que vem primeiro? Krishnamurti: Senhor, sem dúvida o amor vem primeiro. Porque, para amar a verdade, você precisa conhecer a verdade, e conhecer a verdade é negá-la. O conhecido não é a verdade porque o conhecido já está inserido no tempo; deixa, portanto, de ser verdade. A verdade está em constate movimento e, por isso, não pode ser avaliada em termos de tempo ou de palavras; você não pode empunhá-la. De forma que amar a verdade é conhecê-la – você não pode amar algo que desconhece. A verdade, porém, não é encontrada nos livros, na idolatria, nos templos. É encontrada na ação, no ato de viver, no ato de pensar; sendo assim, o amor vem primeiro – o que é óbvio – a própria busca do não-conhecido é em si mesma amor e você não pode buscar o não-conhecido sem estar em relação com os outros.VOCÊ NÃO PODE BUSCAR A REALIDADE, DEUS, OU O QUE SEJA, ISOLANDO-SE. Você só pode encontrar o não-conhecido no relacionamento, somente quando o homem está em relação com o homem. Por conseguinte, amar o homem é buscar a realidade. Sem amar o homem, sem amar a humanidade, não pode existir a busca do real; porque quando o conheço – pelo menos, quando tento conhecê-lo em virtude de um relacionamento – nesse relacionamento estou começando a conhecer a mim mesmo. O relacionamento é um espelho no qual vou descobrindo a mim mesmo, não meu “eu” superior, mas todo o processo global de mim mesmo. O “eu” superior e o “eu” inferior ainda estão contidos no campo da mente sem entender a mente, aquele que pensa, como posso ir além do pensamento e descobrir? O relacionamento em si constitui a busca do real porque é o único contato que tenho comigo mesmo: portanto, a compreensão de mim mesmo através do relacionamento é o começo da vida, não há dúvida. Se eu não sei como amar você, você com quem estou relacionado, como posso buscar o real e, por conseguinte, amar o real? Sem você, eu não existo, existo? Eu não posso existir apartado de você, eu não posso existir no isolamento. Portanto, em nosso relacionamento, no relacionamento entre mim e você, começo a entender a mim mesmo e o entender a mim mesmo constitui o começo da sabedoria, não é mesmo? Por isso a busca do real é o começo do amor através do relacionamento. Para amar algo você precisa conhecer esse algo, precisa entendê-lo, não é assim? Para eu amar você preciso conhecê-lo, preciso observar, preciso ser receptivo a todos os seus humores, suas mudanças e não meramente me enclausurar em minhas ambições, buscas e desejos. E ao conhecer você, começo a descobrir a mim mesmo. Sem você, não posso ser e se não entendo essa relação entre mim e você, como pode existir amor? E, sem dúvida alguma, sem amor não existe busca, existe?Você não pode dizer que precisamos amar a verdade porque, para amar a verdade, você precisa conhecê-la. Você conhece a verdade? Você sabe o que é a realidade? A partir do momento que você conhece alguma coisa, essa coisa já passou, não é mesmo? Já se situa no campo do tempo e portanto cessa ser a verdade. Nossa questão é a seguinte: Como pode um coração empedernido, um coração vazio, conhecer a verdade? Não pode. A verdade não é algo distante. Está muito próxima, mas não sabemos como procurá-la. Para procurá-la, precisamos entender o relacionamento, não somente com o ser humano, mas com a natureza, com as idéias. Preciso entender minha relação com a terra e minha relação com o mundo das idéias, assim como minha relação com você; e para que haja entendimento é preciso, claro, que haja abertura. Se quero entender você, preciso estar aberto a você, preciso estar receptivo, não posso esconder nada, não pode existir um processo de isolamento. No entendimento existe verdade e para entender é preciso haver amor, porque sem amor não pode haver entendimento. Portanto não é nem o homem nem a verdade que vem primeiro, mas o amor; e o amor somente se concretiza num relacionamento compreensivo, o que significa estar aberto ao relacionamento e, portanto, aberto a realidade. Não podemos convidar a verdade a vir – ela deve vir até você. Buscar a verdade é negar a verdade. A verdade vem a você quando você esta aberto, quando está completamente livre de barreiras, quando o pensador deixar de pensar, de criar, de fabricar, quando a mente se encontra muito quieta – não coagida, não drogada, não hipnotizada por palavras, por repetições. A verdade tem de vir. Quando o pensador sai no encalço da verdade, está meramente perseguindo seu próprio ganho. Portanto, a verdade o evita. O pensador só pode ser observado através do relacionamento; e para entender é preciso haver amor. Sem amor não há busca.
Livro: Sobre Deus (páginas 60, 61,62 ) J. Krishnamurti
Tradução Cecília Casas Editora Cultrix
Então aquilo que é Deus, Verdade, concretiza-se e cria um ....
Interrogante: As grandes culturas sempre se basearam num padrão, mas o senhor fala de uma nova cultura livre de padrões. É possível existir uma cultura absolutamente isenta de padrões? Krishnamurti.: A mente não precisa estar livre de padrões para encontrar a realidade? E ao estar livre para encontrar o real não criará ela seu próprio padrão, o qual a sociedade atual poderá não reconhecer? Pode a mente que se encontra enleada em um padrão, que pensa de acordo com um padrão, que está condicionada pela sociedade, encontrar o incomensurável que não tem padrão? Esta língua que estamos falando o inglês, constitui um padrão desenvolvido através de séculos. Se existe uma criatividade que esteja livre de padrões, essa criatividade, essa liberdade pode empregar a técnica da linguagem; mas através da técnica, do padrão da linguagem, a realidade não poderá jamais ser encontrada. Por meio da prática, de um tipo determinado de meditação, de sabedoria, de qualquer forma de experiência, todas as quais se encontram dentro de um padrão, a mente nunca entenderá o que é a verdade. Para entender a verdade, a mente precisa livrar-se dos padrões. Uma mente assim é uma mente quieta e então esta mente que é criativa pode criar sua própria atividade. Mas veja, a maioria de nós não está nunca livre de padrões. Nunca existe um momento que a mente esteja totalmente livre do medo, do conformismo, do seu hábito de vir a ser algo, ou neste mundo ou no mundo psicológico, espiritual. Quando o processo de vir a ser, em qualquer sentido, cessa completamente, ENTÃO AQUILO QUE É DEUS, VERDADE, CONCRETIZA-SE E CRIA UM NOVO PADRÃO, UMA NOVA CULTURA TODA SUA. Livro: Sobre Deus (Página 72 ) J. Krishnamurti
Para descobrir Deus, todas as crenças devem ser abolidas
Bombaim, 27 de fevereiro de 1955
I.: Fale-nos de Deus.
K. : Em vez de eu lhes dizer o que é Deus, vamos ver se vocês podem conceber esse estado maravilhoso, não no amanhã ou num futuro distante, mas agora, neste momento que estamos aqui tranquilamente reunidos. Claro que isso é muito mais importante. MAS, PARA DESCOBRIR DEUS, TODAS AS CRENÇAS DEVEM SER ABOLIDAS. A mente que poderia descobrir o que é a verdade, não pode acreditar na verdade, não pode formular teorias ou hipóteses a respeito de Deus. Por favor, prestem atenção. Vocês formulam hipóteses, vocês têm crenças, vocês têm dogmas, estão cheios de conjecturas. Pelo fato de terem lido este ou aquele livro a respeito do que é a verdade ou do que é Deus, suas mentes estão espantosamente inquietas. Uma mente cheia de conhecimentos é inquieta; é intranqüila, está apenas sobrecarregada e carga pura e simples não é sinal de uma mente tranqüila. Quando a mente está cheia de crenças, acreditando ou não se Deus existe, ela está sobrecarregada e uma mente sobrecarregada não pode jamais descobrir o que é verdade. Para descobrir a verdade, a mente precisa estar livre de rituais, de crenças, de dogmas, de conhecimentos e de experiência. Somente então ela poderá compreender o que é verdade. Pelo fato de tal mente estar quieta, ela não mais realiza o movimento de entrar ou o movimento de sair, que é o movimento do desejo. Ela não possui desejos reprimidos, o que é energia. Pelo contrário, para que a mente esteja quieta é preciso haver uma grande quantidade de energia; mas não pode haver pleno desenvolvimento ou abundância de energia se existir qualquer forma de movimento para fora e, por conseguinte, de movimento para dentro. Quando tudo isso tiver serenado, a mente se aquietará.
Eu não estou tentando hipnotizá-los para que vocês fiquem quietos, para que vocês se calem. Vocês mesmos precisam reconhecer a importância de abandonar, de afastar sem esforço, se resistência, todo acumulo de séculos, de superstições, de conhecimentos, de crenças; precisam reconhecer que qualquer forma de carga torna a mente inquieta, dissipa energia. Para a mente estar quieta é preciso haver energia em abundância, e essa energia precisa estar tranqüila. E se vocês chegarem realmente a esse estado no qual não existe esforço, então constatarão que a energia, estando imóvel possui seu próprio movimento, o qual não resulta das pressões ou compulsões sociais. Pelo fato de a mente possuir uma energia abundante, imóvel e silenciosa, a própria mente se transforma naquilo que é sublime. Não existe experimentador do sublime: não existe alguém que diga “eu experimentei a realidade”. Enquanto houver um experimentador, a realidade não pode existir, porque o experimentador equivale ao movimento de angariar experiência e de acabar com a experiência. De forma que é preciso que o experimentador deixe totalmente existir.
Atentem simplesmente a isto. Não façam nenhum esforço, apenas compreendam que o experimentador tem que chegar ao fim, é preciso que ocorra a cessação total de todo esse movimento e isso demanda, não a supressão da energia, mas uma energia espantosa. Quando a mente estiver completamente quieta, calada, isto é, quando a energia não estiver sendo nem dissipada nem distorcida por obra da disciplina, essa energia se transformará em amor e o real não estará apartado a própria energia.
Livro: Sobre Deus (página 74, 75 )
J. Krishnamurti – Tradução Cecília Casas
Editora Cultrix.
Como posso tentar descobrir Deus?
Nova Delhi, 31 de outubro de 1956
Interlocutor: Como posso tentar descobrir Deus, que é o que dará um sentido à minha vida cansativa? Sem essa experiência, qual o objetivo da vida?
Krishnamurti: Posso entender a vida diretamente ou preciso tentar descobrir alguma coisa que dê um sentido à vida? Vocês entendem, senhores? Para apreciar a beleza, preciso saber qual o seu propósito? O amor precisa ter uma razão? E se existe uma razão para amar, é amor? O interlocutor afirma que precisa passar por uma certa experiência que lhe dê um sentido para a vida – estando subentendido que para ele a vida em si não é importante. De forma que ele, buscando Deus, está, na verdade, fugindo da vida, fugindo das agruras, da beleza, da feiúra, do ódio, das pequenezas, da inveja, do desejo de poder, da extraordinária complexidade da vida. Tudo isso é vida, e como ele não a entende, ele diz: “Encontrarei algo muito maior que venha a imprimir um significado à vida.”
Por favor, escutem o que estou dizendo, mas não apenas em nível verbal, intelectual, porque senão terá muito pouco significado. Vocês podem tecer uma porção de palavras a respeito de tudo isto, ler todos os livros sagrados que existirem sobre a face da terra, mas será inútil, porque não estão relacionados com suas vidas, com suas vidas diárias.
O que é a nossa vida? O que é esta coisa que chamamos de existência? Muito simplesmente, sem filosofias, ela é uma série de experiências de prazer e de dor, e queremos evitar as dores e nos agarrar aos prazeres. O prazer do poder, de ser um grande homem no grande mundo, o prazer de dominar nossa pobre esposa ou esposo, a dor, a frustração, o medo e a ansiedade que vêm com a ambição, o horror de adular um homem importante e tudo mais – tudo o que compõe a nossa vida diária. Isto é, o que chamamos viver consiste numa série de lembranças dentro do âmbito do conhecido: e o conhecido se transforma num problema quando a mente não está livre do conhecido. Atuando dentro do âmbito do conhecido – sendo este conhecimento, experiência e a lembrança dessa experiência – a mente diz “eu preciso conhecer Deus”. Então, de acordo com suas tradições, com seus condicionamentos, com suas idéias, ela projeta uma entidade que chama de “Deus”; mas essa entidade é resultado do conhecido e está ainda dentro do âmbito do tempo.
Desse modo os senhores só poderão descobrir com clareza, com veracidade, com real experiência, se existe ou não Deus, quando suas mentes estiverem totalmente livres do conhecido. Indubitavelmente esse algo que podemos chamar de Deus ou de verdade, precisa ser completamente novo, irreconhecível, e a mente que o aborda através do conhecimento, da experiência, de idéias e de virtudes acumuladas, está tentando capturar o desconhecido, embora viva no âmbito do conhecido, o que é impossível. Tudo que a mente pode fazer é inquirir se lhe é possível livrar-se do conhecido. A mente em si é um produto do conhecido. Ela é montada pelo tempo como o “eu” e o “não-eu”, que é o conflito de dualidade. Se o conhecido cessar totalmente, tanto consciente como inconscientemente – digo, não em teoria, que existe a possibilidade dele cessar – então vocês jamais perguntarão se existe Deus porque essa mente é incomensurável em si mesma. Como o amor, é a sua própria eternidade.
Sobre Deus (On God ) (página 122 e 123 )
J. Krishnamurti – Tradução Cecília Casas
Editora Cultrix
O Senhor nunca menciona Deus.
Interrogante: O senhor nunca menciona Deus. Ele não tem lugar nos seus ensinamentos?
Krishnamurti: Você fala muito de Deus, não fala? Seus livros estão cheios Dele? Você constrói igrejas, templos, faz sacrifícios, pratica rituais, celebra cerimônias e tem uma porção de idéias a respeito de Deus, não tem? Você repete a palavra, mas seus atos não são divinos, são? Embora você venere aquilo que chama de Deus, seu comportamento, suas idéias, sua existência não são divinos, são? Embora você repita a palavra Deus, você explora os outros, não explora? Você tem seus deuses – hindus, maometanos, cristãos e todos os demais. Você constrói templos e quanto mais rico fica, mais templos constrói. (Risos.)
De forma que você está familiarizado com Deus, pelos menos com a palavra Deus – mas a palavra não é Deus, a palavra não é a coisa. Vamos esclarecer bem este ponto: a palavra não é Deus. Você pode usar a palavra Deus ou uma outra palavra qualquer, mas Deus não é a palavra que você usa. O fato de você usá-la não significa que você conheça Deus; você apenas conhece a palavra. Eu não uso essa palavra pela simples razão de que você a conhece. O que você conhece não é real. E, além disso, para encontrar a realidade, todas as murmurações verbais da mente devem cessar, não devem? Você constrói imagens de Deus, mas essas imagens não são Deus, claro. Como você pode conhecer Deus? Obviamente não através de uma imagem, não através de um templo.Para hospedar Deus, o não-conhecido, a mente precisa ser o não-conhecido. Se você parte no encalço de Deus, então você já conhece Deus, você conhece o objetivo. Você sabe o que está perseguindo, não é mesmo? Se você busca a Deus, você deve saber o que é Deus, do contrário não o estaria buscando, não é mesmo? Você o busca ou de acordo com seus livros, ou de acordo com seus sentimentos e seus sentimentos não passam de resposta da memória. Portanto aquilo que você busca já está criado ou por intermédio da memória ou da tradição e aquilo que é criado não é eterno – é produto da mente. Se não existissem livros, se não existissem gurus, se não existissem fórmulas para serem repetidas, você só conheceria a tristeza e a alegria, não é? – tristeza constante e raros momentos de alegria. E então você gostaria de saber por que sofre. Você não poderia se amparar em Deus – mas, provavelmente, encontraria outras formas de proteção, e logo inventaria deuses como uma saída. Mas se você quer realmente entender todo o processo do sofrimento, como um novo homem, como um outro homem, indagando e não fugindo, então você se libertará da tristeza, e então descobrirá o que é a realidade, que é Deus. Porém um homem infeliz não pode encontrar Deus ou a realidade; a realidade só pode ser encontrada quando cessa o sofrimento, quando reina a alegria, não como um contraste, não como o oposto, mas como um estado de existir no qual não existem opostos.
De forma que o não-conhecido, aquilo que não é criado pela mente, não pode ser formulado pela mente. O não-conhecido não pode ser pensado. A partir do momento que você pensa a respeito do não-conhecido, o não-conhecido já se transformou em conhecido. Você só pode pensar a respeito do conhecido. O pensamento se move do conhecido para o conhecido; e o conhecido não é realidade, é? Portanto, quando você pensa e medita, quando se concentra e pensa em Deus, você somente pensa a respeito do que é conhecido e o que é conhecido faz parte do tempo; está emaranhado na rede do tempo e, por conseguinte, não é real. A realidade só se concretiza quando a mente se liberta das malhas do tempo. Quando a mente deixa de criar, nasce a criação. Isto é, a mente precisa estar absolutamente quieta, mas não devido a uma quietude induzida, hipnotizada, que represente apenas um resultado. Tentar chegar à quietude para experienciar a realidade é uma outra forma de fuga. Só existe silêncio quando cessam todos os problemas. Como é calmo o lago quando cessa a brisa, assim a mente se torna naturalmente quieta quando o agitador, o pensador pára. Para acabar com o pensador, todos os pensamentos que ele arquiteta devem acabar. De nada adianta construir uma barreira, uma resistência contra o pensamento, porque os pensamentos é que devem acabar.
Quando a mente está quieta, a realidade, o indescritível, se concretiza. Você não pode convidá-la. Para convidá-la, você precisa conhecê-la e o conhecido não é o real. De forma que a mente precisa ser simples, livre de crenças, de ideações. E quando há quietude, quando não existe nem desejo, nem ansiedade, quando a mente está absolutamente tranqüila, dentro de uma tranqüilidade que não é induzida, então a realidade chega. E essa verdade, essa realidade, é o único agente transformador; é o único fator que acarreta uma revolução radical, fundamental na existência, em nossa vida diária. E encontrar essa realidade não é procurá-la, mas entender os fatores que agitam a mente, que perturbam a própria mente. Então a mente se torna simples, quieta, tranqüila. Nessa tranqüilidade o não-conhecido, o incognoscível se concretiza. E quando isso acontece, é uma bênção.
Livro: Sobre Deus (páginas 62,63, 64)
J. Krishnamurti
Tradução Cecília Casas
Editora Cultrix
A Mente inocente é como essa energia. É Deus.
Bombaim, 8 de março de 1961* Quando a mente compreende totalmente o fato de que através do tempo, queira ou não, ele jamais encontrará o outro, então o outro passa a existir. É algo muito mais extenso, ilimitado, incomensurável; é energia que não tem princípio nem fim. Você não pode chegar a isso, nenhuma mente pode chegar a isso, tem apenas que “ser”. Só temos de nos preocupar com a “faxina” – se é possível deixar tudo bem limpo – de uma só vez. Isso é inocência. E só uma mente inocente pode ver isso, essa coisa extraordinária que é como um rio. Você sabe o que é um rio? Já observou, de uma canoa, as águas irem e virem, já atravessou um rio a nado? Como é bonito! Ele pode ter um começo e pode ter um fim. O começo não é o rio e o fim também não é. O rio é o que está no meio; ele corta aldeias, tudo deságua nele; ele cruza cidades, todo poluído por produtos químicos perniciosos; esgoto e detritos são atirados nele e, algumas milhas adiante, ele já se purificou – torna a ser o rio no qual tudo vive – o peixe sob a superfície e à superfície o homem que bebe dessa água. Esse é o rio, mas por detrás disso, existe uma tremenda pressão de água e esse processo auto-purificador é que é o rio. A MENTE INOCENTE É COMO ESSA ENERGIA. NÃO TEM PRINCÍPIO NEM FIM. É DEUS. Não o Deus dos templos. Não tendo princípio nem fim, não existe, portanto, tempo e eternidade. E a mente não pode chegar a isso. A mente que está envolvida no tempo precisa anular-se e participar de tudo isso sem saber, porque você não pode saber, você não pode experimentar o que é incolor, informe e não ocupa espaço. Isso é para o orador, não para você, pelo simples fato de que você não abandonou o outro. Não diga que esse estado existe – é um falso estado quando essa declaração é feita por uma pessoa que está sendo influenciada. Tudo o que o que você pode fazer é cair fora e então saberá. Na verdade, nem saberá – você será parte desses estado extraordinário. * Extraído do registro textual da oitava palestra proferida em público em Bombaim, 8 de março de 1961 . Transcrição do Livro: Sobre Deus (páginas 85 e 86 )– Editora Cultrix
Após tantos nomes, quem é você?
Caro Milton, após citar tantos veneráveis nomes com toda a sabedoria que tão bem você soube expressar, com todo respeito e compreensão, tomo a liberdade de fazer-lhe as seguintes perguntas: quem é você?
A verdade é algo vivo, dinâmico, infinitamente incompleta, que se renova a cada instante perfeito e mágico da vida.
É algo individual (indivizível), portanto não pode ser transmitida, a não ser que você seja a verdade. O máximo que se pode expressar seria como aquela analogia: o dedo apontando a lua, mas o dedo não é a lua.
Fale a sua verdade que me silenciarei para colhê-la em meu coração.
Quem somos nós?
Prezado Hagfer:
Quem é o ser humano? Quem somos nós? A idéia, a representação mental, não é a própria coisa, não é a coisa em si mesma. Perceber isso, realmente, tem implicações tremendas e desencadeia uma série de insights. A idéia, a representação, a construção mental que fazemos de nós mesmos não é o que nós somos. É apenas idéia. A idéia é que é incompleta. A Verdade não pode ser incompleta, pois então ela estaria em busca de alguma coisa com que se completar. Quem somos nós? Vemos que o intelecto não consegue apreender o que somos nós. Do ponto de vista do uso do intelecto, nós somos o desconhecido. Ao olharmos para nós mesmos, do ponto de vista do intelecto, nós estamos diante de algo que o intelecto não pode desvendar, não pode apreender. Algo, portanto, não só desconhecido como incognoscível. O que o nosso intelecto não pode apreender, nesse exame em relação a nós mesmos, contudo, é justamente o que somos. Como disse Krishnamurti: “Só quando não há experimentador e não há experiência, só então pode a Realidade aparecer. É só quando a mente se acha no ‘estado do desconhecido’ que pode surgir o desconhecido”. A questão toda, neste caso, está na quietude, na desistência de se usar um instrumento que é inútil para o que se quer. O que nós somos é o incognoscível. O que nós não somos é a idéia. Fica claro, assim, que não se trata de conhecer alguma coisa ou de se transformar em alguma coisa, ou de alcançar alguma coisa, movimentos que implicam tempo, via-a-ser. Trata-se de ser o que se é, e não de se identificar com o que não se é – aquele que está procurando, uma idéia em busca de alguma coisa, no movimento do vir-a-ser. Essa percepção vai ficando cada vez mais clara, o que está sob exame cada vez mais evidente. O intelecto não pode apreender o que eu sou. Eu sou o que o intelecto não pode apreender.
Krishnamurti não nega a existência de Deus
A limitação das faculdades mentais do homem não lhe permite compreender Deus. Por mais que queiramos compreendê-lo, esta compreensão será sempre incompleta. Há uma organização extraordinária em todo o Universo. A harmonia que regula as forças do Universo revela combinações e fins determinados, e por isso mesmo um poder inteligente. Atribuir a formação das coisas ao acaso seria uma falta de senso, porque o acaso é cego e não pode produzir efeitos inteligentes. Um acaso inteligente não seria acaso. Julga-se o poder de uma inteligência pelas suas obras. Como nenhum ser humano pode criar o que a Natureza produz, é evidente que quem a criou há de ser uma inteligência superior à Humanidade. Sejam quais forem os prodígios criados pela inteligência do homem, esta inteligência tem uma causa. Podemos denominar esta inteligência superior pelo nome que quisermos.
Há quem diga que Deus (ou o nome que quisermos) é infinito nas suas perfeições, mas o infinito é uma abstração; asseverar que Deus é infinito é tomar o atributo de uma coisa por ela mesma, definir uma coisa, que não é conhecida, por outra que também não o é.
Krishnamurti não nega a existência de Deus, ele simplesmente assevera que quando a mente se acha no "estado do desconhecido" é que pode surgir o desconhecido. Quando apagamos toda experiência psicológica, todo conhecimento, permanecendo a mente tranqüila, é que nasce Aquilo que não tem nome. Quando Jesus afirmou que Deus está dentro de nós, ele fazia o mesmo convite de Krishnamurti em relação ao auto conhecimento. É de extrema importância nos conhecermos em cada momento de nossa existência. Sem auto conhecimento não tem nenhum valor conhecermos os ensinos de Krishnamurti, Jesus, Buda, Teosofia, Espiritismo ou quaisquer outras filosofias ou religiões. Sem auto conhecimento seguiremos cegamente, seremos meros seguidores, adeptos sem nenhuma vitalidade em nossas vidas.
Boas reflexões
José
Evitar manipulação
Ensinamento de Cristo
Vejo o ensinamento de Cristo da seguinte maneira: em primeiro lugar, procuro ver a mensagem em si, desvinculada do Cristianismo, até onde isso é possível. Do ensinamento que chegou aos nossos dias, inclusive os contidos nos evangelhos apócrifos, de que conheço pouca coisa, destaco três afirmações, que, para mim, são fundamentais.
1 – Buscai o em primeiro lugar o reino de Deus e sua glória, e todas as outras coisas vos serão acrescentadas;
2 – O reino de Deus está dentro de vós (Lucas 17:20-21);
3 – Vós sois Deuses (João 10.34).
A primeira afirmação é a de que se deve buscar o reino de Deus em primeiro lugar. Essa é a principal coisa a ser feita na vida. Não significa isso negar o buscar os meios de sustento, a saúde, constituir ou não uma família, gerar ou não filhos. Na nossa sociedade atual, lutar pelo ganho do sustento, pela profissão e, se possível, por sucesso, posição, prestígio, tornou-se a busca principal para a maioria.
A segunda afirmação é a de que o reino de Deus está dentro de cada um. Essa frase já foi transformada para “o reino de Deus está entre nós”, etc. O reino de Deus está dentro de vós, entre nós e em toda parte. O reino de Deus é a totalidade da vida, manifesta e imanifesta. Mas deve-se buscar o reino no “lugar” mais próximo possível – dentro de vós. Se busco a fonte de mim mesmo, tenho de encontrar a minha origem em Deus. Não há outro criador. Eu surjo de Deus.
A terceira afirmação é a de que “Vós sois Deuses”. O Cristo disse isso citando o Salmo 82.6. Se fosse dizer a mesma coisa a apenas uma pessoa, o Cristo teria de dizer: “Você é Deus”.
O Cristo não disse: “Busque primeiro uma igreja, ou uma comunidade religiosa, ou um livro sagrado, ou um mosteiro, ou uma oração, ou fazer boas obras”. Ele disse: “Buscai primeiro o reino de Deus”.
A palavra “Deus” parece que vem do sânscrito “Dyaus”, que significa o espaço exterior, os céus. Dyaus, Zeus, Deus, Céus.
Quando Moisés, de acordo com “Êxodus”, perguntou a Deus quem ele era, a resposta foi a frase “Ehyeh Asher Ehyeh”, que é traduzida como “Eu Sou esse Eu Sou”, “Eu Sou quem Eu Sou”, ou “Eu Sou o que Eu Sou”. Existem alguns que traduzem como “Eu serei o que serei”. "Eu Sou esse Eu Sou" parece-me a que melhor se aplica, porque “eu serei” implica tempo, e Deus é atemporal. Deus é o presente atemporal. O suposto tempo pertence à criação. Mesmo com a criação, Deus continua sendo atemporal.
O tetragrama judeu para o nome de Deus é “YHWH”. Quando Moisés perguntou a Deus qual a resposta que deveria dar quando lhe perguntassem quem o enviou a seu povo, Deus respondeu: “Diga que ‘Eu Sou’ lhe enviou”. Portanto, Deus está chamando a Si próprio de “Eu Sou”. Assim, o tetragrama YHWH tem de significar “Eu Sou”, o nome de Deus. A pronúncia parece se aproximar de Yaohu, que originou Jah e outros nomes de Deus. Acrescentando-se vogais ao tetragrama, formou-se a palavra “Yahweh”, que modificou-se para “Javé” e “Jeová”.
Ramana Maharshi, um dos maiores Mestres espirituais de todos os tempos, para quem a descoberta da Verdade é a principal ação a ser empreendida pelos seres humanos, a que está em primeiro lugar e acima de todas as outras, recomenda que a investigação seja feita voltando-se a atenção, em primeiro lugar e sempre, para o sentimento “Eu Sou”, presente em cada um.
Uma pessoa diz, p. ex., “eu sou brasileiro”. Mas, o que dizer de um indivíduo que nasceu neste mesmo território antes de ter sido nomeado pelos invasores, colonizadores, descobridores, de “Brasil”, por causa de uma árvore da cor da brasa?
Um indivíduo se forma em economia, p. ex., e diz “eu sou economista”; digamos que depois ele se forma em história – aí ele diz “eu sou economista e historiador”; posteriormente, ele se forma em psicologia – agora ele diz “eu sou economista, historiador e psicólogo”.
Um indivíduo é cristão. Ele diz “eu sou cristão”. Depois se converte ao Islamismo; agora ele diz “eu sou muçulmano”. Ou o contrário.
Portanto, ser brasileiro, economista, historiador, psicólogo, cristão, muçulmano, etc., são coisas circunstanciais, acréscimos. Acréscimos a quê? A “Eu Sou”. “Eu sou” é o que é permanente, estável. “Eu sou isso, eu sou aquilo” é o ego. O puro “Eu Sou”, sem misturas, sem acréscimos, é Deus. Deus está em cada um. Cada um, verdadeiramente, é Deus. “Vós sois Deuses”. “Você é Deus”.
Ramana Maharshi recomenda que se preste atenção a esse sentimento de “Eu”, de “Eu Sou”, de Existência-Consciência. “Eu” é consciência; “Sou” é existência. A existência é consciência. Essa Existência-Consciência é ilimitada, atemporal. Só quando se acrescenta alguma coisa – “Eu sou isso”, “Eu sou aquilo” – é que se limita a Existência-Consciência.
As idéias, as imagens, os conceitos, necessários para se viver em sociedade, no mundo, se tornam um empecilho quando se quer descobrir a Verdade. Nesse campo, toda a atividade de ideação, toda “episteme” (literalmente “sobreposição”), tem de se aquietar. “Aquieta-te e sabe que Eu Sou Deus”. Já que Deus disse a Moisés que ele, Deus, é “Eu Sou” (“Eu Sou esse Eu Sou”), pode-se dizer também: Aquieta-te e sabe que “Eu Sou” é Deus.
Os conceitos, as imagens, as idéias, encobrem a Verdade, encobrem o “Eu Sou”, encobrem Deus. Mas só encobrem aparentemente, assim como a mão colocada na frente do rosto encobre, aparentemente, o sol. Na verdade, a mão interposta ao sol e aos olhos não encobre realmente o sol. E para que a mão e o que pode ser percebido em torno - menos o sol - possam ser vistos, é preciso que haja a luz do sol. Não se pode cobrir o sol.
Ramana Maharshi, pois, recomenda que se preste atenção ao “Eu Sou”, que se dê atenção ao verdadeiro Si Mesmo. Para facilitar a auto-atenção, ele recomenda que sejam feitas as perguntas: “Quem sou eu?”; “De onde surge o pensamento ‘eu’?”; “Qual a fonte do pensamento ‘eu’?”; “O que é isso que aparece como ‘eu’?” Essas perguntas ajudam o indivíduo a voltar a atenção para o “Eu Sou” sem acréscimos, sem misturas, sem conceitos, “Eu Sou” é Deus. Eu não sou as idéias que tenho a respeito de mim mesmo, pois a idéia não é a própria coisa. Quem sou eu?
Para os que não conseguem fazer essa investigação direta, Ramana Maharshi diz que podem fazer a investigação sobre os conteúdos da mente(1), um pouco de exercícios respiratórios, um pouco de repetição de mantras, de cânticos, de adoração, ou qualquer outro tipo de prática de natureza religiosa, até que a mente tenha força suficiente para a auto-indagação, quando então essas outras práticas podem ser abandonadas.
Paulo: “Não sou eu quem vive, mas é o Cristo que vive em mim”. O Cristo aparece em cada um depois que o ego morre. O Cristo já está ali, mas o ego funciona como a mão interposta ao sol e aos olhos. Para que os conceitos, as idéias, as imagens, as representações sejam vistas, é preciso que haja a luz do “Eu Sou”, a luz da Existência-Consciência. Morre o “homem velho” e fica o Cristo, filho de Deus.
Ramana Maharshi diz que a atenção voltada para o “Eu Sou” faz com que os conceitos definhem, o ego se dissolva, e fique existindo apenas como uma corda queimada, que, embora mantenha a aparência de corda, não serve para amarrar mais coisa alguma.
Fala-se sobre a salvação. De que é que temos de ser salvos? Evidentemente, temos de ser salvos da ilusão, da perdição, de estarmos perdidos na ilusão, da ilusão de estarmos perdidos, salvos da ignorância, salvos da vida que não é plena e que é, portanto, sofrimento, medo, angústia, banalidade, insuficiência interior, vazio, morte.
Quem é Jesus? O que significa Jesus? O nome “Jesus” é uma modificação decorrente das transformações para o grego e o latim do nome original. Qual é o nome original? Em pesquisas, verifica-se que o nome original é “Yaohushua”. De onde vem esse nome? Do tetragrama YHWH, Yaohu, acrescido do verbo “salvar”. A palavra “Jesus”, Yaohushua no original, significa, portanto, que o “Eu Sou” é que salva. Quem salva é o “Eu Sou”. “Eu Sou” é a salvação. O “Eu Sou” é o Cristo em nós. O “Eu Sou” é Deus. Nós somos esse “Eu Sou”. “Eu e o Pai somos Um”. "Tat Twam Asi" (2)
Para haver salvação, é preciso que haja uma morte, a morte do ego, do “homem velho”, do pensamento “eu” e suas identificações. Perguntado sobre o significado da crucificação, Ramana Maharshi respondeu “O corpo é a cruz; Jesus, o filho do homem, é o ego, ou a idéia ‘eu sou o corpo’. Quando o filho do homem é crucificado no corpo, o ego perece, e o que sobrevive é o Ser Absoluto. É a ressurreição do glorioso Si Mesmo, do Cristo, Filho de Deus”.
É assim que vejo o ensinamento de Cristo. Para mim, não interessa se existiu, ou não, a figura histórica de Jesus, porque Yaohushua (O que salva é o “Eu Sou”).
Milton
(1) Krishnamurti, em um diálogo com Pupul Jayakar, em um vídeo intitulado Brockwood Park School, 1982, pergunta a Pupul se é necessário passar por toda essa diligente observação dos conteúdos mentais, dos relacionamentos, das reações, e mostra a ela, e aos que estão escutando, que essa diligente observação consome tempo e aprisiona no tempo; que é um movimento superficial; e que, "se você vê a verdade dessa superficialidade, você está fora dela. É como descartar alguma coisa totalmente sem sentido". Ela diz a ele que isso é uma grande mudança em relação ao que ele vem fazendo nos últimos 30 anos, e ele diz não ter certeza de que há essa mudança. É recomendável assistir a todo o vídeo ou ler o texto do diálogo. Ambos são encontrados na Internet.
Ramana Maharshi diz: "Quando a mente é deixada sem coisa alguma a que se agarrar, ela se torna quieta"
(2) Isto Tu És
Outras informações sobre Sri Ramana Maharshi: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ramana_Maharshi