Medo, Ambição, Cólera, Violência, Agressividade

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Como sabeis, há muito do animal em nós. Os biólogos nô-lo dizem, mas não precisamos ouvir os biólogos, se observarmos a nós mesmos e os animais. Em nós há muita animalidade. Somos autoritários, brutais, violentos, sem consideração (…), agressivos - e assim são os animais. (…) (A Suprema Realização, pág. 179-180)

Estivemos considerando o problema do medo. Vimos que a maioria de nós tem medo, e que o medo impede a iniciativa, porque faz com que nos apeguemos às pessoas e às coisas, da mesma forma que uma planta trepadeira se apega a uma árvore. Apegamo-nos aos pais, aos maridos, aos filhos, às filhas; às esposas e às nossas posses. (…) (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 30-31)

(…) Esta é a forma exterior do medo. Estando interiormente amedrontados, receamos ficar sós. Podemos ter muitas roupas, jóias ou outras propriedades; mas, interiormente, psicologicamente, estamos muito pobres. Quanto mais pobres interiormente, tanto mais procuramos enriquecer exteriormente, apegando-nos a pessoas, a uma posição, às propriedades. (Idem, pág. 31)

Que entendemos por medo? Medo de que? Medo de não ser? Medo do que sois? Medo de perder, de ter prejuízo? O medo, quer consciente, quer inconsciente, não é abstrato: ele só existe em relação com alguma coisa. (…) Temos medo de estar inseguros (…) economicamente (…) interiormente. Isto é, tememos a solidão, (…) o ser nada (…) (Por que não te Satisfaz a Vida?, pág. 32)

Desejo falar sobre o medo, porque o medo perverte todos os nossos sentimentos, pensamentos e relações. É o temor que impele a maioria de nós a tornar-nos (…) “espiritual”; é ele que nos impulsiona para as soluções intelectuais que tantos oferecem; é ainda o temor que nos leva a praticar ações estranhas e peculiares. (…) O medo existe por si só? Ou só há medo em conseqüência do pensamento (…)? (O Passo Decisivo, pág. 234)

Assim, o que agora me cabe inquirir é como ficar livre do temor inspirado pelo conhecido, que é o temor de perder minha família, minha reputação, meu caráter, meu depósito no banco, meus apetites, etc. Direis que o temor surge da consciência; mas vossa consciência é formada pelo vosso condicionamento, pode ser insensata ou sensata; a consciência, pois, também é resultado do conhecido. (…) (Que Estamos Buscando?, pág. 94)

Existe temor enquanto há acumulação do conhecido, que gera o medo de perder. Por conseguinte, o temor do desconhecido é, na realidade, o medo de perder o conhecido, por nós acumulado. A acumulação, invariavelmente, importa em temor, o qual por sua vez importa em sofrimento; (…) (Idem, pág. 95)

Nasce o temor quando desejo permanecer em determinado padrão. Viver sem temor significa viver sem padrão algum. Quando desejo determinada maneira de viver, esse desejo, em si, é uma fonte de temor. (…) Não posso quebrar o molde? Só posso quebrá-lo ao perceber essa verdade; que o molde está causando temor, e que o temor está reforçando o molde. (…) (Idem, pág. 96)

O medo é tempo psicológico. Não há medo, quando não temos o tempo psicológico. (…) Nasce o medo quando o pensamento se projeta no futuro, ou se compara com o que ele próprio foi no passado. Psicologicamente, o tempo é pensamento, tanto consciente como inconsciente; e é o pensamento que cria o medo. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 22)

(…) O medo está sempre em relação com alguma coisa, não existe sozinho. Temos medo do que ontem sucedeu e que pode repetir-se hoje. (…) O pensar a respeito da dor de ontem “projeta” o medo de tornar a senti-la amanhã. Por conseguinte, é o pensamento que produz o medo. O pensamento gera o medo, e também cultiva o prazer. Para compreenderdes o medo, precisais compreender também o prazer, ambos estão relacionados. (Fora da Violência, pág. 60-61)

Há medo do escuro (…) do marido ou da mulher, ou do que os “outros” dizem, ou pensam ou fazem; medo da solidão ou do vazio da vida, do tédio (…); medo do futuro, da incerteza e insegurança do amanhã (…); (…) da morte, do findar da vida. Há temores em inúmeras formas - tanto neuróticos, como racionais, sãos.(…) A maioria de nós teme neuroticamente o passado, o hoje e o amanhã; de maneira que o tempo está implicado no medo. (Fora da Violência, pág. 58)

Há não só temores conscientes, (…) mas também temores profundamente jacentes, ocultos nos recessos profundos da mente. Como investigar tanto os temores conscientes como os ocultos? O medo, por certo, é um movimento de afastamento de “o que é”; é fuga, evasão, evitação da realidade, de “o que é”. Essa fuga é que produz o medo. Também, quando há qualquer espécie de comparação, cria-se medo (…) O medo, pois, se encontra no movimento de afastamento do real. (…) (Idem, pág. 58)

O medo destrói a liberdade. (…) O medo perverte todo pensamento, destrói toda relação. (…) Medo da opinião pública, (…) de não ser bem sucedido, medo da solidão, (…) de não ser amado; e há ainda o comparar-nos a nós próprios com o herói do que “deveria ser” (…) (O Mundo Somos Nós, pág. 114)

O temor existirá sob diferentes formas, grosseira ou sutilmente, enquanto existir o processo auto-ativo da ignorância, gerado pelas atividades de carência. (…) Se existir medo não pode haver inteligência, e, para despertar a inteligência, é preciso compreender plenamente o processo do “eu” na ação. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 41-42)

(…) Quando a mente não está presa no conflito dos opostos, ela é capaz de discernir sem escolha o processo do “eu” em sua íntegra. Enquanto esse processo continuar, tem de haver medo, e a tentativa de fugir dele apenas aumenta e fortifica o processo. Se vos quiserdes libertar do medo, deveis compreender plenamente a ação nascida da carência. (Idem, pág. 42)

Todos os opostos devem criar conflito por serem essencialmente ininteligentes. O homem medroso desenvolve a bravura. Esse processo de desenvolver a coragem é, realmente, uma fuga ao medo; se, porém, ele discernir a causa do medo, este cessará naturalmente. (…) (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 12)

O problema, portanto, não é de como libertar a mente do temor, ou de como tê-la tranqüila, para dissolver o temor, mas se o medo pode ser compreendido. Embora eu tenha medo de várias coisas (…) esse medo, em si, é resultado de um processo total (…) Isto é, o “eu”, o ego, em sua atividade, “projeta” o medo. A substância é o pensamento concernente ao “eu”, e sua sombra é o medo; e, evidentemente, não adianta batalhar contra a sombra, a reação. (…) (Percepção Criadora, pág. 108-109)

Quando há alguma oculta sombra de medo, ela deforma todo o pensamento, toda a vida, destrói a afeição, o amor e, portanto, temos de realmente entendê-lo. (…) (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 38)

Vamos, portanto, examinar a questão do que fazer em relação ao medo. Se não resolvermos esse medo, viveremos na escuridão, (…) na violência. Uma pessoa que não tem medo não é agressiva; um ser humano que não tenha nenhum sentimento de medo, de espécie alguma, é verdadeiramente livre e pacífico. (O Mundo Somos Nós, pág. 64)

O pensamento criou um centro, o “eu”; eu, minha pátria, minha opinião, meu Deus, minha experiência, minha casa. (…) Eis o centro de onde agis. Esse centro divide. Esse centro e essa divisão são as causas do conflito (…) Vós observais desse centro e continuais nas garras do medo, porque o centro se separou da coisa a que chama “medo”; diz ele: “quero livrar-me do medo”, “quero analisá-lo”, “quero dominá-lo” (…) etc.; com ele estais tornando mais forte o medo. (Fora da Violência, pág. 62)

Pode a mente olhar o medo sem esse centro? Podeis olhar o medo sem lhe dar nome? No momento em que dais nome a qualquer coisa, a separais de vós. Podeis, pois, observar sem aquele centro, sem dar nome à coisa chamada “medo”, no momento em que surge? Isso requer extraordinária disciplina, porque, então, a mente está olhando sem o centro a que se habituou, e o medo, tanto o oculto como o manifesto, está acabado. (Idem, pág. 62-63)

A ambição gera a mediocridade da mente e do coração; a ambição é superficial, porque está incessantemente a buscar um resultado. O homem que quer ser santo, ou político notável, ou grande administrador, está interessado em seu preenchimento pessoal. Quer identificado com uma idéia, uma nação, (…) um sistema religioso ou econômico, o impulso para se ser bem-sucedido fortalece o “eu”, o ego (…) (Reflexões sobre a Vida, pág. 180)

(…) O problema é este: percebo que sou ambicioso. (…) A ambição, inclusive a espiritual, implica um estado em que não existe amor. O desejo de ser alguém, espiritualmente, é sempre ambição. Percebendo bem isso, é possível apagar instantaneamente a ambição, abandonando essa luta perene (…)? (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 12)

(…) Cônscios da ambição, percebemos a sua positividade, sua crueldade na competição, seus prazeres e dores; percebemos igualmente os seus efeitos na sociedade e na vida de relação; sua (…) amoralidade social e comercial; suas sutis e ocultas tendências, causadoras de disputas. A ambição gera a inveja e a malevolência, o poder de dominar e de oprimir. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 50)

Assim, pois, o importante é que se esteja cônscio, que se perceba o fato de que a ambição, sob qualquer forma, gera inveja, antagonismo, e que, com seu preenchimento, vem o medo. (…) (Visão da Realidade, pág. 266)

Se o nosso objetivo é o (…) desejo de auto-engrandecimento, consciente ou inconsciente, é necessário ambição para consegui-lo. Tal ambição, sendo a expressão da ansiedade pelo sucesso pessoal, deve produzir ação anti-social e tristeza nas relações humanas. (Palestras em Ojai e Sarobia, 1940, pág. 132)

O mal de todos nós é querermos ir “muito longe”. Queremos alcançar um resultado; queremos o mais. Por conseguinte, experimentamos sempre com o intuito de “chegar”. (…) O que importa, pois, é compreender esse motivo, essa força propulsora. (…) (A Renovação da Mente, pág. 26)

Como vedes, a dificuldade está em que somos tão profundamente ambiciosos. (…) A ambição, pois, é o motivo; (…) E, em vez de compreendermos essa ambição e darmos fim a ela definitivamente, empenhamo-nos para nos tornarmos “mais e mais” (…) E enganamo-nos, assim, a nós mesmos e criamos ilusões. (…) (Idem, pág. 27)

Nessas condições, (…) não procureis ir “muito longe”; mas investigai o motivo, (…) as atividades da mente que deseja ir longe. (…) Ou é porque desejamos fugir de nós mesmos, ou porque ambicionamos influência, prestígio, posição, autoridade. (…) (Idem, pág. 27)

(…). Como disse, (…) a cólera pode resultar de causas físicas ou psicológicas. Zangamo-nos, talvez, porque estamos sendo frustrados, nossas reações defensivas estão sendo quebradas, nossa segurança, (…) cuidadosamente construída, está sendo ameaçada, etc. (…) (Palestras em Ojai e Sarobia, 1940, pág. 43)

Não estais realmente preocupado com a injustiça; se estivésseis, jamais vos zangaríeis; ficais zangado, porque há satisfação emocional no ódio e na raiva; senti-vos dominados pelo ódio e pela raiva. (…) (Idem, pág. 46)

A cólera tem essa peculiar qualidade de isolamento; como a tristeza, isola e - pelo menos temporariamente - cessa, por completo, o estado de relação. A cólera tem a força e a vitalidade passageiras dos que estão isolados. Há um estranho desespero na cólera; porque isolamento é desespero. (…) (Comentários sobre o Viver, pág. 67-68)

Quando resistis à cólera ou ao ódio, o que foi que realmente sucedeu? Construístes um muro contra o ódio, mas o ódio continua existente; o muro está apenas a escondê-lo de vós. Ou vos determinais a não vos irritar, mas essa própria determinação faz parte da cólera, (…) dá mais força à cólera. (…) Quando resistis, controlais, reprimis, (…) tudo isso vem a dar no mesmo, porque todos esses atos provêm da vontade (…) (A Outra Margem do Caminho, pág. 61)

A mesma coisa se verifica (…) Pensai na cólera de maneira completa, olhai-a de frente, sem procurar escusas. No momento em que olhais o fato de frente, começa a transformação. (…) Assim, acompanhar um pensamento do princípio ao fim significa ver o que é, sem desfiguração; e, quando percebo o fato diretamente, só então ele se transforma. Não é possível realizar a transformação enquanto estiver me evadindo, fugindo do que é (…) (A Arte da Libertação, pág. 143-144)

(…) Permanecendo conscientes, descobrimos, por exemplo, que estamos encolerizados porque alguém está contradizendo a nossa crença. Examinando-a (a cólera) mais detidamente, inquirimos a nós mesmos (…) Com esse modo amplo de observar e compreender a significação íntima da cólera, ela cedo se desvanecerá e a mente se tornará mais penetrante, (…) tranqüila e sábia (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág.144)

Um dos nossos maiores problemas é a violência, não só no exterior, mas também no interior. A violência não é apenas física, pois a estrutura da psique está baseada na violência. Esse esforço incessante, esse constante ajustamento a um padrão, a perene busca dos prazeres, por conseguinte, o desejo de evitar tudo o que causa dor (olhar, observar o que é) - tudo isso faz parte da violência. A agressividade, a competição, a constante comparação entre o que é e o que deveria ser - tudo isso (…) são formas de violência. (…) (A Importância da Transformação, pág. 9)

A violência, como podemos observá-la em nós mesmos, faz parte de nossa herança animal. Uma boa parte de cada um de nós é animal e, se não compreendemos nossa estrutura de entes humanos totais, e apenas tratamos de acabar com a violência, separadamente, daí resultará mais violência ainda. (…) (A Questão do Impossível, pág. 39)

A violência é uma forma de vontade. E pode-se viver neste mundo sem o perpétuo exercer do querer e do não querer, do gostar e do não gostar? Isso, em suma, significa viver pacificamente. Mas nós temos de agir neste mundo e, assim sendo, é possível agir sem a vontade, a qual assume tantas formas, tais como ambição, competição, impulso de realizar, preencher, rejeitar, resistir, é possível isso? (…) (A Essência da Maturidade, pág. 153)

A fonte da violência é o “eu”, o ego, que se expressa de muitos e vários modos - dividindo, lutando para tornar-se ou ser importante, etc.; que se divide em “eu” e “não eu”, em consciente e inconsciente; que se identifica, ou não, com a família, a comunidade, etc. (…) Enquanto subsistir o “eu”, em qualquer forma que seja, sutil ou grosseira, haverá inevitavelmente violência. (Fora da Violência, pág. 67)

(…) A violência é uma forma de energia; é a energia que, utilizada de certa maneira, se torna agressão. (…) (Idem, pág. 68)

Pois bem, vemos que a violência existente no mundo é em parte medo, em parte, prazer. Há uma extraordinária busca de sensações; nós as desejamos e incitamos a sociedade e nô-las dar. (…) Ora, na própria compreensão e no percebimento da verdade a esse respeito, essa energia se torna inteiramente diferente. (Idem, pág. 73)

Vós percebeis a existência da violência em vossa vida diária. Se a condenardes, criareis o seu oposto, o ideal da não violência, o qual perpetua a violência (…) Mas na percepção plena e flexível da violência e suas várias conseqüências, reside a nossa libertação dela, e não na mera substituição por outra forma de violência. (O Caminho da Vida, pág. 22)

Mas, há o condicionamento mais profundo, como, por exemplo, uma atitude agressiva perante a vida. A agressividade implica tendência de domínio, busca de poder, de posses, de prestígio. (…) Pode uma pessoa julgar que não é agressiva, mas se (…) ela tem algum ideal, ou opinião, ou escala de valores, existe então tendência para a arrogância, que se tornará gradualmente agressiva e violenta. (…) Esse condicionamento agressivo precisa ser descoberto, para vermos se o herdamos do animal ou se nos tornamos agressivos pelo prazer de nos impormos aos outros, de tomar-lhes a frente. (A Questão do Impossível, pág. 61)

É possível viver sem agressão e, conseqüentemente, sem defesa? Significa todo esforço apenas uma série de ataques e defesas? Pode a vida ser vivida sem esse esforço destruidor? (…) Todo esforço por vir-a-ser não redunda inevitavelmente em afirmação e expansão pessoais, do indivíduo, e, portanto, também do grupo ou da nação, conduzindo ao conflito, ao antagonismo e à guerra? (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 95-96)

(…) Esse “vir-a-ser” aquisitivo cria o oposto correspondente, tornando-se, assim, o ataque e a defesa, uma parte de nossa existência diária. Nenhuma solução se encontrará enquanto pensarmos o sentirmos em termos de defesa e ataque, que só servem para nutrir a confusão e a luta. (Idem, pág. 96)

É possível pensar-sentir sem defesa nem ataque? Só será possível tal coisa quando houver amor, quando cada qual abandonar a cupidez, a malevolência, a ignorância, que se expressam pelo nacionalismo, pela ambição de poder (…) Se o indivíduo desejar resolver permanentemente esse problema, é claro que o pensamento-sentimento deve libertar-se de toda ânsia de posse e de todo temor. (Idem, pág. 96-97)